quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quinta, 30 de maio, dia 46 da quarentena

Flora, minha Benita,

Nossa, estou com tanta saudades de vocês. Um mês e meio sem te pegar no colo, sem abraçar o seu papai. E sem saber quando vou fazer isso de novo. Mas é o contrário de uma prisão: adoro ficar em casa, estou trabalhando muito, lendo o dobro e escrevendo bastante. Menos do que gostaria, sempre. Mas o interior de uma prisão é o caos, o desespero, e em volta dela, o mundo. Aqui em casa é o meu mundo e, em volta dele, o caos. O desespero. Milhares de mortes sofridas, cercadas de pessoas rindo, dançando enquanto carregam um caixão (sério!), brincando que é só 'uma gripinha' e a autoridade que deveria cuidar de tudo perguntando 'E daí?'. O que aconteceu com esse mundo, Flora?

Aqui dentro, saudades de você e de seus pais. Quando falo com vocês quero dar um passo a mais na tecnologia: quando eu era criança, a gente fantasiava que no ano 2000 - isso é muito engraçado, a gente imaginava um futuro distante onde tudo seria eficiente e tecnológico, e isso sempre se passava no ano 2000 - as pessoas iam ter cada uma seu próprio telefone (mas, em geral, era acoplado ao relógio!), no qual poderiam falar com outras pessoas por vídeo, e isso era incrível. Eu cresci vendo TV em preto e branco, e você nasceu quando as vídeos chamadas já são a coisa mais banal do mundo. Mas, nos filmes de ficção científica mais ousados, eu poderia me teletransportar pelo telefone e me materializar bem aí, vendo você correr pela sala, chamando 'mãe' e 'pai' como você já sabe fazer.

Quando eu estava para começar a sétima série do ginásio, com 14 anos, fui com meus pais e irmãos fazer uma viagem pela Europa. Quando voltamos, o ano letivo já tinha começado, e eu tinha sido transferida para a turma B. Por nada, o diretor resolveu fazer um remanejamento e misturou os alunos das duas turmas, e eu caí na turma 'errada'. Só que todas as crianças odiaram mudar de classe e pediram para retornar às originais, e como eu estava ausente eu fiquei lá, na turma B, sendo que todas as minhas amigas estavam na turma A.

Eu achei aquilo injusto e pedi para mudar. Na verdade, fiquei extremamente infeliz porque eu era muito tímida e estava desconfortável com meninas que eu conhecia bem mas não eram as minhas melhores amigas. Resolvi pedir para mudar e, durante muitas semanas - deve ter levado quase dois meses - eu marcava reuniões na diretoria e implorava para retornar ao que era.

O diretor era um homem magro, de cabelos e barba preta. A gente chamava ele de Bode, mas parece que ele era bem legal. Ele me ouvia, conversava, e negava. Umas semanas depois, ele já dizia que ia pensar. Algumas vezes, a minha mãe era chamada e ia junto. Será que a minha mãe foi por iniciativa própria a alguma dessas reuniões? Não lembro.

Um belo dia ele me chamou, com a minha mãe, e disse que eu tinha vencido. Que seria muito bom ser flexível, adaptável mas que blá blá blá blá. Note, Florinha, que isso é muito curioso: porque existe pouca gente no mundo mais flexível e adaptável do que eu (isso dito por uma grande psicanalista, e facilmente observável por qualquer pessoa que conheça a minha história), mas sou também insistente, persistente em batalhar pelo que eu quero muito que aconteça. Que eu acho que são qualidades igualmente úteis para a sobrevivência. Enfim, ele falou, minha mãe me abraçou e os dois ficaram igualmente decepcionados comigo.

Eles esperavam que eu saísse dando pulinhos de felicidade, e eu apenas senti que tinha obtido algo que era justo. Que já era meu. O errado era eu ter sido transferida, não ia organizar uma festa para celebrar que as coisas tinham voltado ao lugar correto.

Essa semana, seu pai queria uma coisa que ele merece receber. Ele não conseguia sequer iniciar o processo, e após dias e dias de energia e esforço, eu consegui. Na verdade, só avancei os primeiros passos, que estavam desafiantes até então. Achei que ele ia dar pulinhos de alegria, mas ele ficou apático, esperando o desenrolar do evento. Disse que merecia desde o princípio, e quando conseguir irá ficar aliviado, não feliz.

Lembrei da minha mãe na sala do Bode, horrorizada com a minha apatia. E eu só sentia alívio.

Fico pensando em você crescida, Flora, no senso de justiça que possivelmente fará parte da sua personalidade. Na alegria sem bobeira que são características do seu pai e da sua mãe. Fico pensando em você, Flora. Por isso que tenho trabalhado tanto, lido, escrito. Tudo menos ficar parada chorando de saudades. 





Nenhum comentário: