segunda-feira, 6 de julho de 2020

Dia 6 de julho - 113o. dia da quarentena

Florinha, minha netinha linda,
ontem recebi uma foto sua: você descabeladinha, seu pai te abraçando bem firme e você olhando a cadelinha da tia-avó Dedé com curiosidade e um pouquinho de medo. Me doeu de saudades. 
Às vezes parece que estou - estamos - andando em terreno pantanoso: os números de infectados saltaram mas ao mesmo tempo já tá todo mundo na rua, todos os comércios abrindo, como se não houvesse doença. E aí eu, e acho que todos que estamos respeitando o isolamento sanitário, ficamos nos sentindo meio paranoicos, deslocados. Na quinta-feira, os bares do Leblon, onde a vovó morou até pouco tempo atrás, reabriram. Centenas, ou milhares, sei lá, de pessoas lotaram os espaços, todo mundo pertinho, sem máscara, brindando e rindo como se "a frescura" tivesse acabado.
Mesmo os Favelinhas, que estou admirando tanto por tantos motivos, estão fazendo churrascos e passando o tempo junto sem máscaras. Que questão complicada. Daí, às vezes me dá uma sensação de que esse tempo sem te ver foi uma bobeira, uma inutilidade. Só que eu sei que não, afinal sua vovó tem formação de sanitarista, e estudo várias coisas sobre saúde porque eu gosto do tema. E as UTIs estão lotadas, quer dizer, se uma pessoa tiver um problema banal de saúde, não terá atendimento hospitalar, imagina só isso. E tem mais, ninguém sabe se esse vírus, mesmo depois que a pessoa se cura, não é capaz de continuar provocando danos graves ao longo do tempo. Na verdade é o que aponta o estado atual das pesquisas.
Parece que as pessoas não conseguem simplesmente "dar um tempo". Têm que "passar" o tempo: fazê-lo passar fazendo coisas. Por isso perguntei para o seu pai se você é mesmo "na sua" como parece nos vídeos. E ele disse que sim. Eu já tinha notado, como em uma vez que a gente estava brincando juntas e você ficou de costas fazendo a sua macaca de pelúcia caminhar; estava na minha companhia, na boa, mas se distraindo sozinha. Essa é uma característica muito forte minha e também do seu papai; perguntei para ele se a sua mamãe também é assim, "na dela" e ele confirmou. O que é ótimo, porque pessoas que ficam bem na própria companhia estão sempre bem - o que é especialmente verdade nesse momento.
Também, fico agoniada porque já temos mais duas pandemias 'cozinhando' por aí: uma de gripe suína na China, só em porcos por enquanto; mas o vírus se adapta aos humanos em dois palitos. E outra, o retorno da peste bulbônica, que matou dois terços dos habitantes da Europa no século XIX e voltou porque as pessoas comem marmotas!!!!!! Como pode, Flora? Por que as pessoas continuam comendo animais?
Acho que é pouco amor à vida. À vida delas, à dos animais, à vida, enfim. Tanto é que tem gente que diz que 'bacon é vida' e morre de rir, que frase cretina: um porco grita horas e horas, às vezes até dias (eu já vi e foi horrível) enquanto está morrendo. O porco é o animal mais próximo fisicamente do ser humano, tanto que nele são testadas vacinas e extraídos órgãos para transplante em pessoas. E se a morte dele é lenta e excruciante, a morte de quem come, pelas veias entupidas de gordura, começa na primeira dentada e vai prosseguindo lenta, invisível e concreta. Acho muito louco isso, e muito triste também.
A parte boa dessa época estranha é que logo mais estarei com você, não vejo a hora, mesmo.
Te amo Florinha, minha Flora Benita netinha linda
Vovó

Nenhum comentário: