quarta-feira, 29 de julho de 2020

Dia 29 de julho - dia 136 da quarentena


Flora amada da vovó, hoje é uma data triste; motivo pelo qual essa postagem tem que ser meio triste, também. Motivo pelo qual ela só será postada amanhã, aliás: não quero ninguém imaginando que vá acontecer algo de ruim hoje (além de tudo que já está ocorrendo,né?)

É o nono dia do mês Av (Tisha B´Av) no calendário hebraico. Segue a explicação:

A data de destruição do primeiro grande templo ocorre no mesmo dia, quase setecentos anos antes, que a destruição do segundo templo. O mesmo dia em que Bar Kochba derrotado, institucionaliza o eterno exílio judaico. Não o exílio da autodeterminação, mas o exílio de que nos falam estas coincidências. Pois nessa data, os judeus foram expulsos da Inglaterra e também da Espanha, o maior trauma medieval judaico. Data que inicia pogroms, data em que se inicia a Primeira Guerra Mundial e um destino macabro ao judaísmo do século XX. Data do lançamento da primeira bomba atômica sobre seres humanos. Data de muitas outras coisas, coisas que talvez só você saiba*.

Data desconectada do calendário solar e lunar, um dia qualquer. Seu símbolo não é a tristeza ou o medo da noite, mas o desespero do meio-dia do sol que racha o solo, o sol que se parece, infinitamente se parece com todos os outros sóis de todos os outros infindáveis dias. Momento de saudades, de aperto, de angústia, não do escuro, facilmente desmentido pela luz, mas da própria luz que não parece conduzir a lugar algum, este lugar onde não queremos ir - todos. É a falta. A falta assimilada.

Delicioso desespero que a tradição judaica transformou em ironia, a mesma que nos esclarece que "se não fossem pelas lágrimas não perceberíamos o desagregar-se das cores no arco-íris". Depressão que não é down, que é saudade das sombras que o sol a pique nos sabe roubar. Dia de jejum, de sentir o gosto de si mesmo - saliva repleta de gostos nunca mais sentidos, de uma infância questionável, de um futuro incerto.

Tal qual a água sob certas condições é gelo ou ar, assim é a alma - sob certas condições de luminosidade, é exílio.

Os judeus aprenderam a pintar seus séculos com este tom da alma humana, sua história ajudou. E, tal qual os cálculos indicavam, o fim do poço é o fim, não passa daí. Pois neste dia de acontecimentos fatídicos, de expulsão, de saudades do exílio, neste mesmo dia nascerá o Messias - não - exilado.

Perguntar-se-á alguém menos familiarizado: "Precisa ser tão cinzenta esta tradição?" Ela não é - Promove arco-íris. 
(parte do texto que recebi por e-mail da Congregação Judaica do Brasil)

*nessa data do calendário judaico, em 2003, morreu a minha mãe.

Sua bisavó, Florinha. Depois disso, muita coisa aconteceu: seu pai cresceu (ele tinha só 12 anos naquela época). Conheceu sua mãe, casou, teve a filha mais linda do mundo. Minha netinha.

É, a vida continua. Mesmo em quarentena, longe de você, ainda bem que a vida continua. 

Adivinha quem é essa nenê? Sua vovó Loló, por enquanto mais conhecida como Gó. Essa foto foi tirada no Guarujá, praia onde sua gogó praticamente cresceu, em 8 de março de 1965; faltavam três semanas para eu completar um aninho, portanto.

Te amo

quarta-feira, 22 de julho de 2020

22 de julho - dia 129 da quarentena

Nossa, Florinha, acordei 2h30 da manhã e não consegui mais dormir, levantei, fiz chá de erva-cidreira (lembrei do meu pai), comi duas maças, li muitas páginas do Não Basta Dizer Não (da Naomi Klein). Desassossego total, super preocupada porque seu papai me contou que tem vários casos de covid aí, bem pertinho de vocês, na vizinhança.

A verdade, netinha, amada, é que tá uma bagunça danada - como diria o seu outro bisavô, que adorava usar umas palavras das antigas como danada e camarada. Eu entrevistei uma pessoa muito sábia em saúde, esses dias, uma mulher que é especialista no SUS. Nosso Sistema Único de Saúde é o maior do mundo, sabia? Espero que no momento em que você está lendo isso, ele ainda exista, seja robusto, forte, universal. Enfim. Comentei com ela que eu, mesmo sendo sanitarista, ando lendo o jornal e não entendendo nada. Ela fez um silêncio respeitoso, certamente pensando 'coitada', mas aí eu expliquei e ela concordou comigo: as notícias são tão desencontradas que eu leio tudo e não chego a nenhuma conclusão.

