sábado, 9 de maio de 2020

9 de maio, dia 55 da quarentena

São 10h53 da manhã e eu já ganhei:
- uma imitação de elefante
- um rugidinho de leão
- vários beijos
- pelo menos um tchauzinho
- latidos de au au
- um sorrisinho (sem pedir)
- um 'vó!!!!!' (mais ou menos)
- vi e ouvi o papai
O que mais uma vovó pode querer? Na verdade, algumas coisas mais físicas, como sentir o macio da sua bochecha ao invés de só imaginar. Mas estou satisfeitíssima com o que já ganhei por enquanto.

O ser humano é um bicho muito adaptável. Eu já tenho a minha rotina de 'distanciamento social' que é o nome adotado para essa fase de quarentena. Acordo cedo como sempre (hoje, umas 5h); leio um pouco de teoria (no banheiro): hoje li David Harvey, voltei a estudar marxismo por influência do seu pai. Conheci o seu vovô, pai do seu papai, quando ele deu um curso sobre Marx para o meu grupo de dentistas de esquerda (rararará essa frase é muito engraçada, soa como uma contradição em termos!). Seu pai, hoje, é um filósofo revolucionário autêntico, autodidata. Ele me enche de orgulho, e não apenas por isso.

Depois de ler um pouco, escrevo para você, como estou fazendo agora. Em seguida faço atividade física: um dia, eu corro pelas superquadras, ainda desertas, sem problemas porque não encontro ninguém. Se aparece alguém ao longe eu vou desviando por dentro ou por fora das quadras, é meio triste evitar os outros mas correr me faz um bem louco, me faz sentir como quando eu dançava. No dia alternado, sigo um plano de exercícios que seu papai montou, com garrafas de água de um litro e meio e galões de cinco litros, usando o peso do corpo, um treino pré-kettlebell como o que você assiste seu papai fazendo ou passando para a sua mamãe.

Durante o treino eu começo a ouvir os pássaros - Brasília tem uma quantidade absurda deles, embora na verdade, mesmo no centro de São Paulo, dá para ouvir pássaros de manhã - cantarem, acordando, e os primeiros raios de sol já estão aparecendo. Adoro esse momento, assim como fico triste quando o sol está se pondo. Se não triste, emocionada. Algo me incomoda, parece que estou esquecendo de alguma coisa, e acabo lembrando que esse é o horário de ligar para os meus pais. Mas, claro, eles estão mortos há 15 anos, então eu sinto que tenho algo a fazer que me fica faltando fazer.

Tomo banho, como uma fruta com 'coisas' (chia, linhaça, gergelim, leite vegetal, canela etc.), edito o que escrevi e leio TODOS os jornais enquanto faço um clipping de notícias. Eu amava esse momento de tomar um café preto bem cheiroso e ler o jornal de papel, mas hoje leio na internet, mesmo. Às vezes imagino se vou realizar meu sonho/plano de morar na praia e, daí, se lá eu vou voltar a ler jornal de papel. Sei que não tem o menor sentido em si, o papel - mas amo o cheiro, a textura, até a sujeira de tinta que deixa na mão. Mas deve ser pura nostalgia, mesmo.

Daí, sim, eu começo a trabalhar. Primeiro faço um pouco de divulgação dos trabalhos autorais, depois as demandas da agência. Eu gosto de produzir, muito até. Então fico feliz com a maior parte das minhas obrigações. Mas hoje é sábado e meu primeiro dias de férias, tenho uma 'pilha' virtual de 13 livros de teoria que quero ler, uma multidão de artigos salvos no ebook, enfim, meu passatempo predileto é deitar no sofá com as pernas para o alto e passar o dia lendo, mesmo.

Apenas duas coisas me fazem muita falta, é até engraçado porque todo mundo reclama de vontade de passear, sair beber, comer fora na quarentena. E eu só queria duas coisas: uma academia aberta e, mais que tudo no mundo: ver vocês.

Fora essas duas coisas, estou bem aqui em casa, lendo e escrevendo todo o tempo, trabalhando muito e bem, dormindo bastante, me cuidando.

Lá fora, o mundo explode, ou derrete, sei lá. Ontem morreram mais de 700 pessoas. Note bem: notificadas! - grande parte dos casos não são registrados como covid-19, para fazer esse rebanho de gente burra que elegeu um idiota achar que o perigo acabou e voltar ao trabalho. O show, isto é, a economia, não pode parar. Mas para os donos do dinheiro tanto faz quem é que opera as máquinas, o que interessa é que as mercadorias saiam delas. Se não tiver um brasileiro para comprar, eles exportam, não importa para eles de onde vem o dinheiro, também. Quem tem que perceber isso nem são eles, afinal, é o povo.

Porém, infelizmente, devo dizer que estou escrevendo da Asa Sul de Brasília, às 11h e estou ouvindo uma barulheira de carros de som e megafones. São os imbecis, fazendo uma mega manifestação  (para isso, tem dinheiro sobrando, mas para sustentar os pobres é aquele drama) pela volta da ditadura e contra a liberdade de fazer manifestações como essa que eles estão fazendo. Difícil de entender, né? Pois é.

Mas, de uma forma ou de outra, isso vai passar.

O meu amor por você, Flora, só vai aumentar.

Vovó


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