quarta-feira, 24 de junho de 2020

24 de junho - Dia 101 da quarentena

Quantos dias fiquei sem te escrever, Florinha! Você sabe que não foi por não sentir saudades, e a falta de tempo não é uma justificativa válida. É que se completaram 100 dias já, e o isolamento entrou em uma normalidade. Felizmente converso com vocês todos os dias, troco uma ideia com seu pai enquanto fico vendo você brincar, e confirmo que você é a menina mais linda e inteligente que já nasceu no mundo. Está enorme, ágil, forte, esperta. Sabe dizer quantos anos tem, mostrando o dedinho e falando "um'. Sabe falar morango, buraco, jacaré, várias palavras difíceis que a primeira ou a última letra você pronuncia claramente e basta para quem quer entender. Mais importante, dá para perceber que em poucos meses você estará falando todas as palavras com a perfeição com que faz todas as coisas: dança, imita a branca de neve e a bruxa, mostra a cabeça, mãos, pés, pernas, imita todos os animais, e inclusive faz exercícios com o seu kettlebell imaginário. Perfeita. Queria muito estar aí com você hoje, mas faço planos de te encontrar em julho e isso já me mantém satisfeita.

Estou com saudades imensas do seu pai, também, a única vez em que ficamos tanto tempo longe foi quando ele foi para a Austrália, e sinceramente eu não achei graça nenhuma da experiência. Ainda mais com a diferença de fuso horário, quando a gente se falava ele dizia 'bom dia' e era de noite, e eu nem corrigia para ele não sentir toda a distância entre nós da maneira que eu estava sentindo.

Sentir saudades é uma dor, mas é sinal que existe amor, então é ruim e é bom. Hoje, 24 de junho, é a data em que a Noca, que era a minha melhor amiga, morreu. E dela eu só sinto a falta, sem um plano de encontrar no futuro, então isso sim é muito ruim. Ela nem teve um futuro, porque morreu adolescente, né, acho que por causa dessa tristeza que eu incorporei eu sempre acho um lado bom nas situações difíceis. Não sendo definitivas, como foi quando ela morreu, já estamos em vantagem.

Por falar em futuro, comecei a conversar com os Favelinhas, as crianças do projeto dos seus pais, que estão organizando a entrega das cestas básicas para a comunidade. Eles estão fazendo um trabalho absurdo de lindo, Florinha, super organizado e alegre ao mesmo tempo. Muitas vezes eu leio e me dá vontade de chorar, mas ao invés eu fico pensando em como descrever aquilo no livro e tentar fazer as pessoas que lerem perceberem como a atitude coletiva pode ser transformadora. Uma bela tarefa essa que eu tenho pela frente!

O livro sobre o Buiu, que iria se chamar As Vielas do Buiu, se transformou em Buiu e os Favelinhas. Quanto mais eu tenho contato com esse universo, mais eu enxergo o seu pai e entendo o nome que escolhemos para ele. Danilo quer dizer 'Deus é meu juiz', e como seu avô e eu não somos religiosos, parecia que não fazia muito sentido essa escolha, mas a gente sabia que fazia, sim. E hoje isso fica muito mais claro. Seu pai (e sua mãe também) age como acha que tem que agir. A explicação para o nome não fala exatamente de religião e nem de julgamento, mas é: SÓ Deus é meu juiz. Seu pai faz o que acha que é o correto, e não está preocupado com o mundo, com aplausos, reconhecimento. Ele só conta para o mundo o que faz na esperança de conseguir convencer alguns aliados, e às vezes consegue, mesmo.

Florinha, prometo que vou voltar a escrever mais constantemente aqui. Estou trabalhando muito e ando bem cansada, mas isso é ótimo, teria medo é do contrário. Aqui é carpe diem! Eu te amo muito, viu? Não vejo a hora de encontrar vocês.
beijão da vovó






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