domingo, 30 de agosto de 2020

30 de agosto - parando de contar os dias da quarentena

Florinha amada, ontem teve uma festinha de criança aqui do lado. Você adora cantar parabéns, bater palmas, soprar a velinha, né? Mas só que essa foi bem diferente. Escutei uma música de aniversário tocando bem alto, e olhei pela janela na direção do salão de festas. Mas, não. A festinha era no estacionamento, meia dúzia de crianças de máscaras e a mãe de uma delas. Acho que nem tinha bolo, porque não daria para assoprar. Todo mundo cantava, mas ninguém se abraçava. Eu comecei a chorar, acredita? 

Tão triste isso, netinha, essa pandemia horrorosa. As crianças não podendo se abraçar, brincar, correr todas juntas. E os adultos achando que tudo bem continuar fazendo mil compras (só que pela internet), comendo carne e descartando plásticos da maneira correta para a reciclagem. Gente, precisa desenhar que não dá para continuar consumindo o planeta? Qual parte ainda não está clara o suficiente? Não adianta apenas tentar amenizar,  'consumir verde' ou 'compensar o consumo'. Se bem que tem carro que não usa combustível fóssil e a motorista se diverte mesmo sem queimar gasolina, como esse aí da foto.


Resolvi parar de contar os dias da quarentena porque acho que o 'novo normal' de que todo mundo falava é hoje, é esse normal aí que a gente está vivendo. As coisas parecem que não vão melhorar, ao menos do que depender do ser humano. Desculpe se estou sendo negativa! Vamos melhorar esse astral e falar de algo que eu amo e pelo visto você também adora? Vamos falar de dança!

Sabia que a sua vovó já foi mocinha? E, naquela época, era conhecida pelos amigos como a pessoa que chegava na festa, 'abria' a pista e dançava até o sol raiar? É sério! E, inúmeras vezes, não tinha onde ou com quem dançar, e eu ia sozinha a uma boate gay, onde sabia que podia brincar de dancing queen sem ninguém me aborrecer? É verdade, Florinha, e também era comum eu colocar uma música e dançar na frente do espelho por horas e horas e horas. Também, estudei ballet e danças folclóricas desde pequena.

Seu papai me chamou no vídeo essa semana e você estava dançando uma música super no ritmo! E, cada vez que acaba uma música e começa outra, você muda a forma de dançar e a postura, e acompanha a batida direitinho. Já tem uma coreografia certinha para as músicas que estão no seu Top 10, que gracinha. Daí, uma hora a música parou e você fez aquilo que eu a-do-ro, jogou os bracinhos para trás e o corpinho para a frente e fez um 'O' na boquinha, a mímica perfeita do 'mas o que é isso, pessoal?'. 

Agora, só de lembrar, não sei dizer se me dá mais vontade de rir ou de chorar. De saudades. Não vejo a hora de te encontrar, netinha linda. 

sábado, 22 de agosto de 2020

22 de agosto - dia 160 da quarentena

 Flora Benita, neta linda, minha amora de olhos enormes e cachichos pretos, que sua mãe diz que são antenas do universo. O que eu mais queria agora era estar aí em Mogi com vocês. A segunda coisa que eu mais queria, era ter um filminho dos melhores - ou seja, todos - os momentos que nós passamos juntas. Agora mesmo eu iria assistir você sapateando, pulando - nunca vi um nenê tão ágil! - e fazendo: buuuu! Eu digo 'ai que susto' e você gargalha! O mais engraçado é que essa brincadeira continua rolando mesmo por vídeo, embora claramente não faça muito sentido (o susto, né? nós duas dando risadas juntas sempre fará muito sentido).

Você é agitada e adora se mexer. Já sabe falar bola (bó) e inventamos um jogo de gogósbol que é o máximo, as suas duas vovós se divertem muito. Não tanto por causa da bola rolando, mas por causa da sua risada deliciosa, sua carinha esperta e animada. Quando escuta a Sandy (que seu papai chamava de Sendijunio e insistia que era uma só pessoa) cantando 'vamos pular' você faz o comecinho da coreografia, com os bracinhos para um lado e depois para o outro. E pula muito! E, claro, sabe treinar kettlebell esporte como seu papai. 

Também sabe contar a história do peixe (pexx) que pulou (po) do aquário e nós levamos um susto (so). Susto tem a boquinha aberta, espantada. Na verdade, tem muito mais: você joga o corpinho para a frente e os bracinhos para trás e dá um saltinho para o alto, no mais genuíno e fingido espanto. Só esse gesto, sozinho, já seria suficiente para me encantar e me dá aquela vontade de estar pertinho de vocês.

