quarta-feira, 15 de julho de 2020

15 de julho de 2020 - Dia 122 da quarentena

Florinha, tenho trabalhado muito e estou cansada, louca para te reencontrar. Não vejo a hora. Queria muito estar aí, ficar brincando com você enquanto seus papais trabalham. Hoje fiquei muito feliz, porque você pediu para seu papai telefonar para a gogó. Fiquei muito emocionada.

Essa comunicação entre nós resume tudo: ser mãe ou pai é querer estar sempre presente (o que gera uma certa angústia, a bem da verdade). Ser avó é querer deixar uma mensagem. Estar presente entre as diversas dimensões do tempo, o que torna mais suportável a distância no espaço.

te amo

Gogó

16 de julho - dia 123 da quarentena

Flora, minha amora de olhos de jabuticaba

Tive uma insônia como pouquíssimas vezes na minha vida. Meu chefe e amigo costuma dizer que "ficar velho é dormir mal"; eu que sempre me gabei de ser a melhor dormidora do mundo, brincava que se for verdade que dormir pouco é característica dos gênios, eu era uma anta, essa sua gogó que já dormiu de pé em um museu, sem apoiar em nada (sério, pergunta para o seu vovô sobre o Museu Picasso de Barcelona), agora batalho para dormir 7 ou 8 horas por noite. Mas, essa noite, chegou um momento em que eu desisti de tentar e fiquei lendo um livro na cama. Tudo porque soube que a sua vidinha vai voltar à normalidade, vocês vão interromper a quarentena. Eu estava tão feliz com vocês na casa dos outros vovôs, com tia, jardim, atenção, carinho.

Esse tempo todo fiquei propagando a frase 'vidas acima dos lucros'. Agora, estamos vendo a 'vida acima da Vida', isto é, a vida cotidiana, feita das coisas que devem continuar a acontecer, acima no valor maior da Vida. Sendo vida, e não morte, estamos no lucro.

Obviamente seus pais não voltaram às rotinas para ganhar muito dinheiro, e sim porque, simplesmente, as coisas voltaram. A roda do capitalismo opera até mesmo de forma sutil, fazendo o mundo girar. Especialmente os jovens não conseguem se ver à margem da história, observar a roda rodando e não se ver dentro dela, eu entendo isso. Nem posso julgar ninguém, do meu posto privilegiado, no momento até ultraprivilegiado: estou trabalhando normalmente, produzindo muito mais do que o de costume, justamente porque sei, ou consigo, trabalhar de casa. Consigo, aqui, nos dois sentidos do termo: minha empresa está permitindo que eu faça de casa as minhas rotinas de trabalho, e na verdade até aumentando as minhas atribuições; e, após décadas de free lancer, eu sei como conseguir me concentrar e realizar as minhas tarefas diárias.

Tendo substituído as duas horas que eu passava (e adora passar, mas isso acabou) na academia pelo treino super maravilhoso que seu papai formulou para mim, estou ficando mais em forma e ao mesmo tempo poupando duas horas do dia - já que não tenho que ir e voltar. E, no caso por sorte, sou "mais velha", como se diz, e pela minha personalidade, meu lazer é ficar em casa lendo meus livros e escrevendo, mesmo.

Só sinto muita falta de uma coisa, que não é coisa mas sim pessoas: vocês, minha família. Fiquem bem, sem vocês não há nada. Te amo.

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