quinta-feira, 11 de março de 2021

Um ano, ontem

Curioso que eu havia falado sobre a minha vonta de ´passar pelos buraquinhos do telefone´ e te encontrar, e ontem você falou ´gogó, sai daí, vem aqui´, pedindo para eu ultrapassar a barreira do vídeo e me materializar para dentro do seu quarto. 

Mas, essa barreira do vídeo é ao menos o que permite que eu te veja, e vice-versa. Você, para não se esquecer de mim (embora eu tenha muito medo que você ache que eu não estou brincando fisicamente com você, te abraçando de verdade, porque não quero); eu, porque posso te ver, ouvir, entender o quanto você está crescendo.

Você já fala frases completas, que qualquer pessoas pode entender, e começam com uma palavra nova e muito importante: ´eu não quero suco, papai´. Bom, terminam com uma palavra muito importante, também!

Ontem você mostrou que ganhou uma tatoo de coração, que a professora fez com canetinha vermelha na sua mãozinha, eu te mostrei a minha, de estrela cigana, no dedão, igual à do seu pai. Você falou ´é uma estrela´ e mostrou, sozinha, que seu pai tem outra estrela tatuada no braço, pegou e beijou a dele - que é uma rosa dos ventos.

Essa rosa dos ventos, Florinha, indica que mesmo em tempos turbulentos (amanhã escrevo sobre as reviravoltas políticas da semana, misturadas à essa profunda e imensa crise sanitária, tá?) e nós em uma localização geográfica diferente, estamos todos no mesmo desenho. Cada parte do desenho aponta em uma direção, mas a gente se encontra no centro. Eu queria mesmo era estar na mesma sala dessa tatto, onde estão o que me interessa, você, seu papai. 

Não vejo a hora de encontrar vocês. Te amo, Florinha

terça-feira, 9 de março de 2021

Amanhã fará um ano

Minha querida Flora Benita, a netinha amada

Ontem falamos por vídeo seu papai e eu, você estava de boas, na sua, e não quis conversar. hahahhahaha como pode? Você é uma nenenzinha e já cheia de postura e vontade. Ficou no seu joguinho e só deu um oi e disse para seu papai, quando ele ofereceu mamão: "eu não quero". Assim, com todas as letras, a poucos dias você falava sílabas e a gente tinha que completar. 

Fiquei com pena, ontem. Seu papai está sentindo, com toda a razão, que nada contra a corrente, aquele esforço tremendo para ir para a frente e as ondas empurrando para o começo, o empenho todo fica em não voltar ainda mais para trás do que estava. E isso é triste, é difícil, mesmo a gente sabendo que não pode reclamar (muito) quando nos comparamos com a maior parte das pessoas. Estamos sobrevivendo, e isso é ótimo. Mas o sentido da vida não é a mera sobrevivência.

Toda manhã eu escuto duas mulheres conversando, acho que trabalham na casa de uma vizinha e o som entra pelo cobogó da lavanderia aqui de casa. Já ia escrever: área de serviço! Olha só: aí no primeiro parágrafo, eu pensei em dizer: "fiquei com vontade de entrar pelos buraquinhos do telefone e te apertar", como se dizia ´antigamente´. Mas percebi que a imagem do bocal do telefone, com buraquinhos por onde a gente falava, ficou perdida lá no passado. E até essa ideia de te apertar é antiga, hoje os adultos não determinam o grau de aperto na netinha, depende do humor e da vontade dela. Enfim, área de serviço é um termo que ficou até mais ultrapassado. Quem faz o serviço de lavanderia aqui é a mesma pessoa que senta no computador ao lado, que fica no ´quarto de empregada', ambos locais onde quem trabalha orgulhosamente é a gogó.

Ao lado da sua gogó tem uma lousa colada na parede, presente de sua mamãe. Nela, estão escritas as tarefas e os nomes dos clientes. Na parte superior estão anotadas ideias, e uma delas chama Raízes para a Flora, que é como chamo o livro que anda querendo nascer da minha cabeça para fora. Está anotado ´vovó Queila´ que é um lembrete de que quero te contar sobre a minha gogó, algum dia que estiver sem pensamento sobre o que escrever aqui no diário. Só que eu sento para escrever e tem uma ideia já querendo sair e chegar até você nessa garrafa que estou lançando ao mar para você ler no futuro, né, e também para seu papai ler nas próximas horas (espero).

