sexta-feira, 15 de maio de 2020

15 de maio - dia 61 da quarentena

Flora, amora da vovó

Estou aproveitando as minhas férias entre quatro paredes, prova que (como eu sempre disse, aliás) dá para ser feliz em qualquer lugar. Acabei de fazer o treino que seu papai me passou e notei que já estou mais forte e ágil. Sabe essas chaleiras super pesadas que você vê seus papais usando para brincar? Ei! Acabo de perceber que estou escrevendo para a Florinha de hoje, a nenê que assiste os pais treinando - mas quem vai ler isso é a Flora menina que, aposto, terá seu próprio jogo de ketlebells, assim como seus kimonos. Enfim.

Mas posso te contar uma coisa que você não tem como descobrir por si só. É sobre o meu sonho recorrente, ou melhor dizendo, pesadelo. Acho que só contei isso na terapia, que me lembre. Inúmeras vezes eu sonhava que estava caminhando e 'queimando pontes' - isso significa que eu atravessava uma passagem e, por exemplo, deixava a escada cair, atrás de mim. Em outras palavras, eu traçava um caminho que não me permitiria retornar. Só me restava continuar.

Você vai me conhecer melhor, e descobrir que assim é que eu fiz a minha vida inteira: mudei de carreira, terminei relacionamentos etc. sem ter como desfazer os passos, nem mesmo mudar de ideia.  De propósito, claro. Mas, nos pesadelos, eu sempre chegava a um ponto do qual era impossível prosseguir; e não tinha mais como voltar. Penhascos, buracos, pinguelas que faziam meu coração acelerar e, óbvio, me despertavam.

Em 2007, fiz uma viagem a São Jorge, aqui perto, na Chapada dos Veadeiros. Visitei uma montanha cercada de cristais cor-de-rosa, com uma guia muito bacana e esotérica, chamada Marie. Subimos escalando, abraçadas nas rochas, e eu comentei com ela que a gente tinha que parar porque eu não iria conseguir voltar. Era o cenário dos meus sonhos, a mesma situação! E ela só disse 'vai, sim'. Fomos até o alto, onde ela ficou meditando e eu flutuando em uma "banheira" de quartzo rosa - imagina a cena!

Voltei tranquilamente, agarrando cada pedaço de montanha. Em alguns ela me estendia a mão - mas eu não descia apoiando nela, e sim no meu corpo e na natureza. A mão da Marie era o estímulo, mostrava mais que tudo que ela havia conseguido, e eu também podia. Nunca mais tive o pesadelo.

Essa noite sonhei que tinha que passar por diversos obstáculos, atravessando compridas mesas de madeira com uma mão segurando um prato de comida e a outra apoiando nas vigas do teto. Tinha uma amiga minha estendendo a mão, mas era um gesto simbólico, ela não tinha como me ajudar realmente. E eu sabia que ia conseguir, se mantivesse a calma e confiasse na minha capacidade física.

Do outro lado, estava uma situação festiva do passado, e afinal eu consegui e me juntei a eles, amigos antigos. Algo que eu larguei e para o qual eu retornava, mas muito modificada. Não apenas na segurança corporal.

O que tem a ver essa história toda com os treinos que seu papai me passou? Tudo.

Meu filho é quem mais me instiga a pesquisar, descobrir, agir. Ele está milhões de quilômetros à minha frente, como imagino que você estará, daqui a vários anos, à frente dele. Hoje, tá aí na casa dos vovôs brincado de chuvinha com a tia Vi. Tá tudo ótimo.



domingo, 10 de maio de 2020

10 de maio, 2 meses sem vocês

Florinha, hoje faz exatamente dois meses que eu não vejo vocês. E é dia das mães, data que eu sempre desprezei como meramente comercial. A síndica aqui do bloco chamou uns músicos pra fazer uma homenagem, e eu achei ridículo. Daí eles tocaram Eu Sei que Vou Te Amar e quando vi eu estava me debulhando em lágrimas. Muitas saudades, muita vontade de abraçar seu papai bem forte. Queria estar aí com vocês, dê um abraço na sua mamãe e na vovó Rose, por mim.
Te amo
Esse nenê da foto é o seu papai, acredita?

