sábado, 4 de abril de 2020

Sábado, 4 de abril - dia 20 da quarentena

Flora,

Em 1974, sua vovó tinha dez anos, e aconteceu uma epidemia de meningite. Todas as aulas foram suspensas - mesmo se naquela época existisse um imbecil para falar de isolamento vertical, eram as crianças que morriam de meningite, em geral as de até 5 anos. Que terrível. Mas na verdade havia um outro imbecil até pior no poder, porque ao invés de só abrir a boca para falar asneiras ele mandava matar quem falasse o que queria! E ninguém contava quantos casos da doença realmente estavam acontendo, só se ficava sabendo quando morria alguém. Bom, nesse sentido os dois governos eram igualmente imbecis, então.

Minha mãe deve ter ficado apavorada, claro, mas para te falar bem a verdade eu lembro daquela época como divertidíssima. Ganhamos muito brinquedos, o que eu mais lembro foi um fogãozinho que assava bolos de verdade: a gente usava aquela mistura de bolo pronta, colocava na assadeirazinha que vinha junto com o brinquedo e depois, comíamos todos juntos - nós três e os Piza: eu, seus tios avós, Bola e Dedé e os vizinhos da casa em frente da nossa, Mônica, Marcelo e Duda. Engraçado que eu estou aqui te contando isso e sentindo o gosto e o cheiro, lembrando da textura daquele bolo de chocolate terrivelmente artificial.

Por falar em comida, minha mãe começou a obrigar a gente a comer verduras, para ficarmos resistentes e saudáveis. A Maria, uma mulher mineira que morava em casa e era a "nossa" cozinheira, era o que se chamava de forno-e-fogão: fazia pastéis deliciosos, um tutu de feijão maravilhoso, mas nas verduras ela era um legítimo caso de calamidade pública. Tudo era murcho, aguado, sem gosto de nada. E nós crianças, claro, detestávamos. Por causa disso, toda vez que eu como um prato lotado de verduras, ou seja, umas duas vezes por dia no mínimo, eu tenho vontade de ligar para a minha mãe e contar para ela.

Seu papai, também, não comia nada quando era criança! Quem diria que ele e eu juntos, hoje, comemos uma horta inteira de verduras, legumes e frutas, todos os dias, cada um! Estou aqui pensando em você que é a bebezinha que come mais perfeitamente, só alimentos super saudáveis e feitos com todo o carinho.


Bom, um dia, subitamente, descobriram uma vacina para aquele surto de meningite. Não entendo porque, não foi a minha mãe quem nos levou para tomar. Mas, será que meus pais poderiam estar viajando, no meio daquele caos? Não sei mesmo, e acho que nunca vou saber. Enfim, foi a minha vovó (acho) quem nos levou, onde hoje é o supermercado Pão de Açucar na Praça Panamericana (acho). Lembro que havia uma fila imensa, e a gente tomava a picada da vacina no braço, era aquela máquina de injeção que parece uma arminha.


Que ironia.

Enfim, tudo passou. Aquela história da meningite acabou, as aulas voltaram ao normal e a vida prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Sobraram um mês de férias sem poder sair de casa; o forninho de assar bolos queimados embaixo; a impressão de que verduras são péssimas de comer mas ótimas para a saúde; e o alívio da contabilidade: nenhum morto em casa ou entre os conhecidos.



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