Os casos estão aumentando, ou diminuindo? Chegamos no topo? Na verdade, ficamos estacionados em um platô, só que ele é altíssimo. A situação é péssima, mas ao mesmo tempo as pessoas não aguentam mais ficar em casa com tudo abrindo, dá uma sensação de ser o último crente do mundo. Foi o que eu falei para o seu pai: que tinha que continuar em quarentena, que voltar à vida normal era coisa de negacionista (peguei pesado, eu sei, depois pedi desculpas). E ele me respondeu: mas, mãe, já abriu tudo. E eu entendi, mas fiquei uma noite em claro, sem dormir, como essa de ontem para hoje. Só que essa foi pior ainda.

Em resumo, o que eu desejo é que vocês fiquem bem e saudáveis, só isso. Quero muitas coisas boas para os brasileiros, as pessoas do mundo todo, a humanidade, mas no final das contas só o que me interessa são três pessoinhas nesse universo: você, seu papai e sua mamãe. Mais do que eu mesma. Fiquem bem aí, em três semanas estarei chegando para te ver. Te amo.

sábado, 18 de julho de 2020

Dia 18 de julho - seu aniversário de um ano e meio

Hoje é um dia lindo, minha amada neta Flora Benita completa um ano e meio, forte, linda, saudável, inteligente, carinhosa. Mais do que perfeita, parece um milagre (lembrei que chamava seu papai de milagrinho quando ele era nenê). Parabéns netinha, te amo.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

15 de julho de 2020 - Dia 122 da quarentena

Florinha, tenho trabalhado muito e estou cansada, louca para te reencontrar. Não vejo a hora. Queria muito estar aí, ficar brincando com você enquanto seus papais trabalham. Hoje fiquei muito feliz, porque você pediu para seu papai telefonar para a gogó. Fiquei muito emocionada.

Essa comunicação entre nós resume tudo: ser mãe ou pai é querer estar sempre presente (o que gera uma certa angústia, a bem da verdade). Ser avó é querer deixar uma mensagem. Estar presente entre as diversas dimensões do tempo, o que torna mais suportável a distância no espaço.

te amo

Gogó

16 de julho - dia 123 da quarentena

Flora, minha amora de olhos de jabuticaba

Tive uma insônia como pouquíssimas vezes na minha vida. Meu chefe e amigo costuma dizer que "ficar velho é dormir mal"; eu que sempre me gabei de ser a melhor dormidora do mundo, brincava que se for verdade que dormir pouco é característica dos gênios, eu era uma anta, essa sua gogó que já dormiu de pé em um museu, sem apoiar em nada (sério, pergunta para o seu vovô sobre o Museu Picasso de Barcelona), agora batalho para dormir 7 ou 8 horas por noite. Mas, essa noite, chegou um momento em que eu desisti de tentar e fiquei lendo um livro na cama. Tudo porque soube que a sua vidinha vai voltar à normalidade, vocês vão interromper a quarentena. Eu estava tão feliz com vocês na casa dos outros vovôs, com tia, jardim, atenção, carinho.

Esse tempo todo fiquei propagando a frase 'vidas acima dos lucros'. Agora, estamos vendo a 'vida acima da Vida', isto é, a vida cotidiana, feita das coisas que devem continuar a acontecer, acima no valor maior da Vida. Sendo vida, e não morte, estamos no lucro.

Obviamente seus pais não voltaram às rotinas para ganhar muito dinheiro, e sim porque, simplesmente, as coisas voltaram. A roda do capitalismo opera até mesmo de forma sutil, fazendo o mundo girar. Especialmente os jovens não conseguem se ver à margem da história, observar a roda rodando e não se ver dentro dela, eu entendo isso. Nem posso julgar ninguém, do meu posto privilegiado, no momento até ultraprivilegiado: estou trabalhando normalmente, produzindo muito mais do que o de costume, justamente porque sei, ou consigo, trabalhar de casa. Consigo, aqui, nos dois sentidos do termo: minha empresa está permitindo que eu faça de casa as minhas rotinas de trabalho, e na verdade até aumentando as minhas atribuições; e, após décadas de free lancer, eu sei como conseguir me concentrar e realizar as minhas tarefas diárias.