Eu não chorava desde o dia que seu papai e eu conversamos e decidimos que eu precisava adiar as minhas férias - era para eu passar o meu aniversário em São Paulo, com vocês. Chorei muito naquele dia. Desde que seus bisavós, meus pais, morreram, eu choro muito raramente. Mas, hoje chorei ouvindo as músicas (até a do Roberto Carlos, que ridícula), vendo as pessoas todas de máscara lá fora, em volta dos músicos (agora, todo mundo usa máscaras e ninguém se abraça! O que aconteceu com o nosso mundo!?) e chorei de novo, ao ler que o Sérgio Santanna morreu de covid. Eu acho que ele era o melhor escritor brasileiro vivo - mas ele agora está morto. Assisti um debate dele na FLIP e fiquei muito emocionada de conhecê-lo. Morreu afogado em ar, enquanto o palhaço que os imbecis colocaram na presidência passava o dia de ontem - no qual completamos 10 mil brasileiros mortos - brincando no jet sky. 

sábado, 9 de maio de 2020

9 de maio, dia 55 da quarentena

São 10h53 da manhã e eu já ganhei:
- uma imitação de elefante
- um rugidinho de leão
- vários beijos
- pelo menos um tchauzinho
- latidos de au au
- um sorrisinho (sem pedir)
- um 'vó!!!!!' (mais ou menos)
- vi e ouvi o papai
O que mais uma vovó pode querer? Na verdade, algumas coisas mais físicas, como sentir o macio da sua bochecha ao invés de só imaginar. Mas estou satisfeitíssima com o que já ganhei por enquanto.

O ser humano é um bicho muito adaptável. Eu já tenho a minha rotina de 'distanciamento social' que é o nome adotado para essa fase de quarentena. Acordo cedo como sempre (hoje, umas 5h); leio um pouco de teoria (no banheiro): hoje li David Harvey, voltei a estudar marxismo por influência do seu pai. Conheci o seu vovô, pai do seu papai, quando ele deu um curso sobre Marx para o meu grupo de dentistas de esquerda (rararará essa frase é muito engraçada, soa como uma contradição em termos!). Seu pai, hoje, é um filósofo revolucionário autêntico, autodidata. Ele me enche de orgulho, e não apenas por isso.

Depois de ler um pouco, escrevo para você, como estou fazendo agora. Em seguida faço atividade física: um dia, eu corro pelas superquadras, ainda desertas, sem problemas porque não encontro ninguém. Se aparece alguém ao longe eu vou desviando por dentro ou por fora das quadras, é meio triste evitar os outros mas correr me faz um bem louco, me faz sentir como quando eu dançava. No dia alternado, sigo um plano de exercícios que seu papai montou, com garrafas de água de um litro e meio e galões de cinco litros, usando o peso do corpo, um treino pré-kettlebell como o que você assiste seu papai fazendo ou passando para a sua mamãe.

Durante o treino eu começo a ouvir os pássaros - Brasília tem uma quantidade absurda deles, embora na verdade, mesmo no centro de São Paulo, dá para ouvir pássaros de manhã - cantarem, acordando, e os primeiros raios de sol já estão aparecendo. Adoro esse momento, assim como fico triste quando o sol está se pondo. Se não triste, emocionada. Algo me incomoda, parece que estou esquecendo de alguma coisa, e acabo lembrando que esse é o horário de ligar para os meus pais. Mas, claro, eles estão mortos há 15 anos, então eu sinto que tenho algo a fazer que me fica faltando fazer.

Tomo banho, como uma fruta com 'coisas' (chia, linhaça, gergelim, leite vegetal, canela etc.), edito o que escrevi e leio TODOS os jornais enquanto faço um clipping de notícias. Eu amava esse momento de tomar um café preto bem cheiroso e ler o jornal de papel, mas hoje leio na internet, mesmo. Às vezes imagino se vou realizar meu sonho/plano de morar na praia e, daí, se lá eu vou voltar a ler jornal de papel. Sei que não tem o menor sentido em si, o papel - mas amo o cheiro, a textura, até a sujeira de tinta que deixa na mão. Mas deve ser pura nostalgia, mesmo.

Daí, sim, eu começo a trabalhar. Primeiro faço um pouco de divulgação dos trabalhos autorais, depois as demandas da agência. Eu gosto de produzir, muito até. Então fico feliz com a maior parte das minhas obrigações. Mas hoje é sábado e meu primeiro dias de férias, tenho uma 'pilha' virtual de 13 livros de teoria que quero ler, uma multidão de artigos salvos no ebook, enfim, meu passatempo predileto é deitar no sofá com as pernas para o alto e passar o dia lendo, mesmo.

