domingo, 14 de fevereiro de 2021

Domingo, 14 de fevereiro de 2021

 Sua avó vai fazer 57 anos no próximo mês. Mas, alguns dos momentos mais ricos, inesquecíveis, desses anos todos, aconteceram nessa semana que passou. 

Uma vez, eu disse na terapia que, mesmo tendo vivido 27 anos antes do seu pai nascer, para mim não mais existia um mundo antes dele. E isso se repete com você, agora. 

Eu queria que você lesse isso aqui e percebesse que, aos dois anos, era a menina mais encantadora do mundo. Uma menininha de olhos imensos, um sorriso lindo, a carinha morena toda rodeada de cachinhos, o nariz arrebitadinho sempre pronto a se franzir na gargalhada. Uma criança com uma energia inacreditável, que adora dançar, correr, pular, se esconder, cada dia uma brincadeira nova. Mas que, também, dá um abraço apertado na gogó e fica um tempão com as bochechas coladas recebendo beijinhos (seu pai não pode saber disso, tá?)

Como de hábito, fomos comer a nossa pizza vegana. E estava tão bom que poucos dias depois - eu já tinha ido embora, sob seus protestos e ouvindo você chorar chamando a gogó - seus pais resolveram fazer pizza em casa. Seu pai perguntou: "Quem vai comer pizza hoje???" e você respondeu "a gogó".

Eu queria muito, sabia? Gostaria imensamente de estar aí com você, ou ao menos mais perto, ao alcance de vocês em algumas poucas horas. Mas estou a vários estados de distância, de coração apertado de tantas saudades. Vivendo e pensando na próxima vez que vou ver vocês. 


A verdade é que ficar longe de vocês é um sofrimento. Saí com você chorando e chamando "Gogó, fica 'qui, gogó!" e tudo o que eu queria era obedecer. Sinto muita falta de você e do seu papai. Antes de ir embora, a gente - ele e eu - havia ido a um shopping comprar um edredon novo para a sua mamãe. Foi uma furada atrás da outra: não havia UMA mísera opção vegana para comermos, gastamos uma grana desnecessária para comer umas 2 mil calorias vazias e gordurosas, e ainda senti fome na volta, no avião; o uber que chamamos parou na avenida errada; um sistema de táxi bloqueou o celular do papai; demoramos horas para conseguir voltar para casa. E, mesmo assim, foi uma tarde inesquecível.

Adoro a companhia de vocês e o que eu mais queria era poder desfrutar mais, sem entretanto atrapalhar. Minha meta é encontrar esse equilíbrio e as condições materiais de fazê-lo.

Te amo, netinha Florinha



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

2 de fevereiro de 2021

Flora, minha amora

Sua gogó anda falhando bem em escrever, nota-se. Mas não em pensar em você e curtir a netinha, seja por chamada de vídeo ou pessoalmente. Semana passada, você viu uma foto minha e falou para o seu papai: "A gogó! Qué gogó!". Daí ele me ligou e você: estendeu a mão para encostar na minha através da tela do celular, me mostrou a pipa no céu, os piu-pius, a piscina, o croc novo (igual ao meu! lilás), e saiu pulando com ele. Você adora pular! No seu aniversário, você usou o pula-pula alugado como a gogó fazia com as pistas de dança: entrou às 15h e só saiu às 19h, e mesmo assim porque tinha acabado a festa, não estava nada cansada. Você não ficou apenas brincando nele mas, literalmente, pulando. Curioso que as outras crianças tinham o dobro da sua idade - 4 anos - mas você não ligou a mínima para isso, ficou nada intimidada. 

Você é uma graça. Tem a personalidade forte, nada tímida, e adora esportes. Pular, bola, correr. Que bom que agora você voltou para a escolinha e está aproveitando tanto, ontem seu papai mandou fotos de você jogando bola na quadra com as suas amiguinhas, e eu só fiquei aqui imaginando a sua alegria.