Depois de almoçar, um dia, você ficou chatinha, com sono. Eu te peguei nos braços e fiquei ninando, seu pai com aquela cara de 'isso não vai adiantar' e logo você dormindo, como uma nenezinha linda que você é mesmo. Daí eu te coloquei dormindo sobre mim, igualzinho eu fazia com seu pai. Ele dormia sobre a minha barriga, de onde ele veio. E você ficou sobre o meu coração, que é onde você mora. Eu sinto que somos ligadas de uma forma diferente: não uma relação umbilical como tenho com seu pai, e você tem com a sua mamá, mas um amor maior que a vida. 


sábado, 8 de agosto de 2020

8 de agosto - dia 146 da quarentena

Gogó aqui, morrendo de saudades. E você aí, vivendo a vida loka pedalando com papai. Ontem, Florinha, você me ligou e mandou beijos, deu tchauzinho, sorriu muito e fez vários amigos nossos encostarem a boquinha no celular para me beijar também: o Pluto nenê, o cachorrinho que late irritante e por isso mesmo está sem pilha, alguns dos anões, inclusive o Mestre, que sempre foi com o qual eu mais me identifiquei (sim, sua gogó sempre foi meio chata, mesmo), o tatu-bola que a Tuca deu e é uma obra de arte de tão lindo. Você está linda, pulante, falante, sorridente, feliz. 

Fora de nossas casas, o Brasil atinge 100 mil mortos e mais de 3 milhões de infectados; as pessoas trabalhando cada vez mais de suas casas fazem com que ainda mais empregos sejam extintos, agravando absurdamente uma recessão que já vinha galopante; as pessoas não sabem nem mais sequer o que chamar de 'novo normal', aquilo que viria no pós-pandemia mas já ficou ultrapassado; os programas de TV voltam a ser gravados com cuidados como limpar as solas dos sapatos e abusar dos detergentes (atitudes completamente inócuas) enquanto as pessoas conversam a menos de um metro de distância (o que, isso sim, transmite os vírus); o presidente é pego recebendo dinheiro de miliciano que esteva foragido, ameaça dar um golpe e não acontece nada.

Mas a gente está feliz: eu, aqui, morrendo de saudades mas trabalhando direitinho, saudável; o vovô Carlos que conseguiu vencer a campanha de financiamento coletivo hoje, e amanhã terá o Gael no Dia dos Pais no qual completamos três anos em Brasília; e você, com seus papai e mamãe, e a família da mamãe em Mogi. 

A vida é loka, mesmo.



sábado, 1 de agosto de 2020

Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Dia 2 de agosto - dia 140 da quarentena

Contagem regressiva para encontrar netinha: faltam 8 dias.

Florinha, por causa do seu pai esse período de quarentena foi extremamente profícuo: tenho lido várias coisas de teoria que ele me indicou. Todas, bem revolucionárias. Embora a gente discorde em alguns temas (eu gosto do termo necropolítica, ele não etc.) tem uma inversão interessante: ele é que me orienta. Ele é o meu professor, o estudioso. Ele que dá indicações de leituras complementares e tira dúvidas. Nessas, tenho devorado vários tomos de teoria, tomos entre aspas, porque leio tudo no meu ebook amado. Até agora me definia como ecossocialista, mas o que eu lia mesmo não passava muito de feministas (O Mito da Beleza, da Naomi Woolf, talvez meu livro preferido; e muitos outros, das clássicas às da novíssima geração, no estilo “Nós somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” - ou seja, você é a neta da neta. Nossa que parênteses longo.); pensadores da internet livre que surgiram junto com a própria mídia, lembrando que eu sou da primeira geração, comecei a trabalhar em uma empresa digital quando ninguém nem tinha e-mail; filósofos da saúde, como Foucault e Susan Sontag (porque sua vovó é sanitarista) e esses que "todo mundo" lê, todo mundo entre duplas aspas: Naomi Klein, Noam Chonsky, Rebecca Solnit, Zizek, vários outros. Enfim, os mais populares. Falando assim parece que lia muito, mas na verdade eu leio mil vezes mais literatura do que teoria.

Conheci o seu vovô Otávio em um curso de marxismo, ele era o professor. Agora, graças ao professor da nova geração (mais conhecido como papai) tenho adorado conhecer Fanon, Losurdo, vários revolucionários, até Ho Chi Minh meu mestre tá me apresentando! Como eu leio só pelo conhecimento mesmo, sem a menor preocupação de sistematizar ou explicar para alguém, é um enorme prazer. O prazer da descoberta, que espero e confio que você abrace, também.

Te amo! 


Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Florinha, não tenho palavras para descrever como nem vejo a hora de te encontrar. Fico lembrando das nossas brincadeiras e imaginando você, com esses olhos imensos de jabuticaba; tentando lembrar do seu cheiro e da sua voz. 
Assim que puder quero te ver assim, bem descontraída, você mesma.