Apenas duas coisas me fazem muita falta, é até engraçado porque todo mundo reclama de vontade de passear, sair beber, comer fora na quarentena. E eu só queria duas coisas: uma academia aberta e, mais que tudo no mundo: ver vocês.

Fora essas duas coisas, estou bem aqui em casa, lendo e escrevendo todo o tempo, trabalhando muito e bem, dormindo bastante, me cuidando.

Lá fora, o mundo explode, ou derrete, sei lá. Ontem morreram mais de 700 pessoas. Note bem: notificadas! - grande parte dos casos não são registrados como covid-19, para fazer esse rebanho de gente burra que elegeu um idiota achar que o perigo acabou e voltar ao trabalho. O show, isto é, a economia, não pode parar. Mas para os donos do dinheiro tanto faz quem é que opera as máquinas, o que interessa é que as mercadorias saiam delas. Se não tiver um brasileiro para comprar, eles exportam, não importa para eles de onde vem o dinheiro, também. Quem tem que perceber isso nem são eles, afinal, é o povo.

Porém, infelizmente, devo dizer que estou escrevendo da Asa Sul de Brasília, às 11h e estou ouvindo uma barulheira de carros de som e megafones. São os imbecis, fazendo uma mega manifestação  (para isso, tem dinheiro sobrando, mas para sustentar os pobres é aquele drama) pela volta da ditadura e contra a liberdade de fazer manifestações como essa que eles estão fazendo. Difícil de entender, né? Pois é.

Mas, de uma forma ou de outra, isso vai passar.

O meu amor por você, Flora, só vai aumentar.

Vovó


segunda-feira, 4 de maio de 2020

4 de maio, dia 50 da quarentena

Flora, 50 dias em quarentena! Longe de você há praticamente dois meses. Pelo menos, ontem você me mostrou seu umbiguinho, mandou beijos e falou 'água'. Apesar da distância, fico aliviada por vocês estarem em uma casa, com sol, jardim, piscina, área para seus pais treinarem, família cuidando de vocês três. Nosso objetivo, agora, é 'apenas' permanecer vivos e bem.

O nosso país é o único no mundo que enfrenta três crises simultâneas: a sanitária, a econômica e a política. Ontem, estava aqui trabalhando - lendo, escrevendo - quando ouvi uns estouros e vozes amplificadas. Corri para o Twitter para saber da manifestação contra o Supremo Tribunal Federal e a favor deste palhaço sem graça que é o nosso (atual, por pouco tempo, espero) presidente. E li que tinha milhares de pessoas aqui perto, na Praça dos 3 Poderes, um caminhão de som enorme. Me apavorei, mas óbvio que fui bem ingênua: quem divulgou isso era um 'deles' e o caminhão de som pode ter sido tudo, menos espontâneo. Depois, vi que eram um punhado de malucos, não chegou a 200 pessoas. Com um belo de um sistema de som, fogos de artifício, enfim: alguém pagou por tudo isso, e mesmo assim não reunião mais gente do que caberia na boleia do trio elétrico contratado.

Mesmo assim, na minha opinião chegamos a um impasse, porque o imbecil teria que mostrar o exame médico para dizer que não transmitiu covid para uma multidão de idiotas como ele; teria que obedecer à determinação de deixar a polícia trabalhar; o que, em última instância, pode meter ele próprio e os lamentáveis filhos dele, todos na prisão. Acho que nunca tivemos democracia no Brasil, afinal. A Comissão da Verdade atiçou os quartéis de tal forma que retomaram o poder pela via eleitoral, e nos próximos dias o golpe que se iniciou com a retirada de uma presidenta que foi, ela própria, torturada durante a ditadura, será finalizado. Depois, eu só poderei conversar aqui com você, e em qualquer lugar, sobre temas amenos.

Gostaria de ao menos poder falar a verdade sobre a pandemia. Temos 7 mil mortos contabilizados, mas se contarmos as mortes por doenças respiratórias não identificadas - o aumento sobre o número normal de óbitos - temos, na verdade, 70 mil. E subindo. Eu estudei Saúde Pública, né, fiz mestrado e entendo um pouco de epidemiologia (ah, eu fui a primeira da classe em estatística vital, sem querer me exibir demais hehehehe). Então, posso dizer, em resumo, que a situação vai ficar muito triste.

