quinta-feira, 16 de abril de 2020

16 de abril - dia 32 da quarentena

Flora, minha amada neta

Achei que iria ter tempo de sobra na quarentena, escrever todos os dias demoradamente neste diário. E, olha só, quando eu vejo o dia acabou e metade dos afazeres da agenda ficou para o dia seguinte! Estou trabalhando mais e melhor, muito produtiva - profícua e frutuosa, minhas palavras favoritas (a outra é fascinante, mas não cabe aqui). A própria ideia do diário, que achei originalíssima, na verdade saiu em vários jornais que vovós e vovôs têm feito o mesmo! Melhor, né, quanto mais gente experiente contando as suas histórias, mais provável que a sua geração possa reunir o que há de melhor - ou que dá para salvar dessa humanidade tão absurda - para construir uma realidade mais justa, sensata, equilibrada. Menos consumista, ou nada consumista, de objetos, pessoas e sentimentos. Modéstia às favas, você tem bons exemplos a quem puxar. Seus pais são pessoas que escolheram viver de uma forma diferente do que se convencionou como "normal", dez milhões de aspas aqui. Se todos fossem iguais a eles, o mundo seria um lugar melhor. Como você puxou a inteligência deles, eu boto fé.

Hoje vou aproveitar para contar uma história que te prometi antes mas não encontrei tempo de cumprir. Seu papai vai adorar porque ele sempre pergunta dessas histórias dos nossos antepassados, que infelizmente sei pouco e de segunda mão. Afinal, nossa família fugiu do holocausto, memórias e pessoas perdidas pelo caminho. Mas, veja só, fui comentar isso com uma amiga e ela comentou que, como seus antepassados vieram da África escravizados, ela não sabe sequer quem foram, nem mesmo de que região vieram. Resumindo, para se queixar da vida é necessário um bocado de egoismo.

Mas a história do primo do meu avô é dramática o suficiente para interessar qualquer pessoa. Para começo de conversa, ele não parecia judeu, mas sim polonês: loirinho, de olhos azuis e supõe-se, nariz e orelhas pequenos. Não parecia, então, comigo. E nem com você, que é essa mistura deliciosa de judeu, branco europeu, preto e índio. Lembrei agora que no desfile do carnaval de 2019, quando você havia acabado de nascer, um carro alegórico trazia a figura de uma indígena com os olhos iguais aos seus, idênticos aos da sua mãe, portanto. Que lindos.  Curiosamente, também existe, em Israel, uma estátua do meu tio-avô - esse mesmo sobre quem eu vou te contar agora.

Meu tio-avô Mikael não foi levado ao gueto de Varsóvia, quando os nazistas decidiram isolar os judeus poloneses em um bairro: ele já morava lá. Óbvio que o plano não era que eles ficassem felizes e bem alimentados lá, e logo começou a faltar comida. Como Mikael era pequeno, ele podia se esgueirar pela tubulação de esgoto e, como tinha o tipo físico que fazia ele passar despercebido 'do lado de lá' do muro (é, cercaram o bairro judeu com um muro, como o que o Trump construiu esses dias), ele saia de tempos em tempos para buscar comida.

Florinha, desculpe pedir isso, mas faça aqui uma breve pausa na sua leitura, feche os olhos e visualize o que estou te contando: uma criança, andando dentro de um cano de esgoto. Com um rio de cocô, cheio de lixo e tudo o mais que você pode imaginar, e não quero descrever aqui. Depois, abra os olhos e continue lendo, vou te contar um episódio horripilante e, logo em seguida, a aventura surpreendente que o tio Mikael viveu.

