domingo, 28 de junho de 2020

Dia 28 de junho - dia 105 da quarentena

Amada Flora,
Estou ouvindo a música composta pelo Renato Paz para os Favelinhas,  e a mensagem é 'você pode ser melhor'. A história é ainda melhor: os favelinhas começaram se organizando para fazer a favela sobreviver, e descobriram que podem ser melhores. Puta música, puta mensagem. Acredito muito na organização comunitária, essa que não é 'aho', é coletiva por necessidade.
Outro dia seu pai me chamou e, quando atendi, ele estava correndo e gritando 'socorro, tem um bichão tentando me pegar'. Você gritava e gargalhava ao mesmo tempo, perseguindo ele, e eu aqui em casa fiquei toda emocionada, embevecida. Seu pai não falou 'tem uma menininha linda brincando de me pegar', porque feroz é o bichão. E o povo organizado é o bichão, os favelinhas são o bichão. A necessidade abre as portas das casinhas (pior ainda, solta os bichos paradas nos cantinhos).
Nesses tempos de pandemia eu, muitas vezes, passo os dias lendo notícias assombrosas sobre esse país inacreditável que o Brasil virou, e essa época que o mundo vive. Meu dia começa escrevendo um  pouco e lendo todos os jornais que posso, acho que mais de dez, logo cedo. Depois, escrevo e leio o dia inteiro, tirando uma ou outra reunião que acaba sendo, também, uma nova demanda de texto. Então fico ligada nas notícias praticamente o dia inteiro, e me controlo para não cair na desesperança porque olha, vou te falar, que fase.
Leio sobre o aquecimento global que fez a Sibéria atingir 38 ºC, sobre a nuvem de gafanhotos que vem do Sul, o povo Yamomami sendo atacado pelo coronavírus, as leis ambientais afrouxadas, a poeira que vem do Saara e está em Cuba, as mortes aumentando e os hospitais de campanha sendo desativados (parece que eles não internam e mandam as pessoas para morrer em casa), os shoppings reabrindo

Leio sobre a famiglicia desse homem nojento que colocaram para presidir o país e que parece, cada dia mais, envolvido com quem mandou matar uma mulher negra e corajosa que ousou sair da favela para libertar, dessa vez de verdade, a família das pessoas escravizadas.

Depois de ler, eu escrevo sobre as crianças dessas famílias de pessoas escravizadas, que são as crianças que aparecem na minha cabeça quando deito para dormir, que acabaram virando a família do meu filho e, portanto, a minha.

Fico tão aliviada de ver a forma como eles reagiram à pandemia e, também, animada quanto ao futuro. O Buiu organizou uma coisa muito louca e revolucionária, que é fazer eles verem que podem vencer a exclusão, se organizando. Estão conseguindo juntar grana, levantar as necessidades das famílias, distribuir certinho o que cada família precisa sem deixar sobrar nem faltar, trabalhando com alegria e brigando um pouquinho (tô acompanhando o grupo, hehe, imagine juntar uma moçada toda e ninguém brigar, impossível, né?)

Quando acordo, a primeira criança em que penso é você, minha neta, que estou morrendo de saudades e não vejo a hora de te abraçar. Te amo,

Vovó







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