sexta-feira, 3 de abril de 2020

2 de abril (e madrugada do dia 3) - dia 19 da quarentena

Flora, hoje é aniversário da morte do meu avô Inácio. Essa foto é do documento de chegada dele no Brasil, um registro do momento que ele desceu do navio.


Muito emocionante, né?

Ele chegou sozinho em Santos, no mesmo ano que minha avó materna, Queila. 1929. Muitos judeus vieram naquele ano, quando as coisas já estavam ficando bem difíceis para os judeus, na Europa. Olha o nome dele lá, na linha 6.

Eu vou te contar tudo: a imigração dele, a chegada da minha avó, a família dele que ficou no Gueto de Varsóvia. Mas são histórias bem pesadas, e os dias aqui estão bem pesados também, Florinha. Então deixo para contar em outro momento. Você fica aí na casa dos vovôs em Mogi, brincando, felizmente super bem cuidada e cercada de amor. Ainda bem que não sabe que tudo no mundo pode virar, como está acontecendo agora. Uma pandemia, imagine só!

Desde que eu nasci, esse é o momento mais assustador pelo qual passa a humanidade. Estamos um em não-lugar, exatamente onde meu avô, seu trisavô, estava, praticamente um século atrás. Mais exatamente, há 92 anos. 

Olha só, Florinha: o vovô Inácio nasceu em Lodz, na Polônia, em uma família rica e letrada de judeus, o que já era bastante incomum à época. Porque, na verdade, sempre houve um forte antissemitismo na Europa. Daí ele fez faculdade de contabilidade, foi trabalhar como bancário em Berlim, acho que até ocupava um cargo alto. Lembro de ter ouvido algo sobre ele ser gerente, mas não custa lembrar que metade dos judeus do Brasil dizem que seus avós eram rabinos - o que é impossível. A explicação é bem simples: quando uma pessoa faz uma mudança radical e rompe os laços com as suas origens, ela ganhar essa liberdade de inventar o passado que bem entender. 

Eu me senti assim quando entrei na faculdade: cresci como uma menina terrivelmente tímida que tinha vergonha de tudo e só gostava de ficar lendo em um canto, sozinha. Aí entrei na faculdade, percebendo que esse papel já não me cabia tão bem, e inventei uma nova Luciana, que era a mais divertida e extrovertida, aquela figura de popular da classe. E hoje, me reconheço mais na primeira personagem do que na segunda, vai entender.

Curiosamente, entre os judeus e, acho, todo mundo daquela época, estudar era considerado uma dádiva. A pessoa que pudesse dedicar seu tempo a aprender, se tornar mais sábia, era profundamente invejada pelos demais, e por isso que ser rabino era a ocupação mais valorizada entre todas. Bem diferente de nossos tempos, em que temos um presidente da república que fala cuspindo as palavras como se estivesse latindo, não consegue articular uma frase e mesmo assim tem uma turma de fãs. Mas, se parar para pensar, não faz o menor sentido admirar um ignorante! A ideia de ter um modelo é, justamente, que sirva de inspiração para que a gente melhore sempre, não alguém que nos conforte e desculpe por também ser burro e preguiçoso.


Então, o meu vovô cresceu em uma família respeitada, e deve aos poucos ter ido notando que os judeus já não eram mais bem aceitos como antes. Sei que ele não quis ir lutar na primeira guerra, porque era pacifista e, sendo também comunista, não devia concordar com a questão de fundo daquela guerra em particular. Mas teve que ir para o front mesmo assim, porque acabou sendo convocado. 

Na volta, ele perdeu o emprego e voltou para a Polônia, foi morar em Varsóvia onde conheceu a minha avó e se casou com ela, e onde nasceram os dois primeiros fllhos, a tia Sarita e o tio Mário, aquele que te contei que foi sequestrado, lembra? Se quiser, volta algumas páginas aqui do diário e relembre a história, eu te espero hehehehe! Na verdade posso dizer que estou te esperando no futuro, né? É exatamente isso que estou querendo dizer: estou escrevendo nas primeiras horas do dia 3 de abril de 2020, isolada em casa, em meio a uma quarentena. Daqui a pouco vou sair e dar uma corrida na cidade deserta, fazer os exercícios que seu pai me ensinou, e então voltar e trabalhar, ler e escrever até a hora de ir dormir de novo. Amanhã, não sei como estará o mundo - bem, na verdade nem hoje eu sei. Suponho que vou ler nos jornais que o número de casos (casos? pessoas mortas, pessoas doentes, pessoas salvas) aumentou muitíssimo. Estamos em uma fase de total incerteza e só sei que vai acabar bem porque estou conversando, nesse momento, com o futuro. Com você, Flora Benita.

Mesmo se acontecer o pior, do outro lado dessa régua que é o tempo existe você, uma pessoa linda que tem um pedacinho de gene meu. Tem um pedacinho de gene do meu vovô Inácio! Aquele que, um dia, sentiu que a vida na Polônia estava se tornando inviável para a família dele, entrou em um navio e atravessou o mundo - feche os olhos por um segundo, Florinha, e tenta se colocar no lugar dele. A viagem de navio é uma incerteza; a chegada, uma incerteza; o novo pais: incerteza. É uma metáfora perfeita da vida. A única diferença é que, normalmente, a gente está tão envolvido nas tarefas contidianas que não sentimos essa carga de tudo ser incerteza.

Talvez, essa seja a principal diferença desses dias esquisitos, e só essa. A única certeza que eu tenho agora, Flora, está dentro de mim. Sei quem eu sou, o que gosto de fazer e quem são as pessoas que eu amo. E você está no topo dessa lista, e nesse momento deve estar dormindo tranquila e linda ao lado de sua mamãe e de seu papai, que também estão no topo da minha lista. Então, só posso pensar que está tudo certo e sair para a minha corrida. 

Te amo


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