Um dia, o tio Mikael atravessou a cidade pelos esgotos para buscar comida na casa de uma senhora que doava alimentos para os habitantes do gueto. Provavelmente ela fazia parte de alguma organização, mas infelizmente jamais saberemos quem era. Triste haver herois anônimos, né? (Parêntesis entre parêntesis: sempre detestei quem escreve fazendo perguntas que a gente não pode responder. Afinal, a leitura é algo que acontece dentro da nossa cabeça, não tem para quem responder. Mas a ideia desse diário é justamente essa: conversar com você no futuro, independente de eu estar ao seu lado e você poder virar para mim e comentar sobre o que estiver lendo, ou não. Sempre que quiser falar comigo, Florinha, lembre que tem um pedaço nanoscópico de mim, e portanto do meu amor, dentro de você. Aliás, quando precisar buscar dentro de você um pouquinho de coragem, lembre também que há um filamento genético do tio Mikael bem aí dentro de você, que você pode acessar, e ativar, a qualquer instante).

Então, o tio Mikael voltou com as sacolas cheias da comida com a qual iria alimentar seus irmãos, seus pais, todo mundo e - prepare-se, Florinha, porque isso é muito forte: o gueto estava em chamas. Foi no dia 19 de abril de 1943, quando os judeus cansaram de ser exterminados no campo de concentração de Treblinka e resolveram morrer ali mesmo, lutando com dignidade. Resistiram praticamente um mês! Ao final, morreram todos, mas não o pequeno Mikael, que apenas ficou parado um tempo do lado de fora, olhando aquilo e sabendo que nunca mais veria a sua família. Depois, virou as costas e partiu.

Da minha perspectiva, nesse mesmo instante e bem longe dali, aqui no Brasil, a sua bisavó - minha mamãe - tinha exatamente 5 meses de idade quando o gueto finalmente 'caiu', sem nenhum sobrevivente, em 16 de maio daquele ano. Do ponto de vista do tio Mikael, ele tinha uma sacola de comida nas mãos e nenhum refúgio ao qual voltar. E apenas saiu andando. E bota andando nisso! Ele andou, andou, andou e chegou na Itália! Naquelas alturas, ele não tinha nem um bocadinho de comida, e isso há vários dias. Mas continuava andando, e lá pelas tantas ele chegou em uma fazenda, perto de um celeiro onde se fabricava queijo provolone. Havia um varal, onde estavam pendurados os queijos, curando. Imagine o cheiro forte que se espalhava pelo ar! E o tio Mikael fez o que?

Desmaiou.

Na manhã seguinte, acordou cercado por uma família de fazendeiros italianos fabricantes de queijo. Lembre que a Itália fazia parte do Eixo, formado por nazistas e fascistas, essa gente que a galera ignorante de hoje acha tão sensacional. Pense, também, que quem era apanhado escondendo judeus era assassinado, junto com os protegidos. Agora, pense o seguinte: aquela família - também anônima - acolheu, alimentou, escondeu e protegeu o nosso bravo tio Mikael.

Que, depois da guerra, emigrou para Israel, onde se tornou heroi por bravura em alguma das inúmeras guerras de lá e ganhou uma estátua em praça pública.

Tenho mais uma história para te contar sobre o gueto de Varsóvia, mas essa fica para a próxima. Por causa de histórias como essa que a minha avó me pediu: "nunca vá visitar a Polônia, nunca!". O marido dela, meu vovô, dizia que o Brasil é uma terra abençoada e que a gente devia beijar o chão todos os dias, ao levantar da cama.

Imagina se todos os brasileiros fizessem isso, Florinha? Amassem essa terra, que afinal de contas é o país mais rico do mundo, pois tem a natureza mais exuberante do planeta. Ao invés de destruir as florestas e os guardiões das florestas, cuidassem do nosso mundo e da nossa gente.

Escolhi duas fotos para ilustrar esta história, Flora. Uma delas é de uma criança sendo retirada do gueto de Varsóvia, após o levante. A outra é uma alegoria das tantas coisas alegres e luxuosas que temos no Brasil, esse país repleto de possibilidades. Escolho a segunda para me lembrar de você. Mas, nunca esqueço da primeira.

(Esta foto incrível é do Daniel Ramalho)

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