Tendo substituído as duas horas que eu passava (e adora passar, mas isso acabou) na academia pelo treino super maravilhoso que seu papai formulou para mim, estou ficando mais em forma e ao mesmo tempo poupando duas horas do dia - já que não tenho que ir e voltar. E, no caso por sorte, sou "mais velha", como se diz, e pela minha personalidade, meu lazer é ficar em casa lendo meus livros e escrevendo, mesmo.

Só sinto muita falta de uma coisa, que não é coisa mas sim pessoas: vocês, minha família. Fiquem bem, sem vocês não há nada. Te amo.

domingo, 12 de julho de 2020

Dia 12 de julho - 119 dia da quarentena

Flora Benita
Amanhã será o dia 120 - já estou há quatro meses sem te ver. Ontem seu papai mandou uma foto que mostra bem o que eu deixei de ver de perto (não vou dizer que eu perdi, porque mesmo de longe, eu ganhei): você já não é um bebê, mas sim uma criança, uma linda menina morena e esperta, por sinal. Na sexta-feira a gente estava conversando, e você saiu correndo e seu pai: "tchau, depois a gente se fala", e você voltou correndo para falar "tchau, vovó", ou mais precisamente "gó!".

Essa semana que passou recebi muitas notícias escabrosas de mortos e doentes por covid. No começo, pipocavam casos de conhecidos: logo no início, a mãe da Roberta, depois o Daniel Azulay e mais uns dias o Sérgio Sant'Anna, um escritor maravilhoso que eu escutei em Paraty, na Flip, e por quem eu tinha uma forma de conexão espiritual que chega a ser uma intimidade, como só se pode ter com artistas criadores, uma espécie de reconhecimento profundo. Ele tinha idade, aliás essas três primeiras vítimas tinham, mas estava escrevendo muito, ainda, inclusive um novo livro que nunca verá a luz do dia.

Mas a última semana começou com uma jovem que nunca verá o seu bebê; um bebê na ala dos prematuros que já verá a luz do mundo sem uma mãe; um pai que está doente em casa, sozinho, sem visitar o filho que nasceu prematuro e ainda sem saber que sua esposa morreu; uma família em que o pai morreu, a mãe está entubada e dois dos três filhos estão bem doentes; e assim por diante. Todos são pessoas próximas, a dois graus, no máximo, de separação comigo. Não conheço muita gente em Brasília, mas duas famílias de pessoas bem próximas estão com todas as pessoas infectadas; dos cinco do escritório, dois têm doentes em casa. Fora o Sirkis, que morreu de acidente de carro e deixou a mãe de 97 anos, por quem era muito apegado. Foi uma semana bem triste, essa aí.

Ao mesmo tempo, vejo tudo reabrindo e as pessoas ansiosas por querer sair de casa. Ontem li uma entrevista com o Fabricio Carpinejar, outro escritor especial, e ele disse que a primeira coisa que fará quando acabar a pandemia será ficar em casa - por vontade. Me define.

A parte boa é que estou progredindo no livro do Buiu e os Favelinhas. Tenho falado com as 'crianças' que, agora, já não são mais tão crianças. Assim como você está na fase mais importante da vida - descobrindo o mundo através da fala, ou seja, da linguagem, e do movimento, ao aprender a andar, e o Gael na segunda fase de descobertas, aprendendo a ler e a escrever, as crianças do projeto estão aprendendo outra coisa que também é uma descoberta muito transformadora. Estão exercitando a cidadania na marra, forçando o seu lugar no mundo, obrigando uma realidade que é bastante cruel a se conformar ao tamanho delas. E, melhor, esse tamanho tem aumentado.

Fico imaginando que você vai crescer rodeada por essas pessoas que elas irão se tornar. O Gu, que seu pai particularmente adora, será um homenzinho, já. A Duda, que é a minha amiga-leitora muito especial, será uma moça, a Ká, que também é minha professora de Jiu Jitsu, também. A Ra, o Pateta, Dani, Biscoito, Kauan, Yasmin, Pedrinho, são muitos os jovens para eu citar todos aqui, esses todos que estão aprendendo uma forma de organização que é revolucionária (mas eles ainda não sabem disso), estão descobrindo uma coisa muito louca: que eles podem mudar o mundo. Desejo que o façam.

