segunda-feira, 4 de maio de 2020

4 de maio, dia 50 da quarentena

Flora, 50 dias em quarentena! Longe de você há praticamente dois meses. Pelo menos, ontem você me mostrou seu umbiguinho, mandou beijos e falou 'água'. Apesar da distância, fico aliviada por vocês estarem em uma casa, com sol, jardim, piscina, área para seus pais treinarem, família cuidando de vocês três. Nosso objetivo, agora, é 'apenas' permanecer vivos e bem.

O nosso país é o único no mundo que enfrenta três crises simultâneas: a sanitária, a econômica e a política. Ontem, estava aqui trabalhando - lendo, escrevendo - quando ouvi uns estouros e vozes amplificadas. Corri para o Twitter para saber da manifestação contra o Supremo Tribunal Federal e a favor deste palhaço sem graça que é o nosso (atual, por pouco tempo, espero) presidente. E li que tinha milhares de pessoas aqui perto, na Praça dos 3 Poderes, um caminhão de som enorme. Me apavorei, mas óbvio que fui bem ingênua: quem divulgou isso era um 'deles' e o caminhão de som pode ter sido tudo, menos espontâneo. Depois, vi que eram um punhado de malucos, não chegou a 200 pessoas. Com um belo de um sistema de som, fogos de artifício, enfim: alguém pagou por tudo isso, e mesmo assim não reunião mais gente do que caberia na boleia do trio elétrico contratado.

Mesmo assim, na minha opinião chegamos a um impasse, porque o imbecil teria que mostrar o exame médico para dizer que não transmitiu covid para uma multidão de idiotas como ele; teria que obedecer à determinação de deixar a polícia trabalhar; o que, em última instância, pode meter ele próprio e os lamentáveis filhos dele, todos na prisão. Acho que nunca tivemos democracia no Brasil, afinal. A Comissão da Verdade atiçou os quartéis de tal forma que retomaram o poder pela via eleitoral, e nos próximos dias o golpe que se iniciou com a retirada de uma presidenta que foi, ela própria, torturada durante a ditadura, será finalizado. Depois, eu só poderei conversar aqui com você, e em qualquer lugar, sobre temas amenos.

Gostaria de ao menos poder falar a verdade sobre a pandemia. Temos 7 mil mortos contabilizados, mas se contarmos as mortes por doenças respiratórias não identificadas - o aumento sobre o número normal de óbitos - temos, na verdade, 70 mil. E subindo. Eu estudei Saúde Pública, né, fiz mestrado e entendo um pouco de epidemiologia (ah, eu fui a primeira da classe em estatística vital, sem querer me exibir demais hehehehe). Então, posso dizer, em resumo, que a situação vai ficar muito triste.

Eu pensei em colocar aqui uma foto de covas coletivas abertas, esperando caixões de papelão. Porque os de madeira acabaram. Mas, decidi não fazer isso e, ao invés, deixar essa postagem sem uma imagem. Da mesma forma que a gente fica sem palavras frente ao que está acontecendo.

Como sanitarista, aliás, acho um grave erro enterrar corpos, o correto é cremar. Como avó, quero falar com você da vida, do amor, da beleza, da natureza. Mesmo com o mundo caindo em volta da gente, vou continuar falando com você sobre o futuro. Falando sobre um tempo que virá, mesmo que após mais um imenso hiato de sofrimento; mesmo assim, acredito que virá. Fico aqui sonhando com o dia que vou te encontrar de novo, abraçar muito, conversar com os seus pais até acabar a voz da garganta, muito antes de esgotar o assunto. Até lá, abraça e beija os seus papais por mim. Te amo, Flora Benita.

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