domingo, 7 de junho de 2020

Dia 7 de junho de 2020 - Dia 84 da quarentena

Florinha, tantos dias que eu não escrevo aqui, tá quase virando um quinzenário ao invés de um diário!
Mas, nesse tempo, a minha saudade de você só aumentou. Entretanto, parece que de certo modo eu me acostumei a ficar no isolamento. Tenho a imensa sorte de poder receber as ligações por vídeo do seu pai, nas quais recebo muitos beijos seus, lindas imitações de gatinhos, galinhas, patos, leões, macacos e elefantes; vejo você dançando; mostrando as partes do corpo; dando ordens como 'abra essa porta!' com as suas palavrinhas cada vez mais bem formuladas. Você está crescendo muito, está uma meninona, e sinto uma imensa dor no coração de estar vendo afastada. Porém, mesmo afastada, estou vendo; esses últimos dias o horror deste país estruturado no racismo, egoísmo, ganância e crueldade tem ceifado vidas de crianças de uma forma absurda e, até mesmo, uma história antiga que me foi muito marcante, de uma menina inglesinha sumida em Portugal, reapareceu. Então, mesmo passando mal de tantas saudades de você, seus pais e de várias outras pessoas, não tenho coragem de ficar reclamando.

Humanos somos animais de hábitos, e eu sou uma pessoa extremamente flexível, adaptável e resiliente. Sorte minha. Então, ando produzindo como nunca antes na minha vida, fazendo mil coisas, mas sentindo saudades de alguns costumes que eu tinha. Curiosamente, sinto falta de coisas sem as quais eu talvez fique até melhor. Como restaurantes self-services, especialmente os veganos, onde eu adorava comer muito, mas muito, mais do que precisaria. Uma delícia, confesso, mas óbvio que o exagero acaba tendo consequência menos prazerosas desde o momento em que se inicia a digestão  aumentando progressivamente ao longo do tempo da vida.

Outra: academia. Ao contrário de grande parte das pessoas, eu adoro fazer um bom treino funcional, depois musculação, depois spinning, depois pilates ou alongamento, enfim passar duas horas na academia me exercitando sem parar, interagindo com as pessoas o mínimo possível, só focada no movimento do meu corpo mesmo. Mas, para a minha imensa sorte, tenho um treinador particular hiper profissional, estudioso e realmente interessado na minha evolução física, um sujeito que você chama de papai.

Finalmente, o meu maior prazer na vida não depende de ambientes externos, ao contrário: é ler. A leitura é o meu hobby, e isso é ótimo porque quem gosta de ler nunca está sozinho. Eu não sinto tédio, desânimo, solidão, porque nunca ando sem um livro ou o meu melhor amigo, o ebook. Sua vovó ficou lendo no camarim de uma banda de punk rock chamada Ratos de Porão, enquanto todas as pessoas faziam a bagunça que você pode imaginar! Depois, perguntei para o vovô Carlos se eu era esquisita e ele disse que sim, e que isso era bom.

E eu acho que é verdade. É bom ser diferente. Seu papai tem sido um tanto treinador de leituras, também, me indicando vários livros teóricos, porque a sua vovó sempre foi uma pessoa mais da ficção. Então, a quarentena tem me ajudado nisso também; trabalhando de casa eu consigo poupar mais tempo para a leitura, e tenho lido vários autores marxistas, ecossocialistas etc, e ainda assim sobra tempo para um pouco de ficção antes de ir dormir.

Curiosamente, acabei de perceber que estou te contando que minha vida presente, longe do seu papai, é altamente influenciada por ele: atividade física, leitura e conversas e pensamentos sobre a minha netinha amada, você, que é o presente do presente, ou o futuro do presente, sei lá. Você é para ele o que ele é para mim, e vice-versa. Pense nisso quando tiver seus próprios filhos e, depois, seus próprios netos, tá?

Te amo, cada vez mais e mesmo a distância

Vovó


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