sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Dia 4 de setembro de 2020

Depois de cinco meses sem te ver, você olhou para mim, do colo da outra vovó. Eu só fiz um coração com as mãos, nem tentei chegar muito perto. Ela te levou para onde estavam sua mamãe e seu papai: sentados no chão, entre a parede e a cama, e você ficou brincando entre eles. Eu sentei na cama, você encostou a ponta do dedinho no dedo da sua mãe, eu encostei o meu dedo no dela e só aí, na pontinha do seu, e você falou: nana. Eu perguntei: você quer uma banana? Então vem comigo que eu te dou. Estiquei a minha mão e você pegou, saímos andando as duas de mãos dadas. 

Depois do almoço, você ficou chatinha e seu pai disse que era sono, e que ia demorar um pouco até você conseguir dormir. Eu te aninhei nos braços e fiquei te embalando. Ele olhou e viu você dormindo profundamente, se espantou. Eu fiquei olhando você e sentindo o seu cheirinho, seu peso, sua forma. Dormi um pouquinho também, quando acordou você chorou chamando sua mãe. Daí em diante foi como se os últimos cinco meses, nós duas distantes, não tivessem existido.

Ursula Le Guin disse que escrever uma história é explicar em palavras o que não pode ser explicado em palavras.


 

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