quinta-feira, 29 de outubro de 2020

29 de outubro de 2020

 Oi, minha netinha florida

Sonhei com você agora cedo, nem quis voltar a dormir porque queria guardar sua imagem na retina. Foi só um flash: tocava uma música e você ficava paradinha, para daí começar a pular, como você faz mesmo. Só que você olhava de soslaio, com o cantinho do olho, para ver se eu estava te olhando e, quando dava uma voltinha, eu estava mesmo te olhando; também, como a gente faz mesmo. Só que eu olhava a sua carinha e me dava um amor imenso, que inundou e aqueceu meu peito, no sonho e na realidade, tanto é que eu acordei. Nesse lugar estranho que ainda não é o dia mas já não é totalmente o sonho, eu te dava um beijinho no nariz e deixava meio melecado porque eu estava usando manteiga de cacau nos lábios, como eu sempre faço mesmo. 

Depois que o dia começa, vêm as leituras e a realidade. Como essa, que me lembra que antes de ir dormir eu soube que a França vai 'fechar' amanhã, fazer lockdown absoluto porque a peste voltou. Daí, acordei tão cedo e continuei a (re)leitura de Wolf Hall, exatamente no seguinte trecho:

"Todos parecem dotar a peste de uma inteligência humana, ou pelo menos animal: o lobo ataca as ovelhas, mas não nas noites em que os homens e os cães estão montando guarda. Talvez pensem que a peste é mais que animal ou humana - que Deus está por trás dela, Deus, aplicando seus velhos truques."




domingo, 25 de outubro de 2020

Seu papai

 Ontem, seu papei me contou que vai dar uma aula sobre eurocentrismo para um grupo de estudantes universitários. E também, vai dar um curso de formação no coletivo negro do qual faz parte. Privilégio seu crescer vendo outras coisas, em um mundo tão cheio de igual. A foto de vocês com o professor de jiu jitsu, o maior, todo mundo registrando o momento histórico da faixa coral e você olhando para o canto da fotografia, achando tudo normal: para você, isso tudo é mesmo normal. 

Só que não é. Um tempo tão igual e tão desigual, todo mundo querendo o mesmo e quase ninguém podendo querer algo. Você vai refletir sobre isso, mais tarde. 



Gogó Qui Bu

 Aqui, vovó, vamos brincar de se esconder como no outro dia. Mesmo uma semana depois, você lembrou perfeitamente da brincadeira que fizemos no restaurante de sempre - de quando a gente ia almoçar e passava no trabalho da sua mãe, namorada do seu pai, e eu de passagem pela cidade. Depois, a gente ia bastante, sua mamãe comendo até mais mas vomitando tudo em seguida, você ocupando seu espaço dentro dela, e mais tarde você ia no moisés, no cadeirão, agora comendo bastante e querendo logo levantar da mesa para brincar de se esconder, um jogo que não faz muito sentido se for pensar bem, mas quem quer pensar direito, quem quer ficar sentada comendo se pode fingir que se escondeu e fingir tomar um susto e a própria pessoa dar um pulo no ar e falar bu?

Uma menina linda que já sabe falar tudo, não as palavras mas contar o que gosta, qual o jogo, adora falar não - não, papai; não, mamãe. Gó! Qui, bu. 

Um mês curtindo você, Flora Benita. Foi mágico. Mas, agora, que saudades.

Qui, reparo que não tenho escrito e que deve ser porque a pandemia, a quarentena, virou algo difuso que ultrapassa a minha compreensão. Entrou em casa, o vírus, a mãe do Gael sabe-se lá como pegou e ele trouxe, seu gogô daqui pegou, eu fiquei muito mal e nervosa, chorei muito mas não peguei. E resolvi que se era para chorar não seria de saudades de vocês. 

Mas as pessoas estão na rua, sem máscaras, e na verdade a maior parte não morre. Mas o avô da Jamile morreu, ontem. E a mãe da Roberta, e o Daniel Azulay, e o Sérgio Sant'Anna, e o pai e a mãe da Ana Lúcia na mesma semana e até o Frederico que tinha outra coisa e não encontrou vaga na UTI. A mãe do Gael ficou internada, diz, e a avó dele, e agora está o avô. E aqui passou como uma gripe incômoda, então não sabemos.

O elevador do prédio tem uma placa que diz "exclusivo para os moradores que tem convide-19", sic. No shopping, tem uma entrada separada de uma saída, como se um vírus fosse pensar 'opa, aqui é só para sair, não é para mim, não'. As pessoas lavam as sacolas e tiram os sapatos, como se fosse isso, como se fosse assim. Um país que controlou a AIDS e ninguém entende o que é um vírus.

Dois escândalos por dia - um aliado com dinheiro enfiado no lugar de fazer cocô, sério! e o governo continua aí, firmão. A resistência é um bando de hashtags e notas de repúdio. Dinheiro dos milionários, bilionários, sei lá, apaziguando os pobres, dando esperança onde deveria crescer a vontade de lutar. 

Tempos tão estranhos e eu normal, trabalhando duas vezes mais, lendo bastante e sem conseguir escrever o que não sei contar e muito menos resumir.

O que eu sei é o que vai sobrar disso tudo, a preciosidade de um amor que diz gó, qui: bu!