domingo, 12 de julho de 2020

Dia 12 de julho - 119 dia da quarentena

Flora Benita
Amanhã será o dia 120 - já estou há quatro meses sem te ver. Ontem seu papai mandou uma foto que mostra bem o que eu deixei de ver de perto (não vou dizer que eu perdi, porque mesmo de longe, eu ganhei): você já não é um bebê, mas sim uma criança, uma linda menina morena e esperta, por sinal. Na sexta-feira a gente estava conversando, e você saiu correndo e seu pai: "tchau, depois a gente se fala", e você voltou correndo para falar "tchau, vovó", ou mais precisamente "gó!".

Essa semana que passou recebi muitas notícias escabrosas de mortos e doentes por covid. No começo, pipocavam casos de conhecidos: logo no início, a mãe da Roberta, depois o Daniel Azulay e mais uns dias o Sérgio Sant'Anna, um escritor maravilhoso que eu escutei em Paraty, na Flip, e por quem eu tinha uma forma de conexão espiritual que chega a ser uma intimidade, como só se pode ter com artistas criadores, uma espécie de reconhecimento profundo. Ele tinha idade, aliás essas três primeiras vítimas tinham, mas estava escrevendo muito, ainda, inclusive um novo livro que nunca verá a luz do dia.

Mas a última semana começou com uma jovem que nunca verá o seu bebê; um bebê na ala dos prematuros que já verá a luz do mundo sem uma mãe; um pai que está doente em casa, sozinho, sem visitar o filho que nasceu prematuro e ainda sem saber que sua esposa morreu; uma família em que o pai morreu, a mãe está entubada e dois dos três filhos estão bem doentes; e assim por diante. Todos são pessoas próximas, a dois graus, no máximo, de separação comigo. Não conheço muita gente em Brasília, mas duas famílias de pessoas bem próximas estão com todas as pessoas infectadas; dos cinco do escritório, dois têm doentes em casa. Fora o Sirkis, que morreu de acidente de carro e deixou a mãe de 97 anos, por quem era muito apegado. Foi uma semana bem triste, essa aí.

Ao mesmo tempo, vejo tudo reabrindo e as pessoas ansiosas por querer sair de casa. Ontem li uma entrevista com o Fabricio Carpinejar, outro escritor especial, e ele disse que a primeira coisa que fará quando acabar a pandemia será ficar em casa - por vontade. Me define.

A parte boa é que estou progredindo no livro do Buiu e os Favelinhas. Tenho falado com as 'crianças' que, agora, já não são mais tão crianças. Assim como você está na fase mais importante da vida - descobrindo o mundo através da fala, ou seja, da linguagem, e do movimento, ao aprender a andar, e o Gael na segunda fase de descobertas, aprendendo a ler e a escrever, as crianças do projeto estão aprendendo outra coisa que também é uma descoberta muito transformadora. Estão exercitando a cidadania na marra, forçando o seu lugar no mundo, obrigando uma realidade que é bastante cruel a se conformar ao tamanho delas. E, melhor, esse tamanho tem aumentado.

Fico imaginando que você vai crescer rodeada por essas pessoas que elas irão se tornar. O Gu, que seu pai particularmente adora, será um homenzinho, já. A Duda, que é a minha amiga-leitora muito especial, será uma moça, a Ká, que também é minha professora de Jiu Jitsu, também. A Ra, o Pateta, Dani, Biscoito, Kauan, Yasmin, Pedrinho, são muitos os jovens para eu citar todos aqui, esses todos que estão aprendendo uma forma de organização que é revolucionária (mas eles ainda não sabem disso), estão descobrindo uma coisa muito louca: que eles podem mudar o mundo. Desejo que o façam.

Até eu que já passei dos 50 descubro coisas. Quando eu era criança, tinha o hábito de segurar um porta-retrato de prata com a foto do meu avô paterno, olhava bem nos olhos dele e ficava imaginando o que ele gostaria de me dizer. Agora, penso que seu trisavô Icek, que veio da Polônia fugindo da perseguição aos judeus, e pedia para a gente beijar o chão do Brasil ao sair da cama, iria gostar muito de te ver, e aos seus pais, morando com eles e fazendo parte dessa história. Acho que é exatamente o que ele iria querer: um bisneto para seguir a intenção de seus passos, prosseguindo na direção de criar um mundo mais justo. E uma trisneta linda, brasileirinha, com esperteza e olhos de índia, nome de natureza, guerreirinha desde o início.
Te amo Florinha, não vejo a hora de te reencontrar.





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