Até eu que já passei dos 50 descubro coisas. Quando eu era criança, tinha o hábito de segurar um porta-retrato de prata com a foto do meu avô paterno, olhava bem nos olhos dele e ficava imaginando o que ele gostaria de me dizer. Agora, penso que seu trisavô Icek, que veio da Polônia fugindo da perseguição aos judeus, e pedia para a gente beijar o chão do Brasil ao sair da cama, iria gostar muito de te ver, e aos seus pais, morando com eles e fazendo parte dessa história. Acho que é exatamente o que ele iria querer: um bisneto para seguir a intenção de seus passos, prosseguindo na direção de criar um mundo mais justo. E uma trisneta linda, brasileirinha, com esperteza e olhos de índia, nome de natureza, guerreirinha desde o início.
Te amo Florinha, não vejo a hora de te reencontrar.





segunda-feira, 6 de julho de 2020

Dia 6 de julho - 113o. dia da quarentena

Florinha, minha netinha linda,
ontem recebi uma foto sua: você descabeladinha, seu pai te abraçando bem firme e você olhando a cadelinha da tia-avó Dedé com curiosidade e um pouquinho de medo. Me doeu de saudades. 
Às vezes parece que estou - estamos - andando em terreno pantanoso: os números de infectados saltaram mas ao mesmo tempo já tá todo mundo na rua, todos os comércios abrindo, como se não houvesse doença. E aí eu, e acho que todos que estamos respeitando o isolamento sanitário, ficamos nos sentindo meio paranoicos, deslocados. Na quinta-feira, os bares do Leblon, onde a vovó morou até pouco tempo atrás, reabriram. Centenas, ou milhares, sei lá, de pessoas lotaram os espaços, todo mundo pertinho, sem máscara, brindando e rindo como se "a frescura" tivesse acabado.
Mesmo os Favelinhas, que estou admirando tanto por tantos motivos, estão fazendo churrascos e passando o tempo junto sem máscaras. Que questão complicada. Daí, às vezes me dá uma sensação de que esse tempo sem te ver foi uma bobeira, uma inutilidade. Só que eu sei que não, afinal sua vovó tem formação de sanitarista, e estudo várias coisas sobre saúde porque eu gosto do tema. E as UTIs estão lotadas, quer dizer, se uma pessoa tiver um problema banal de saúde, não terá atendimento hospitalar, imagina só isso. E tem mais, ninguém sabe se esse vírus, mesmo depois que a pessoa se cura, não é capaz de continuar provocando danos graves ao longo do tempo. Na verdade é o que aponta o estado atual das pesquisas.
Parece que as pessoas não conseguem simplesmente "dar um tempo". Têm que "passar" o tempo: fazê-lo passar fazendo coisas. Por isso perguntei para o seu pai se você é mesmo "na sua" como parece nos vídeos. E ele disse que sim. Eu já tinha notado, como em uma vez que a gente estava brincando juntas e você ficou de costas fazendo a sua macaca de pelúcia caminhar; estava na minha companhia, na boa, mas se distraindo sozinha. Essa é uma característica muito forte minha e também do seu papai; perguntei para ele se a sua mamãe também é assim, "na dela" e ele confirmou. O que é ótimo, porque pessoas que ficam bem na própria companhia estão sempre bem - o que é especialmente verdade nesse momento.
Também, fico agoniada porque já temos mais duas pandemias 'cozinhando' por aí: uma de gripe suína na China, só em porcos por enquanto; mas o vírus se adapta aos humanos em dois palitos. E outra, o retorno da peste bulbônica, que matou dois terços dos habitantes da Europa no século XIX e voltou porque as pessoas comem marmotas!!!!!! Como pode, Flora? Por que as pessoas continuam comendo animais?
Acho que é pouco amor à vida. À vida delas, à dos animais, à vida, enfim. Tanto é que tem gente que diz que 'bacon é vida' e morre de rir, que frase cretina: um porco grita horas e horas, às vezes até dias (eu já vi e foi horrível) enquanto está morrendo. O porco é o animal mais próximo fisicamente do ser humano, tanto que nele são testadas vacinas e extraídos órgãos para transplante em pessoas. E se a morte dele é lenta e excruciante, a morte de quem come, pelas veias entupidas de gordura, começa na primeira dentada e vai prosseguindo lenta, invisível e concreta. Acho muito louco isso, e muito triste também.
A parte boa dessa época estranha é que logo mais estarei com você, não vejo a hora, mesmo.
Te amo Florinha, minha Flora Benita netinha linda
Vovó