Eu pensei em colocar aqui uma foto de covas coletivas abertas, esperando caixões de papelão. Porque os de madeira acabaram. Mas, decidi não fazer isso e, ao invés, deixar essa postagem sem uma imagem. Da mesma forma que a gente fica sem palavras frente ao que está acontecendo.

Como sanitarista, aliás, acho um grave erro enterrar corpos, o correto é cremar. Como avó, quero falar com você da vida, do amor, da beleza, da natureza. Mesmo com o mundo caindo em volta da gente, vou continuar falando com você sobre o futuro. Falando sobre um tempo que virá, mesmo que após mais um imenso hiato de sofrimento; mesmo assim, acredito que virá. Fico aqui sonhando com o dia que vou te encontrar de novo, abraçar muito, conversar com os seus pais até acabar a voz da garganta, muito antes de esgotar o assunto. Até lá, abraça e beija os seus papais por mim. Te amo, Flora Benita.

sábado, 2 de maio de 2020

2 de maio - dia 48 da quarentena

Flora, acordei imaginando o quanto essas coisas que eu escrevo aqui farão sentido para você, na sua atualidade em que as vai ler. Quanto ao passado, as histórias da família, da guerra etc., continuarão relevantes. As questões mais íntimas, psicológicas, filosóficas, também. Mas será que quando você ler este diário os conceitos estarão superados? E se esse vírus for o anticorpo do planeta, e o mundo tiver se curado? Aí, palavras como capitalismo, consumismo, especismo, racismo, machismo, misoginia não farão nenhum sentido. E se eu te contar que eu era feminista, ecossocialista e vegana, e essas palavras não significarem nada?

Qual será o inimigo?

Tudo isso parece incrível, da perspectiva do tempo que eu escrevo. Mas, veja só, Marx inicia sua compreensão do mundo com a ideia de processo, e deixa bem claro que o capitalismo não pode parar, depende de movimento para continuar existindo. E hoje, a pandemia parou o mundo. As viagens aéreas praticamente não acontecem mais, e acredito que não voltarão a ser o que eram, nunca. As pessoas (finalmente!) entenderam que podem se comunicar perfeitamente sem vôos, fusos horários, barreiras de entendimento, hotéis, gastos supérfluos. Qual o sentido de um mundo lotado de prédios de escritório em que há muitas pessoas - famílias inteiras!- dormindo nas ruas? Como comer algo dispensável que promove a morte da natureza, dos corpos, do planeta? (Sem entrar no mérito de implicar em um assassinato). Qual a lógica de consumir o próprio sustento até ele acabar?

Uma coisa que não vai ser fácil de compreender será: pessoas rindo enquanto carregam um caixão na porta de um hospital. Não dá para entender daqui, de onde eu vejo. E certeza que não será possível daí, onde você lê isso. Zombar da desgraça alheia é um comportamento inaceitável, fazer piada da própria tragédia é impossível de entender, mas cavar o fosso, ir se enterrando nele e achar isso divertido, é mesmo tarefa para imbecis. Por que raios alguém escolhe um representante que é um completo boçal, um espécime repugnante, odioso? Eu sei. Mas não compreendo.

Você está vendo a casca de banana no seu caminho, cara. Apenas desvie.

Acho que a nossa sociedade de hoje, de quando eu escrevo, se caracteriza por não pensar. Apenas ir vivendo. Daí, no ano em que a terra parou, continuar consumindo se tornou inviável e as contradições começaram a aparecer, sem que as pessoas tenham "o trabalho" de pensar. No meu modo de ver, as pessoas aceitam ser consideradas meio simplórias porque essa atitude tira das costas delas a obrigação do fazer, do estudar, do pensar: esse "trabalho' entre aspas. Só realizam o trabalho que dá dinheiro, que se torna apenas um recurso para continuar empurrando a vida com a barriga. Comprando, mostrando, querendo mais, obtendo mais, comprando, mostrando, querendo mais.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

1 de maio - dia 47 da quarentena

Flora, a neta mais moreninha de nariz arrebitado do mundo,

Vou te contar um segredo que todo mundo sabe: ser avó (ou avô, por suposto) é experimentar um amor muito louco. Digo que é segredo porque, mesmo que todo mundo saiba, amor é um sentimento inexplicável, que só se decifra vivendo. Ser mãe é a forma mais sublime de amor, continuo pensando assim. Mas deixar um fruto - filho é semente, neto é o que frutificou - é algo tão indescritível que não dá nem para tentar explicar. Ao invés, vou te contar uma historinha:

Você estava aqui no final do ano passado, esse 2019 tão marcante na minha vida, em que você nasceu (e veja só, 19 é 91 invertido, 1991 foi o ano em que seu papai nasceu) e que acabou se tornando nome de uma doença!

