sexta-feira, 1 de maio de 2020

1 de maio - dia 47 da quarentena

Flora, a neta mais moreninha de nariz arrebitado do mundo,

Vou te contar um segredo que todo mundo sabe: ser avó (ou avô, por suposto) é experimentar um amor muito louco. Digo que é segredo porque, mesmo que todo mundo saiba, amor é um sentimento inexplicável, que só se decifra vivendo. Ser mãe é a forma mais sublime de amor, continuo pensando assim. Mas deixar um fruto - filho é semente, neto é o que frutificou - é algo tão indescritível que não dá nem para tentar explicar. Ao invés, vou te contar uma historinha:

Você estava aqui no final do ano passado, esse 2019 tão marcante na minha vida, em que você nasceu (e veja só, 19 é 91 invertido, 1991 foi o ano em que seu papai nasceu) e que acabou se tornando nome de uma doença!

Então, você, sua mamãe e seu papai vieram passar uma semana aqui em Brasília, no final do ano de 2019. Ficaram alguns dias aqui em casa, com a gente: vovô, Gael e eu. E depois foram para a Chapada dos Veadeiros alguns dias, alugaram um carro e ficaram em uma pousada em São Jorge. Sua primeira viagem, a primeira viagem da sua família.

Logo que chegaram, talvez no dia seguinte, eu estava comendo uma tâmara jumbo congelada - já experimentou? Se não, faça isso, é uma delícia! Agora, você pode - porque, quando eu te dei, na verdade você não podia, ainda. O que aconteceu foi isso: eu fui até a geladeira com você no colo e peguei uma tâmara do pote no congelador. Essas tâmaras gigantes, congeladas viram uma espécie de bombom gelado maravilhoso, mas ainda assim são uma fruta, com o açucar natural dela, milhões de vezes mais saudável do que um doce.

Só que a sua mamãe não quer que você coma doces por enquanto, e a verdade é que eu concordo 1001% com ela. Para que despertar a gula por açucar em uma nenê? Não faz o menor sentido. E mesmo assim eu, pessoa total e rigidamente 'correta' nos hábitos alimentares, mãe, sogra e avó que faz questão absoluta de respeitar as decisões do casal, seus pais, e só emitir uma opinião qualquer quando devidamente questionada; bem, eu não resisti aos seus olhões curiosos e te dei uma casquinha da tâmara para experimentar.

Por falta de sorte, ou justiça universal, sua mãe olhou bem naquela hora. E ficou muito brava, como eu também ficaria no lugar dela. Acho que até foi bom, afinal, para a gente entender que, como eu disse a ela, polidez excessiva não orna com amor verdadeiro. Você verá que eu tenho brigas homéricas com seu papai, sobre assuntos plenamente filosóficos e teóricos, na maior parte das vezes; e mesmo assim tenho por ele um amor feroz.

O amor entre mãe e filho - seu papai e eu - é incondicional, essa é que é a maior graça. Eu posso ficar meia hora discutindo ideologia com seu papai, um gritando com o outro, sabendo que no final o sentimento entre nós vai continuar idêntico ao que era no começo.


E a questão da alimentação, entre nós, é muito ideológica. Tenho imensa, indescritível alegria em seu pai ser cartesiano (chato, diriam alguns) como eu, e jamais cometer qualquer deslize, por menor que seja. E agradeço todos os dias por seu papai ter encontrado uma esposa, a sua mamãe, que também é irredutível e abraça as causas sem reservas, luta por elas. E, mais do que tudo, sou extremamente feliz por eles estarem criando a minha neta com uma alimentação ética, saudável, absolutamente correta. O que torna o meu erro ainda mais absurdo, né?

Curiosamente, outro dia saí com o Vinicius, a Antonella e o JJ (alô JJ, você 'pediu' para que eu escrevesse um livro sobre você; por enquanto está sendo bastante citado nesse diário). Parece que foi em outra vida, quando as pessoas podiam passear por aí livremente, abraçar, pegar crianças no colo, ir juntas a parques. E foi isso o que fizemos, nos encontramos e visitamos um parque bem legal de São Paulo, depois do Vini ter visto vários aviões subirem no Aeroporto de Congonhas.

Lá, eles me contaram que a mãe do JJ - que é uma profissional reconhecida, com um trabalho importante e uma atuação que eu particularmente admiro, de registrar músicas cantadas na época da guerrilha do Araguaia em um disco, para perpetuar essa manifestação cultural - pois bem, a mãe do JJ, que é tudo isso e não é pouca coisa, estava oferecendo um docinho ao Vini, e a Lella lembrou que o Vini ainda não podia comer doces. O JJ reforçou: 'mãe, a gente não quer que você dê isso' e ela falou 'sim, eu sei'. E, passados instantes, foi lá e deu o doce! Ela não aguentou.

E, se isso parece totalmente absurdo para você, saiba que é, mesmo. Mas que um dia você vai estar com sua netinha ou netinho no colo e vai entender perfeitamente que tipo de amor absoluto e irreverente, contra toda a lógica, é esse que eu tô te contando. E vai lembrar de mim, espero.

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