segunda-feira, 21 de junho de 2021

21 de junho de 21

 Flora, amora

Te perguntei o que você acho do livro e, ao invés de responder, você me olhou boquiaberta. Aí eu entendi o que seu pai quis dizer quando perguntei, a ele, o que você tinha achado do livro; "ela não acreditou, ficou olhando com a boquinha aberta. Depois, começou a gritar 'eu e a gogó! sou eu e a gogó' e assistiu a live brigando comigo, cada vez que eu falava 'é a minha mãe' ela batia no peito e dizia 'é a minha gogó' e está folheando o livro até agora". 

A sua reação derrubou a minha notícia. Ia começar contando, toda feliz, que finalmente tenho um livro publicado e distribuído, que as pessoas estão lendo e comentando comigo sobre o que acharam. Você não tem palavras para dizer o que achou, e por isso ficou me olhando boquiaberta. E eu, na verdade, também não tenho palavras para descrever isso. A sua reação foi mais importante do que o fato de eu ter escrito e publicado o livro.

Bem, já estou escrevendo o próximo. E talvez ele te deixe de boquinha aberta por muito tempo. 

Você nem conversou mais comigo nessa ligação! Ficou virando as páginas do livro, demorando em algumas e comentando "papai" "mamãe" "olha eu aqui"; eu, só via o alto da sua cabecinha cacheada e a capa do livro aberta, na minha frente. Parecia a sua gogó e seu eterno refúgio nos livros. Sendo que esse, o meu, o nosso, eu ainda nem segurei nas minhas mãos porque estou "longe", como você sempre diz. O livro nem é mais meu, é de quem está lendo e se vendo nele: você, seus pais, as crianças do projeto, o Buiu, a comunidade. E mais: um empresário comprou 50 exemplares e distribuiu para pessoas que nunca vi na vida; outro que tem uma gráfica vai fazer uma nova impressão para distribuir, também.

A grande notícia é o que você fala. Para mim, é o que mais importa. Papai me ligou para a gente conversar um final de tarde na semana passada, estava frio, você agasalhada e cansada, vai saber de quais agitações na escola. Nem quis falar comigo, fiquei triste a princípio mas logo comecei a fazer gracinhas para lutar contra o seu mau humor. Contei que tomei vacina e em duas semanas a gente vai se ver, e que daí eu vou te dar um presente. Seus olhos de jabuticaba logo se iluminaram e você disse simplesmente: "boneca que fala".

Claro que a gogó não iria esperar duas semanas para te dar uma boneca que fala que já estava na sua mente, afinal não precisou pensar um minuto em qual presente gostaria de ganhar. Inclusive eu falei que ia te dar a boneca e você já completou: "e um bichinho", então quando desligamos eu dei um google e já comprei a boneca para você receber o quanto antes. 

Dias depois nos falamos de novo e você traduziu as diversas falas da boneca, quando ela disse "quero a minha mamãe" você me explicou "ela quer a mamãe dela" e quando ela disse "estou com sono" você me contou "ela está com sono". Perguntou ao seu papai onde será a caminha dela, e quando ele disse que você é a mamãe dela ficou revoltada, porque na verdade ela é a sua amiga que fala, não sua filha.

Melhor do que tudo isso - mesmo em um país soterrado por meio milhão de mortos (número subestimado), desgovernado por um genocida tão sádico quanto lunático, racismo imperando e fome voltando, mesmo com tudo isso acontecendo - é saber que eu vou te ver em breve. A gogó não vai mais ficar longe e, maior das ambições, nunca mais irá ficar tanto tempo longe da netinha. Foram 5 meses, de novo, como na primeira onda da pandemia. E ainda tem gente que é contra a vacina.