quinta-feira, 4 de março de 2021

Quase um ano

Flora, são 2h19 da madrugada e não consigo voltar a dormir. Lembrando de um ano atrás, quando cheguei em São Paulo e subi para a sua casa, estava tendo uma festinha. Aniversário do seu papai. Abri a porta e tinha uma menininha - sim, você - de casaco de tricô branco, você era tão pequenininha! Estava com a Juju, amiga do seu pai desde criança, eu te abracei tão forte. Você saiu correndo, a última vez que eu tinha te visto ainda andava vacilante. Mas não fazia mal porque logo eu ia te ver de novo, e de novo, de novo. Mas aí começou a pandemia e eu fiquei sem te ver por cinco meses. Você cresceu e aprendeu um monte de coisas e eu tava longe. E agora, está começando outro lockdown e não sei quando eu vou te ver de novo. Seu pai falou que agora você não tem mais memória de peixe (hahahaha) e ele tem razão. Que você olha a minha foto na geladeira e fala "a gogó". Que ele vai ligar pelo vídeo do celular - a gente não conversa, mas sim brinca juntas. Só que mesmo assim tá doendo e eu não consigo voltar a dormir.

Porque você tinha uns fiozinhos na cabeça e agora tem uma cabeleira toda cacheada, e eu te amo tanto e queria te ver crescendo todos os dias e não só de vez em quando.

O importante é que fiquem bem, que nós fiquemos bem. Eu sei disso.

Eu te amo, viu?

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Flora, amada da gogó

Acho que muito da minha insônia de hoje, e da inquietude dos últimos tempos, vem de perceber que a pandemia não ficou sendo uma fase, nem mesmo um ano ruim, mas um período mais longo que nem temos a previsão de quanto tempo vai durar. 

Março, para mim, é um mês de inícios. Foi o mês em que eu nasci, o mês em que me tornei mãe, E acho que esse março veio com uma frustração imensa da incerteza quanto ao futuro. Em março de 2019 você era uma nenezinha e eu voltei a morar em São Paulo; em 2020, março foi o mês em que começamos a quarentena; e esse março de 2021, sabe-se lá. Recomeçamos a quarentena, os hospitais estão lotados, o sistema de saúde colapsado. 

Preciso de um projeto. Por causa disso, resolvi começar finalmente a escrever. Esse blog vai ganhar um novo formato, virar um livro, Raízes para Flora. E vou também finalmente levar a sério o meu projeto literário. Assim, depois desse período terei algo concretizado. E, durante o tempo de reclusão, ao menos tenho um norte. O que eu queria mesmo era estar aí com você, penso nisso todos os dias. E preciso transformar essa frustração em ação, em algo concreto, real, de verdade. 

Não é bem isso que eu queria estar vivendo agora, mas é o que temos para o momento. E não devemos reclamar, afinal estamos vivos, bem, com saúde e até mesmo trabalhando, em um período tão difícil para todos. 

Penso em vocês o tempo todo, e essa foto mostra bem isso, de maneira simbólica e concreta como carregar um saco de 5 quilos.

Te amo

Gogó



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