terça-feira, 7 de abril de 2020

7 de abril - dia 23 da quarentena

Flora, enquanto eu escrevo, você está na casa da vovó Rose brincando com a tartaruga. Como eu sei disso? Não, não tenho poderes sobrenaturais de ir aí e ficar te espiando - infelizmente! Você não faz ideia de como eu gostaria de estar aí, em um passe de mágica, com vocês. É que seu papai me chamou agora pelo vídeo, e descobri que você está deixando de ser uma bebezinha e já virando uma menininha. Já sabe mostrar a barriga, o pé, apontar o peixinho, pedir os brinquedos, chamar 'papá'.

Quando desligamos, eu dei uma bela de uma chorada, porque estou perdendo tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, sei que tenho que ficar feliz e agradecida por você estar tão bem, tão linda, tão esperta, e o seu papai também estar ótimo, aí ao seu lado. No fundo todas as situações são complexas, e essa também é. Você está tendo um tempo de qualidade com os seus papais, e isso é legal também. Eu, me sinto perdendo a fase que (sempre disse, já te contei) acho mais linda na vida de uma criança.

Há exatamente um mês, em 7 de março, eu saí de casa lá pelas duas da tarde. Peguei um uber, depois um avião, depois um ônibus, depois um metrô e depois mais um uber - ufa! é que comprei a passagem mais barata, que chegava em Viracopos. Mas fui com uma alegria imensa no coração, porque estava indo te encontrar.

Quando eu cheguei, seu papai avisou que os amigos dele estavam na sua casa, comemorando o aniversário dele, que tinha sido dois dias antes. Daí, eu subi e abri a porta e tinha uma pessoinha de casaco branco paradinha bem ao lado da porta. Eu te peguei no colo, bem como eu adoraria poder fazer agora. Te abracei muito, e quando soltei você saiu correndo na minha frente. Correndo, já! Na vez anterior que eu tinha ficado com você, ainda andava alguns passos, caía e fazia uma carinha engraçada, de desolação.

Passei horas com você, brincando, e também curtindo os amigos do seu papai. Imagine que eu conheci todos eles quando eram crianças, não do seu tamanho de agora, enquanto escrevo, mas aprendendo a ler, a escrever, a conhecer o mundo. Sinto um grande amor por todos eles, também, e como eles sabem disso é sempre muito legal encontrar a turma do seu papai.

Mais do que isso: é esse o sentido da vida. Aqueles meninos e meninas estão crescendo, logo mais muitos deles serão papais e mamães. Você, passou de bebezinha para menininha. E eu, claro, fiquei mais velha, como tem que ser.

A única parte chata é que já havia uma ameaça entre nós, invisível como ela é, mas ainda desconhecida. O Saba, que é um dos amigos do papai que eu gosto muito, e que já passou uns dias comigo depois de adulto, quando a gente ainda morava no Rio, havia tido contato com uma pessoa que teve essa doença que está me forçando a ficar longe de você. Felizmente, nem ele, nem nenhum de nós, havia se contaminado. Mas já deu para antecipar o drama, quer dizer, para sentir que não era uma ameaça distante, mas um perigo que estava mesmo chegando perto da gente.

Engraçado como essa frase, que li hoje e escolhi para abrir o clipping, é precisa: "a ação individual de um dos 6 bilhões de habitantes do planeta pode ser mais importante do que a decisão de qualquer governo" (Bertrand Badie). Um ser minúsculo, invisível, que na verdade não é sequer exatamente um ser vivo, está ameaçando as pessoas (mas, eventualmente, salvando o planeta); agindo como um divisor de águas capaz de mudar profundamente a vida de todos nós; e me mantendo afastada das pessoas que eu mais amo no mundo.

Como eu posso terminar essa página do diário, Florinha? Chorando? Antecipando o abraço imenso de forte, apertado e demorado que eu vou dar em você, assim que finalmente puder te encontrar?

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