domingo, 27 de setembro de 2020

27 de setembro - Yom Kipur

Nasceu! 

Eram as primeiras horas do dia 18 de janeiro de 2019 quando eu “senti” que você tinha acabado de chegar ao mundo, Florinha. Fiquei deitada de olhos abertos, no que hoje é o seu quarto, e depois de um tempo recebi uma mensagem do seu papai que dizia: Flora nasceu.

Você chegou linda e perfeita, e depois só foi melhorando. 

Hoje estou começando o meu jejum de Yom Kipur - já te explico - e pensando em você. Mas, até aí, nada demais: o que eu mais penso na vida, as minhas absolutas prioridades, são essas mesmas: papai e você. 

Amanhã a essa hora o ano novo judaico, 5.781, vai nascer também. Essa coisa de ano e de número é muito relativa, tanto é que a pandemia chama covid-19 e, para mim, esse ano de 2019 foi marcado pela vida, amor, abundância, felicidade. Foi marcado pelo seu nascimento.

Como eu disse, só faz melhorar. Na semana passada fomos jantar e você, do nada, virou para mim e falou: “eeeeeeh gogó!” produzindo um calorzinho gostoso no meu coração. Uns dias depois fui na sua casa e você adormeceu, quando acordou olhou para mim e disse ”Gogó”, veio pertinho, colocou a cabecinha no meu peito e dormiu de novo. Em outro momento, colocou um lenço umedecido em volta do meu pescoço e riu muito, mostrando seus dentinhos lindos, como se estivesse vendo a coisa mais engraçada do mundo. Dois dias depois, fomos buscar um burguer vegano no Prime Dog da Faria Lima. Você mandava eu tomar água ao mesmo tempo que você, duas palavras que você (praticamente) já sabe falar: água e igual. Isso também foi muito engraçado, tanto é que você riu muito. E também chamou várias vezes: “gogó!”. Já tá entre gogó e vovó, na verdade, o som dessa palavra. Só que isso nunca fica banal. 

Para melhorar ainda mais, seu pai foi ao banheiro e você inventou uma brincadeira de colocar o seu rostinho entre as minhas mãos. Certamente porque sabe que adoro fazer carinho em você. Quase que jogava a sua carinha linda entre as minhas mãos. Que graça.

A verdade, Florinha, é que criança é a melhor coisa do mundo.

Uma vez fui com seu papai ao teatro. No Centro Cultural São Paulo, demorou um tempão, ficamos horas na fila etc. etc. etc. A peça começou e não deu cinco minutos seu pai me pegou pela mão e disse: “vamos!”. E me levou para fora do sala de teatro. Daí eu expliquei para ele que não, a peça mal tinha começado; mas ele estava apavorado, desesperado para ir embora e eu acabei me rendendo e saímos. Lá fora, ajoelhei na frente dele e perguntei o que tinha acontecido, e ele: “o capitão Guincho (sic) queria pegar você”. Eu pedi para ele explicar e ele repetiu o que o capitão Gancho havia dito: “quero arrumar uma mãe para mim, vou escolher a melhor mãe do mundo e levar para ser minha”. 

Flora, eu podia falar dez mil linhas sobre Peter Pan (era essa a peça, né) e como a infância é o estado maravilhoso de descobertas e alegrias; ou sobre capitão (esse traste que por ora nos desgoverna) e como o passar do tempo leva coisas embora, assim como levará esse idiota e os imbecis que se orgulham da própria ignorência. Mas, ao invés disso, vou fazer um desejo - além do tradicional, que sejamos inscritos no livro da vida. Que em 5781 eu possa ter muitos momentos maravilhosos ao seu lado, junto do seu papai. Te amo 

A primeira vez que eu jejuei foi quando completei 12 anos. Levamos a minha avó na sinagoga e fomos a um restaurante (!) onde fiquei sentada olhando os outros comerem. Depois, meu pai falou que achou que tinha feito errado, que poderia ter me poupado de olhar e passar vontade. Só que não passei. Acho que sempre tive muita força de vontade, determinação, autodisciplina. Quando resolvo que vou - ou que não vou fazer algo - tá decidido, tô decidida. Não comi, não bebi e não aumentei a importância daquele momento; nem como tentação nem como um descuido. Que foi, né?

Enquanto escrevo, sei que você foi ao mexicano com mamãe, papai e gogô. Quando vê a frente do restaurante, você bate palminhas e faz: "eeeeeeee". Hoje, eu não fui porque estou aqui me cuidando, meditando, ouvindo o rabino dizer que 'a autoceitação, parece um paradoxo, mas é o primeiro passo para a mudança'. Esse descuido, de me levar a um restaurante durante o jejum, eu não cometo comigo. Mas até valeria a pena, só para te ver bater palminhas. Falar "gogó". Dar sua risada feliz.

Felizmente, vou estar com vocês para quebrar o jejum. Seu papai, que é o melhor filho do mundo, marcou de jantarmos você, mamãe, papai e gogó. Juntos. Que, por sinal, é o meu desejo para 5.871.

Shaná Tová!

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