sábado, 18 de abril de 2020

Sábado, 18 de abril - dia 34 da quarentena

Dureza, viu? Florinha, como você já notou, está todo mundo cansado de ficar trancado em casa - inclusive eu - sendo que o pior, muito pior, ainda está por vir! Espero estar enganada (frase bem rara de me ouvir dizer, porque adoro ter razão) mas acho que da próxima semana até final de maio veremos uma verdadeira tragédia. Eu sou a pessoa mais otimista que você irá conhecer, minha netinha - mas sou, também, sanitarista. Se não acontecer um 'milagre', teremos pessoas morrendo nas portas dos hospitais, abandonadas, sem vagas do lado de dentro e sem famílias acolhedoras do lado de fora.

Voltando à vaca fria (Flora, quem será que inventou essa expressão? E o que será que quer dizer?), eu tenho dois refúgios; aliás, o termo refúgio se aplica ao lar, onde amo estar, mas o que eu quero dizer é que tenho dois escapes: um dia, eu corro pelas quadras da asa sul, que, bem cedinho, estão desertas. Se vejo alguém ao longe, já desvio um pouquinho por dentro da quadra, saio do caminho e não chego a menos de dez metros de qualquer ser vivente.

No dia alternado, eu faço ginástica. Ou aqui em casa, o treino que seu papai me passou e que é ótimo, como tudo que vem do seu papai, com enorme destaque para você. Ou, então, faço meus exercícios de calistenia em uma pracinha aqui perto onde há barras fixas e ninguém treinando; só uma vez havia um rapaz, nesse dia não treinei mas assumi como a exceção que confirma a regra. Esta pracinha é ótima, cercada por prédios com porteiros, então me sinto bem segura lá. Ou me sentia, até hoje.

Pendurei a minha sacola em um dos aparelhos, calcei minhas luvas de esporte (para não tocar em nada), e estava lá fazendo minhas flexões de braço (perfeitas, não como esse palhaço do presidente finge que faz) e levantando o corpo bem alto na barra superior** quando ouvi um cara gritando para o outro: "no chão! deita no chão!". Quando olhei o primeiro já estava dando um tapão na cara do outro, que protestava timidamente enquanto o segundo já reforçava: "mandei deitar no chão! com as mãos para trás!". Esse que reestabeleceu a ordem [contém ironia] não estava vestido de policial, então não sei se estava à paisana, se é um vigilante da quadra, ou algum outro tipo de milícia.

Juntei minha sacola, garrafinha e saí correndo sem nem tirar as luvas. Umas duas quadras depois percebi que tinha acabado de sofrer mais uma perda de liberdade; agora vou ter que treinar confinada em casa, mesmo. Até porque seu papai vai ler isso hoje e, como você já sabe muito bem, ele é muito cuidadoso com as meninas dele - você, sua mamãe e eu.

Enfim, estou desabafando mas não reclamando, primeiro que não estou doente, o que hoje já é um imenso privilégio. Segundo, que tenho a opção de permanecer em casa, o que é um privilégio muito maior, ainda mais em um país no qual a imensa maiorira das pessoas não tem condições de escolher a forma de trabalho, por razões históricas que você já deve estar começando a perceber, nessas alturas.

E depois, mas também bastante importante, porque eu tenho uma vantagem psicológica, ou talvez, fisiológica, ou até, também, química, sobre muitas pessoas. Explico: tenho uma força de vontade absurda, então ao invés de estar comendo demais e estática demais, consigo levantar da cama todas as manhãs, grata por ter saúde, com disposição para fazer exercícios e passar o dia criando, lendo, escrevendo, trabalhando. Parece fácil, mas absolutamente não é!

Mesmo eu, que não tenho tendência à depressão, tenho me sentindo fazendo força para não ficar depressiva ou ansiosa, estados que são normais, e até esperados, nessa situação que atravessamos. Tenho muita pena da maioria das pessoas, que sofre em dobro. Sabe qual eu acho, no fundo, que é o segredo do meu espírito assertivo? Ter tido um pai muito amoroso. É apenas a minha teoria particular, mas me deixa muito satisfeita porque você, também, tem um pai maravilhoso.

Te amo

** essa parte é mentira, foi só para dar um colorido a mais na história; mas o resto é verdade

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