domingo, 25 de outubro de 2020

Gogó Qui Bu

 Aqui, vovó, vamos brincar de se esconder como no outro dia. Mesmo uma semana depois, você lembrou perfeitamente da brincadeira que fizemos no restaurante de sempre - de quando a gente ia almoçar e passava no trabalho da sua mãe, namorada do seu pai, e eu de passagem pela cidade. Depois, a gente ia bastante, sua mamãe comendo até mais mas vomitando tudo em seguida, você ocupando seu espaço dentro dela, e mais tarde você ia no moisés, no cadeirão, agora comendo bastante e querendo logo levantar da mesa para brincar de se esconder, um jogo que não faz muito sentido se for pensar bem, mas quem quer pensar direito, quem quer ficar sentada comendo se pode fingir que se escondeu e fingir tomar um susto e a própria pessoa dar um pulo no ar e falar bu?

Uma menina linda que já sabe falar tudo, não as palavras mas contar o que gosta, qual o jogo, adora falar não - não, papai; não, mamãe. Gó! Qui, bu. 

Um mês curtindo você, Flora Benita. Foi mágico. Mas, agora, que saudades.

Qui, reparo que não tenho escrito e que deve ser porque a pandemia, a quarentena, virou algo difuso que ultrapassa a minha compreensão. Entrou em casa, o vírus, a mãe do Gael sabe-se lá como pegou e ele trouxe, seu gogô daqui pegou, eu fiquei muito mal e nervosa, chorei muito mas não peguei. E resolvi que se era para chorar não seria de saudades de vocês. 

Mas as pessoas estão na rua, sem máscaras, e na verdade a maior parte não morre. Mas o avô da Jamile morreu, ontem. E a mãe da Roberta, e o Daniel Azulay, e o Sérgio Sant'Anna, e o pai e a mãe da Ana Lúcia na mesma semana e até o Frederico que tinha outra coisa e não encontrou vaga na UTI. A mãe do Gael ficou internada, diz, e a avó dele, e agora está o avô. E aqui passou como uma gripe incômoda, então não sabemos.

O elevador do prédio tem uma placa que diz "exclusivo para os moradores que tem convide-19", sic. No shopping, tem uma entrada separada de uma saída, como se um vírus fosse pensar 'opa, aqui é só para sair, não é para mim, não'. As pessoas lavam as sacolas e tiram os sapatos, como se fosse isso, como se fosse assim. Um país que controlou a AIDS e ninguém entende o que é um vírus.

Dois escândalos por dia - um aliado com dinheiro enfiado no lugar de fazer cocô, sério! e o governo continua aí, firmão. A resistência é um bando de hashtags e notas de repúdio. Dinheiro dos milionários, bilionários, sei lá, apaziguando os pobres, dando esperança onde deveria crescer a vontade de lutar. 

Tempos tão estranhos e eu normal, trabalhando duas vezes mais, lendo bastante e sem conseguir escrever o que não sei contar e muito menos resumir.

O que eu sei é o que vai sobrar disso tudo, a preciosidade de um amor que diz gó, qui: bu!



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