sábado, 11 de abril de 2020

11 de abril - dia 27 da quarentena

Oi, Florinha

Hoje não saí de casa. Aliás, a casa já se adaptou, também, à nova configuração. Comprei um colchonete para fazer exercícios e alongamento na sala - não só eu, tive que ir em quatro lojas até encontrar uma que ainda tivesse em estoque. Trouxe a magnífica cadeira de trabalho do escritório, arrumei a escrivaninha, montei uma etação de trabalho em pé, com o computador pessoal sobre uma caixa, e essa sobre a máquina de lavar roupa. Tudo perfeito para trabalhar, e na verdade o meu trabalho nunca rendeu tanto, nunca fui tão organizada assim, antes.

Da porta para fora, um caos. O imbecil que colocaram na presidência saiu pelas ruas, nos dois últimos dias, apertando mãos, comendo pãezinhos no balcão da padaria, acredite se quiser: limpando o nariz na mão e depois estendendo a mão infecta para uma senhora que estava usando máscara! O que será que passa pela cabeça de uma mulher que coloca uma máscara cirúrgica para se proteger de um vírus e mesmo assim aperta a mão imunda de um verme?

O que será que se passa na cabeça das pessoas desse país?

As ruas estão lotadas, como se nada estivesse acontecendo. Essa semana, no máximo na seguinte, os serviços de saúde provavelmente vão começar a entrar em colapso, e as pessoas podem morrer na porta, na rua, sem conseguir sequer atendimento. Porque funciona assim, como nas dietas: eu como tudo direitinho, regrado. Se, à minha volta, vejo todas as pessoas comendo um monte de bobagens, minha tolerância vai aumentando e eu acho que, mesmo comendo um punhado de amendoim, dois punhados de uvas passas, enfim, ainda como muito melhor do que os outros... vai alargando meus horizontes, entende?

Então, o povo está cansado de ficar em casa, e vê que as autoridades e as pessoas estão batendo pernas pelas ruas, e fica achando que pode sair de casa só um pouco, também. Nesse caso, não é só que ´o inferno são os outros´ mas são os outros que podem mandar as pessoas para o inferno, mesmo. 

Hoje tive uma conversa ótima com o seu papai sobre a guerra cultural armada em torno de um possível remédio, a cloroquina. Uns acham que ela é a panaceia que pode curar a covid, e que os outros são ideologicamente contra, como se alguém no mundo pudesse ser contra um medicamento! Ele está lendo Totem e Tabu, do Freud, e me falou um monte de coisas sobre fanatismo. Tenho lido muito sobre isso, e concluído cada vez mais que a maior parte das pessoas que votaram nesse homem abominável nunca irão mudar de ideia, justamente porque são fanáticos.

A única parte boa de tudo isso é que seu pai está cada vez mais culto e reflexivo, eu tenho muito orgulho dele, sabia? Salvei toda a conversa e outro dia vou te contar direito, você vai ficar de boca aberta. Aliás, isso você já está, mas por outro motivo: está descobrindo um mundo de cores, arte, diversão. Você é um amor, Flora, hoje já fez um mês que não te encontro, e eu estou morrendo de saudades.

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