Deixa eu te contar uma história: eu era sempre a última a ser escolhida para os times - ou a penúltima, quando a minha prima Adriana era a capitã. Uma vez, na escolinha de esportes do time (que minha mãe me obrigava a frequentar, cheguei a explodir alguns termômetros os aproximando do abajour para que esquentassem e ela achasse que eu estava com febre), a escolha dos times era numa quadra enorme e ao final só estava eu, sentadinha de pernas cruzadas, e mais uns pernas de pau como eu. Daí um cara desceu lá da arquibancada - meu pai - me pegou pela mão e me tirou daquela situação vexaminosa e, de quebra, da escolinha de esportes. 

Na escola, eu conseguia convencer os professores a ser "coringa", só entrava nos times se faltasse alguém. Eu só era boa em queimada, porque minha única habilidade era fugir da bola hahahahahaha. Mas fazia balé, na adolescência fiz aulas de tênis e, quem diria, hoje adoro atividades físicas - desde que solitárias, porque tenho trauma de afundar os times, né?

Pensa que eu era muuuuito míope e só descobri aos 9 anos! E daí, já quase não enxergava nada. Uma tarde,  fomos - seu bisavó, sua bisavó, seus tios-avôs e eu - 'ver avião subir', um típico programa de paulista. E o meu pai falou: olha o avião! E eu: onde? Ele ficou super irritado comigo, que já estava passando por uma frase de sofrimento: olhava a lousa na escola e não entendia nada, mas todo mundo entendia, e eu não sabia o que estava acontecendo. Eu achava que o mundo era daquele jeito, não sabia que eu é que não estava enxergando direito. 

Até um dia que a minha mãe pediu para eu ler o nome de uma rua na placa e eu: que placa? Ela na hora puxou o freio de mão e virou para trás: você não está mesmo vendo que tem uma placa? E, finalmente, percebemos todos que eu precisava usar óculos. Sua gogó tem 10 graus em uma lente e 8 na outra, nesses óculos que você adorava por os seus dedinhos - agora, aos 2 anos e inteligente como é, já entendeu que não é algo que a gogó aprecie muito.

Enfim, a bola entrava no meu campo de visão apenas quando já estava tão perto que só me restava desviar correndo - razão das minhas únicas medalhas serem de queimada. Imagina mergulhar em uma piscina, então. Mas, hoje, tenho tantas medalhas de corrida que não as guardo mais. E treino kettlebell sport graças ao seu papai. E levanto mais peso do que muitos rapazes: sempre que eu ia fazer um agachamento livre na academia, um professor logo colava ao meu lado com medo de que eu não fosse capaz de fazer com todo aquele peso. Mas eu sou, é claro.

Essa autoconfiança demorou para surgir, porque imagine só: uma vez, na escola, todas as crianças tinham que pular por sobre uma corda esticada e um menino disse: essa não vai conseguir. Eu fiquei tão triste! Mas fui lá e pulei, e ele: é, até que conseguiu. Aconteceu o mesmo em uma prova de corrida, anos depois, e eu me senti muito depreciada. Era uma corrida curta, de velocidade. E a verdade é que não sou rápida mesmo, até hoje, mas completo uma meia maratona no meu ritmo, feliz da vida. 

Mas a questão é que eu fazia o meu melhor, que em termos esportivos podia ser menos do que eles eram capazes. Mas em termos pessoais, eles deixavam bastante a desejar e, vai saber, hoje eu até que estou melhor do que a maior parte da minha geração em termos físicos (e continuo sendo uma boa pessoa). 

Até mesmo uma professora, que deveria incentivar as crianças, uma vez me disse: vou te dar a medalha porque seu time venceu, mas você não mereceu. Flora, me conta: como uma professora olha nos olhos de uma criança e fala isso? Uma professora! É por isso que estou te contando essas histórias todas: porque seus pais são professores de esportes e você é uma esportista nata. Mas vocês três são também sábios, estudiosos - quando você ouve a gente falando a palavra livro vai para o seu quarto e logo volta com vários dos seus livrinhos para conversar sobre eles, também. Ahhhhh que menina mais fofa e perfeita que você é!

Gogó tá morrendo de saudades. Mas vai aguentar viva, porque daqui a exatamente uma semana vou para aí te encontrar. Te amo, netinha linda e agitada.