Mas o que eu ia contar é que essas mulheres em algum dos apartamentos vizinhos - não sei se é o de lado, o de baixo - conversam todos os dias exatamente às seis horas da manhã, Certamente é o horário da troca de turno, acho que elas são as cuidadoras de uma senhora, pelo que entendo. E elas só falam de comida. Acho isso tão pequeno que me enerva. Porque o alimento é a estratégia da sobrevivência, não adianta muito comer para permanecer vivo para poder comer. E a maior parte das pessoas fala sobre comida a maior parte do tempo. Domingo, elas estavam trocando ideias sobre alguém, fofocando, para falar bem a verdade. O sentido da existência não é fofocar, é claro, mas já melhorou bastante em relação a falar só de comida. 

Eu queria muito abraçar seu pai e contar para ele que as coisas vão melhorar e ele vai sentir a vida voltar a andar para a frente. Que períodos difíceis acabam por ganhar o nome de ´experiência´ e passam a fazer sentido mais lá na frente. Que a personalidade da gente é forjada, também, nesses tempos que passamos ´ouvindo o barulho do relógio´, para usar uma expressão mais velha ainda do que essas anteriores que eu citei. Ao contrário desse clichê "vai passar", isso tudo não vai passar - vai moldar a nossa história, o futuro de vocês. Nós, vocês, seu papai, somos privilegiados que não apenas sobrevivemos (o que já é um grande privilégio) mas também refletimos, aprendemos com as experiências.

Amanhã, fará um ano que eu saí daí da casa embaixo da sua em direção ao aeroporto, pensando que em duas semanas estaria de volta, e fiquei cinco meses sem te ver. Dessas coisas difíceis de entender e mais ainda de aceitar, mas que farão parte da nossa história, também. Cabe a nós fazer a leitura que quisermos e pudermos fazer. Mas, te confesso, sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Passar pelo buraquinho de minhoca do tempo/espaço e chegar aí, perto das pessoas que eu mais amo nesse mundo, apertar muito vocês, falar o quanto vocês são importantes para mim. 

sexta-feira, 5 de março de 2021

5 de março, 30 anos

Há exatos 30 anos, eu acordei com uma imensa dor na barriga. Percebi que em breve iria receber visitas e lembrei que o sofá continuava rasgado, à espera de um minuto (ou 20, né?) de dedicação. Peguei linha vermelha e agulha e lá me fui costurar o rasgão, tarefa que, além de infrutífera pois obviamente ele logo iria continuar a sua trajetória de destruição tecidual, não poderia ser descrita como a mais adequada para o momento. Afinal, o nascimento já estava 5 dias atrasado em relação à data estimada e a bolsa tinha estourado, eu costurava e sentia escorrer um líquido morno que, logo descobri, estava se tornando verde.

Sim, eu sei. Mas essa é a gogó. Prioriza manter a calma à entrar em pânico, mesmo ouvindo a urgência se aproximando. Quando enfim acordei o gogô o dia já ameaçava amanhecer e ele me deu a maior bronca, com razão, porque já havia trânsito para chegar ao hospital. 

Mas, enfim, chegamos por volta de 6h, 7h da manhã e seu papai esperou até depois das 13h para nascer. Também, tava tão bom ele dentro de mim que nenhum de nós tinha pressa. Essa, você só vai entender o dia que tiver, você mesma, um nenezinho dentro da sua barriga: o sentimento de completude.

Até às 13h gogó ficou em trabalho de parto, tentando ter um parto natural, mas o dr. José avisou que o nenê iria "entrar em sofrimento", isto é, começar a engolir mecônio (o tal líquido verde da bolsa amniótica que havia estourado). Daí, gogó desistiu e encarou uma cesárea. 

O dr. José foi o médico que havia ajudado a sua bisavó a ficar grávida, porque ela demorou um ano depois de casada, algo que na época era considerado um problemão e hoje é visto como uma grande piada. Quando a gogó nasceu, ruiva dos cabelos vermelhos, ele brincou "essa é minha filha" e todos riram. Quando seu papai nasceu, com longos fios vermelhos - parecia uma cebola, mas como eu escrevi a ele em um desses cartões de aniversários dos últimos 30 anos, era a cebola mais linda que eu já tinha visto na vida - o dr. José falou: "nasceu meu neto" e todos choraram.