Então, você, sua mamãe e seu papai vieram passar uma semana aqui em Brasília, no final do ano de 2019. Ficaram alguns dias aqui em casa, com a gente: vovô, Gael e eu. E depois foram para a Chapada dos Veadeiros alguns dias, alugaram um carro e ficaram em uma pousada em São Jorge. Sua primeira viagem, a primeira viagem da sua família.

Logo que chegaram, talvez no dia seguinte, eu estava comendo uma tâmara jumbo congelada - já experimentou? Se não, faça isso, é uma delícia! Agora, você pode - porque, quando eu te dei, na verdade você não podia, ainda. O que aconteceu foi isso: eu fui até a geladeira com você no colo e peguei uma tâmara do pote no congelador. Essas tâmaras gigantes, congeladas viram uma espécie de bombom gelado maravilhoso, mas ainda assim são uma fruta, com o açucar natural dela, milhões de vezes mais saudável do que um doce.

Só que a sua mamãe não quer que você coma doces por enquanto, e a verdade é que eu concordo 1001% com ela. Para que despertar a gula por açucar em uma nenê? Não faz o menor sentido. E mesmo assim eu, pessoa total e rigidamente 'correta' nos hábitos alimentares, mãe, sogra e avó que faz questão absoluta de respeitar as decisões do casal, seus pais, e só emitir uma opinião qualquer quando devidamente questionada; bem, eu não resisti aos seus olhões curiosos e te dei uma casquinha da tâmara para experimentar.

Por falta de sorte, ou justiça universal, sua mãe olhou bem naquela hora. E ficou muito brava, como eu também ficaria no lugar dela. Acho que até foi bom, afinal, para a gente entender que, como eu disse a ela, polidez excessiva não orna com amor verdadeiro. Você verá que eu tenho brigas homéricas com seu papai, sobre assuntos plenamente filosóficos e teóricos, na maior parte das vezes; e mesmo assim tenho por ele um amor feroz.

O amor entre mãe e filho - seu papai e eu - é incondicional, essa é que é a maior graça. Eu posso ficar meia hora discutindo ideologia com seu papai, um gritando com o outro, sabendo que no final o sentimento entre nós vai continuar idêntico ao que era no começo.


E a questão da alimentação, entre nós, é muito ideológica. Tenho imensa, indescritível alegria em seu pai ser cartesiano (chato, diriam alguns) como eu, e jamais cometer qualquer deslize, por menor que seja. E agradeço todos os dias por seu papai ter encontrado uma esposa, a sua mamãe, que também é irredutível e abraça as causas sem reservas, luta por elas. E, mais do que tudo, sou extremamente feliz por eles estarem criando a minha neta com uma alimentação ética, saudável, absolutamente correta. O que torna o meu erro ainda mais absurdo, né?

Curiosamente, outro dia saí com o Vinicius, a Antonella e o JJ (alô JJ, você 'pediu' para que eu escrevesse um livro sobre você; por enquanto está sendo bastante citado nesse diário). Parece que foi em outra vida, quando as pessoas podiam passear por aí livremente, abraçar, pegar crianças no colo, ir juntas a parques. E foi isso o que fizemos, nos encontramos e visitamos um parque bem legal de São Paulo, depois do Vini ter visto vários aviões subirem no Aeroporto de Congonhas.

Lá, eles me contaram que a mãe do JJ - que é uma profissional reconhecida, com um trabalho importante e uma atuação que eu particularmente admiro, de registrar músicas cantadas na época da guerrilha do Araguaia em um disco, para perpetuar essa manifestação cultural - pois bem, a mãe do JJ, que é tudo isso e não é pouca coisa, estava oferecendo um docinho ao Vini, e a Lella lembrou que o Vini ainda não podia comer doces. O JJ reforçou: 'mãe, a gente não quer que você dê isso' e ela falou 'sim, eu sei'. E, passados instantes, foi lá e deu o doce! Ela não aguentou.

E, se isso parece totalmente absurdo para você, saiba que é, mesmo. Mas que um dia você vai estar com sua netinha ou netinho no colo e vai entender perfeitamente que tipo de amor absoluto e irreverente, contra toda a lógica, é esse que eu tô te contando. E vai lembrar de mim, espero.