quarta-feira, 22 de abril de 2020

22 de abril - 38 dias de quarentena

Oi, Flora, minha neta amada

Você já fala mãe, pai, cocô e um monte de coisas. Me dói não estar vivendo essa fase ao seu lado, sempre disse para todos os papais e mamães que esse período, entre 1 e 2 anos, é o mais lindo de todos. Você completou um ano querendo andar, e vai fazer dois anos correndo e falando. Melhor focar na próxima festa de aniversário, eu ao seu lado cantando parabéns.

Meus melhores amigos sabem que sou uma pessoa rara de encontrar, e sempre peço a eles que me entendam. Não sacrifico uma tarde de leitura para bater papo furado, nunca, jamais. Então, quando não apareço na festa, não estou menosprezando. E, quando combino um encontro, estou demonstrando muito mais do que pode parecer.

Um dia eu contei isso para a Claudia, e ela entendeu na hora. Encaro o tempo como o recurso mais valioso que existe. Eu não sou uma pessoa de 'passatempos' e, para mim, tomar café da manhã com eles aos finais de semana significava afirmar que eles ocupam um papel importantíssimo na minha vida. Hoje, eles estão no Canadá, cada vez que eu vejo as crianças os reconheço menos, imagina só eles a mim. Mas, de novo, melhor focar no próximo encontro.

E manter vivas as conexões. Ontem recebi um e-mail do Michel, sobre o compartilhamento de poesias que o JJ me enviou uns dias atrás. Até correntes, Florinha, a coisa que era mais abominável no mundo há um bom tempo, hoje são um luxo. Quem diria! Funciona assim: o JJ - que é um dos meus amigos mais queridos - mandou um e-mail com um poema, pedindo para eu enviar um outro poema para o primeiro da lista e seguir as instruções de incluir novas pessoas na corrente.

Ontem, recebi um e-mail do Michel, enviando um poema para a pessoa que estava em primeiro na lista e copiando eu e o JJ. Assim, abri meu e-mail e havia uma poesia, compartilhada entre dois dos meus melhores amigos e eu. Parece meio bobo falando assim, mas foi como encontrar uma mensagem em uma garrafa.

Adivinha qual foi a poesia que eu coloquei no e-mail, Florinha? Aquela que escrevi no seu aniversário de um ano. Eu sempre fui boa de escrever mensagens, e nunca dei importância a comprar objetos para dar de presente. Uma vez, minha mãe me disse: seus cartões são sempre tão lindos! Eu guardo e fico lendo muitas vezes, mas nunca sei qual era o presente com o qual eles vieram.

Fiquei pensando nisso. Objetos são muito concretos, prefiro as coisas sutis. Depois que o seu papai nasceu, eu parei de ficar tentando acertar o que a sua bisavó queria e, ao invés disso, levava seu papai para tirar uma fotografia - às vezes era bem difícil, Florinha, porque ele não era lá aquela criança super cooperativa, sabe? Eu falava: dá uma risadinha, filhote? E ele: não estou achando graça. Isso, quando não chorava para descer do banquinho. Era tão difícil, e me dá tanta saudade de lembrar disso agora. Mas, afinal, sempre a foto saia linda. Eu tinha vontade de pagar o dobro para a fotógrafa, ela merecia muito, coitada. Daí eu simplesmente comprava um porta-retrato bem simples e elaborava um cartão bem caprichado.

Quando a minha mãe já estava bem doente, eu e o seu papai recortamos uma figurinhas de coisas que a gente queria que ela ainda vivesse: uma mala de viagens, um saquinho de dinheiro, uma cadeirinha de praia, coisas assim. Fizemos um cartão bem bonito, que ela deixou em cima da mesa até o final, mesmo sabendo que nada daquilo iria acontecer. O que vale é a intenção, mesmo.

Aqui em Brasília, um dia nós levamos o Gael na festinha do Noah, filho de um casal bem legal - ela é artista plástica, uma pessoa que também é bem diferente, fora da curva, e ele fabrica os compactos de vinil do vô Carlos. As festinhas aqui podem ser bem legais, porque acontecem nas praças entre as quadras, são mais descontraídas, super agradáveis, no meio da natureza, sem aquela liturgia de entrar e sair. O Gael e o vô Carlos fizeram, eles mesmos, um desenho lindo, assinaram, embalaram e entregaram para o Noah. Quando ele abriu, a primeira coisa que disse foi: 'É para mim? Ninguém mais tem um desenho igual a esse?' Fiquei boba de um menino tão pequeno perceber a preciosidade daquele presente (confesso que estava pensando se ele não iria achar ridículo, comparando com um brinquedo caro de loja. Mas ele adorou).

Então, no seu aniversário, algumas noites antes eu acordei com uma poesia na cabeça. Levantei e escrevi correndo. Eu tinha aqui um porta-retratos que ganhei no natal, a prova concreta que as pessoas dão presentes por convenção, gastando recursos (tempo, energia, dinheiro) à toa, com objetos que a outra pessoa não precisa. Primeiro, porque se eu quisesse um porta-retratos, eu o compraria. Dois, porque se é necessário dar um objeto a alguém para provar afeto, a coisa tá complicada. Enfim, vô Carlos fez uma instalação artística no porta-retratos, escrevendo seu nome e pintando florzinhas. Eu, escrevi a poesia em uma folha bonita de papel cartão cor de laranja, caprichando na letra e tentando imprimir em cada curvinha o que estava sentindo, imaginando você lendo aquilo quando aprender a ler, relendo quando for criança, adolescente, adulta, velha, uma senhora Florinha.

Flora
Você chegou como a primavera
E mais: como todas as primaveras da história
Você trouxe todas as flores
Contidas em todas as sementes do mundo
Quando, enfim, forem frutos
Posso, até mesmo, não estar mais aqui
Mas, graças a você, sempre estarei
Serei raiz
Obrigada
18 de janeiro de 2020
Primeiro aniversário da Flora Benita

Foto da sua festa de um ano, tirada pela Elisa Focante

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