Desde então, foram 30 anos em que a palavra chorar mudou de significado. 

Há exatas três décadas o meu mundo mudou. Ganhou a cor certa, a trilha sonora perfeita. E bota "som" nisso. Seu papai chegou gritando a plenos pulmões, exigindo desde o primeiro segundo que o mundo ficasse melhor. 

Sorte do mundo, sorte minha, sorte sua, Florinha. Seu papai é uma das pessoas que fazem diferença, incomodam, provocam mudança. Você puxou o gênio forte, já vi, né? Também, teve a quem puxar porque vocês aí, os dos Santos D´Elia, são dos bravos. 

Florinha, dá um abraço apertado no seu papai, um beijo demorado, mostra para ele o amor que eu sinto mas que hoje só consigo mandar de longe. Diz que a gogó tá chorando de saudades.

Dan, feliz aniversário, parabéns por hoje e por tudo, Te amo muito, viu?



quinta-feira, 4 de março de 2021

Quase um ano

Flora, são 2h19 da madrugada e não consigo voltar a dormir. Lembrando de um ano atrás, quando cheguei em São Paulo e subi para a sua casa, estava tendo uma festinha. Aniversário do seu papai. Abri a porta e tinha uma menininha - sim, você - de casaco de tricô branco, você era tão pequenininha! Estava com a Juju, amiga do seu pai desde criança, eu te abracei tão forte. Você saiu correndo, a última vez que eu tinha te visto ainda andava vacilante. Mas não fazia mal porque logo eu ia te ver de novo, e de novo, de novo. Mas aí começou a pandemia e eu fiquei sem te ver por cinco meses. Você cresceu e aprendeu um monte de coisas e eu tava longe. E agora, está começando outro lockdown e não sei quando eu vou te ver de novo. Seu pai falou que agora você não tem mais memória de peixe (hahahaha) e ele tem razão. Que você olha a minha foto na geladeira e fala "a gogó". Que ele vai ligar pelo vídeo do celular - a gente não conversa, mas sim brinca juntas. Só que mesmo assim tá doendo e eu não consigo voltar a dormir.

Porque você tinha uns fiozinhos na cabeça e agora tem uma cabeleira toda cacheada, e eu te amo tanto e queria te ver crescendo todos os dias e não só de vez em quando.

O importante é que fiquem bem, que nós fiquemos bem. Eu sei disso.

Eu te amo, viu?

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Flora, amada da gogó

Acho que muito da minha insônia de hoje, e da inquietude dos últimos tempos, vem de perceber que a pandemia não ficou sendo uma fase, nem mesmo um ano ruim, mas um período mais longo que nem temos a previsão de quanto tempo vai durar. 

Março, para mim, é um mês de inícios. Foi o mês em que eu nasci, o mês em que me tornei mãe, E acho que esse março veio com uma frustração imensa da incerteza quanto ao futuro. Em março de 2019 você era uma nenezinha e eu voltei a morar em São Paulo; em 2020, março foi o mês em que começamos a quarentena; e esse março de 2021, sabe-se lá. Recomeçamos a quarentena, os hospitais estão lotados, o sistema de saúde colapsado. 

Preciso de um projeto. Por causa disso, resolvi começar finalmente a escrever. Esse blog vai ganhar um novo formato, virar um livro, Raízes para Flora. E vou também finalmente levar a sério o meu projeto literário. Assim, depois desse período terei algo concretizado. E, durante o tempo de reclusão, ao menos tenho um norte. O que eu queria mesmo era estar aí com você, penso nisso todos os dias. E preciso transformar essa frustração em ação, em algo concreto, real, de verdade. 

Não é bem isso que eu queria estar vivendo agora, mas é o que temos para o momento. E não devemos reclamar, afinal estamos vivos, bem, com saúde e até mesmo trabalhando, em um período tão difícil para todos. 

Penso em vocês o tempo todo, e essa foto mostra bem isso, de maneira simbólica e concreta como carregar um saco de 5 quilos.

Te amo

Gogó