sábado, 2 de maio de 2020

2 de maio - dia 48 da quarentena

Flora, acordei imaginando o quanto essas coisas que eu escrevo aqui farão sentido para você, na sua atualidade em que as vai ler. Quanto ao passado, as histórias da família, da guerra etc., continuarão relevantes. As questões mais íntimas, psicológicas, filosóficas, também. Mas será que quando você ler este diário os conceitos estarão superados? E se esse vírus for o anticorpo do planeta, e o mundo tiver se curado? Aí, palavras como capitalismo, consumismo, especismo, racismo, machismo, misoginia não farão nenhum sentido. E se eu te contar que eu era feminista, ecossocialista e vegana, e essas palavras não significarem nada?

Qual será o inimigo?

Tudo isso parece incrível, da perspectiva do tempo que eu escrevo. Mas, veja só, Marx inicia sua compreensão do mundo com a ideia de processo, e deixa bem claro que o capitalismo não pode parar, depende de movimento para continuar existindo. E hoje, a pandemia parou o mundo. As viagens aéreas praticamente não acontecem mais, e acredito que não voltarão a ser o que eram, nunca. As pessoas (finalmente!) entenderam que podem se comunicar perfeitamente sem vôos, fusos horários, barreiras de entendimento, hotéis, gastos supérfluos. Qual o sentido de um mundo lotado de prédios de escritório em que há muitas pessoas - famílias inteiras!- dormindo nas ruas? Como comer algo dispensável que promove a morte da natureza, dos corpos, do planeta? (Sem entrar no mérito de implicar em um assassinato). Qual a lógica de consumir o próprio sustento até ele acabar?

Uma coisa que não vai ser fácil de compreender será: pessoas rindo enquanto carregam um caixão na porta de um hospital. Não dá para entender daqui, de onde eu vejo. E certeza que não será possível daí, onde você lê isso. Zombar da desgraça alheia é um comportamento inaceitável, fazer piada da própria tragédia é impossível de entender, mas cavar o fosso, ir se enterrando nele e achar isso divertido, é mesmo tarefa para imbecis. Por que raios alguém escolhe um representante que é um completo boçal, um espécime repugnante, odioso? Eu sei. Mas não compreendo.

Você está vendo a casca de banana no seu caminho, cara. Apenas desvie.

Acho que a nossa sociedade de hoje, de quando eu escrevo, se caracteriza por não pensar. Apenas ir vivendo. Daí, no ano em que a terra parou, continuar consumindo se tornou inviável e as contradições começaram a aparecer, sem que as pessoas tenham "o trabalho" de pensar. No meu modo de ver, as pessoas aceitam ser consideradas meio simplórias porque essa atitude tira das costas delas a obrigação do fazer, do estudar, do pensar: esse "trabalho' entre aspas. Só realizam o trabalho que dá dinheiro, que se torna apenas um recurso para continuar empurrando a vida com a barriga. Comprando, mostrando, querendo mais, obtendo mais, comprando, mostrando, querendo mais.



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