terça-feira, 9 de março de 2021

Amanhã fará um ano

Minha querida Flora Benita, a netinha amada

Ontem falamos por vídeo seu papai e eu, você estava de boas, na sua, e não quis conversar. hahahhahaha como pode? Você é uma nenenzinha e já cheia de postura e vontade. Ficou no seu joguinho e só deu um oi e disse para seu papai, quando ele ofereceu mamão: "eu não quero". Assim, com todas as letras, a poucos dias você falava sílabas e a gente tinha que completar. 

Fiquei com pena, ontem. Seu papai está sentindo, com toda a razão, que nada contra a corrente, aquele esforço tremendo para ir para a frente e as ondas empurrando para o começo, o empenho todo fica em não voltar ainda mais para trás do que estava. E isso é triste, é difícil, mesmo a gente sabendo que não pode reclamar (muito) quando nos comparamos com a maior parte das pessoas. Estamos sobrevivendo, e isso é ótimo. Mas o sentido da vida não é a mera sobrevivência.

Toda manhã eu escuto duas mulheres conversando, acho que trabalham na casa de uma vizinha e o som entra pelo cobogó da lavanderia aqui de casa. Já ia escrever: área de serviço! Olha só: aí no primeiro parágrafo, eu pensei em dizer: "fiquei com vontade de entrar pelos buraquinhos do telefone e te apertar", como se dizia ´antigamente´. Mas percebi que a imagem do bocal do telefone, com buraquinhos por onde a gente falava, ficou perdida lá no passado. E até essa ideia de te apertar é antiga, hoje os adultos não determinam o grau de aperto na netinha, depende do humor e da vontade dela. Enfim, área de serviço é um termo que ficou até mais ultrapassado. Quem faz o serviço de lavanderia aqui é a mesma pessoa que senta no computador ao lado, que fica no ´quarto de empregada', ambos locais onde quem trabalha orgulhosamente é a gogó.

Ao lado da sua gogó tem uma lousa colada na parede, presente de sua mamãe. Nela, estão escritas as tarefas e os nomes dos clientes. Na parte superior estão anotadas ideias, e uma delas chama Raízes para a Flora, que é como chamo o livro que anda querendo nascer da minha cabeça para fora. Está anotado ´vovó Queila´ que é um lembrete de que quero te contar sobre a minha gogó, algum dia que estiver sem pensamento sobre o que escrever aqui no diário. Só que eu sento para escrever e tem uma ideia já querendo sair e chegar até você nessa garrafa que estou lançando ao mar para você ler no futuro, né, e também para seu papai ler nas próximas horas (espero).

Mas o que eu ia contar é que essas mulheres em algum dos apartamentos vizinhos - não sei se é o de lado, o de baixo - conversam todos os dias exatamente às seis horas da manhã, Certamente é o horário da troca de turno, acho que elas são as cuidadoras de uma senhora, pelo que entendo. E elas só falam de comida. Acho isso tão pequeno que me enerva. Porque o alimento é a estratégia da sobrevivência, não adianta muito comer para permanecer vivo para poder comer. E a maior parte das pessoas fala sobre comida a maior parte do tempo. Domingo, elas estavam trocando ideias sobre alguém, fofocando, para falar bem a verdade. O sentido da existência não é fofocar, é claro, mas já melhorou bastante em relação a falar só de comida. 

Eu queria muito abraçar seu pai e contar para ele que as coisas vão melhorar e ele vai sentir a vida voltar a andar para a frente. Que períodos difíceis acabam por ganhar o nome de ´experiência´ e passam a fazer sentido mais lá na frente. Que a personalidade da gente é forjada, também, nesses tempos que passamos ´ouvindo o barulho do relógio´, para usar uma expressão mais velha ainda do que essas anteriores que eu citei. Ao contrário desse clichê "vai passar", isso tudo não vai passar - vai moldar a nossa história, o futuro de vocês. Nós, vocês, seu papai, somos privilegiados que não apenas sobrevivemos (o que já é um grande privilégio) mas também refletimos, aprendemos com as experiências.

Amanhã, fará um ano que eu saí daí da casa embaixo da sua em direção ao aeroporto, pensando que em duas semanas estaria de volta, e fiquei cinco meses sem te ver. Dessas coisas difíceis de entender e mais ainda de aceitar, mas que farão parte da nossa história, também. Cabe a nós fazer a leitura que quisermos e pudermos fazer. Mas, te confesso, sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Passar pelo buraquinho de minhoca do tempo/espaço e chegar aí, perto das pessoas que eu mais amo nesse mundo, apertar muito vocês, falar o quanto vocês são importantes para mim. 

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