quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quinta, 30 de maio, dia 46 da quarentena

Flora, minha Benita,

Nossa, estou com tanta saudades de vocês. Um mês e meio sem te pegar no colo, sem abraçar o seu papai. E sem saber quando vou fazer isso de novo. Mas é o contrário de uma prisão: adoro ficar em casa, estou trabalhando muito, lendo o dobro e escrevendo bastante. Menos do que gostaria, sempre. Mas o interior de uma prisão é o caos, o desespero, e em volta dela, o mundo. Aqui em casa é o meu mundo e, em volta dele, o caos. O desespero. Milhares de mortes sofridas, cercadas de pessoas rindo, dançando enquanto carregam um caixão (sério!), brincando que é só 'uma gripinha' e a autoridade que deveria cuidar de tudo perguntando 'E daí?'. O que aconteceu com esse mundo, Flora?

Aqui dentro, saudades de você e de seus pais. Quando falo com vocês quero dar um passo a mais na tecnologia: quando eu era criança, a gente fantasiava que no ano 2000 - isso é muito engraçado, a gente imaginava um futuro distante onde tudo seria eficiente e tecnológico, e isso sempre se passava no ano 2000 - as pessoas iam ter cada uma seu próprio telefone (mas, em geral, era acoplado ao relógio!), no qual poderiam falar com outras pessoas por vídeo, e isso era incrível. Eu cresci vendo TV em preto e branco, e você nasceu quando as vídeos chamadas já são a coisa mais banal do mundo. Mas, nos filmes de ficção científica mais ousados, eu poderia me teletransportar pelo telefone e me materializar bem aí, vendo você correr pela sala, chamando 'mãe' e 'pai' como você já sabe fazer.

Quando eu estava para começar a sétima série do ginásio, com 14 anos, fui com meus pais e irmãos fazer uma viagem pela Europa. Quando voltamos, o ano letivo já tinha começado, e eu tinha sido transferida para a turma B. Por nada, o diretor resolveu fazer um remanejamento e misturou os alunos das duas turmas, e eu caí na turma 'errada'. Só que todas as crianças odiaram mudar de classe e pediram para retornar às originais, e como eu estava ausente eu fiquei lá, na turma B, sendo que todas as minhas amigas estavam na turma A.

Eu achei aquilo injusto e pedi para mudar. Na verdade, fiquei extremamente infeliz porque eu era muito tímida e estava desconfortável com meninas que eu conhecia bem mas não eram as minhas melhores amigas. Resolvi pedir para mudar e, durante muitas semanas - deve ter levado quase dois meses - eu marcava reuniões na diretoria e implorava para retornar ao que era.

O diretor era um homem magro, de cabelos e barba preta. A gente chamava ele de Bode, mas parece que ele era bem legal. Ele me ouvia, conversava, e negava. Umas semanas depois, ele já dizia que ia pensar. Algumas vezes, a minha mãe era chamada e ia junto. Será que a minha mãe foi por iniciativa própria a alguma dessas reuniões? Não lembro.

Um belo dia ele me chamou, com a minha mãe, e disse que eu tinha vencido. Que seria muito bom ser flexível, adaptável mas que blá blá blá blá. Note, Florinha, que isso é muito curioso: porque existe pouca gente no mundo mais flexível e adaptável do que eu (isso dito por uma grande psicanalista, e facilmente observável por qualquer pessoa que conheça a minha história), mas sou também insistente, persistente em batalhar pelo que eu quero muito que aconteça. Que eu acho que são qualidades igualmente úteis para a sobrevivência. Enfim, ele falou, minha mãe me abraçou e os dois ficaram igualmente decepcionados comigo.

Eles esperavam que eu saísse dando pulinhos de felicidade, e eu apenas senti que tinha obtido algo que era justo. Que já era meu. O errado era eu ter sido transferida, não ia organizar uma festa para celebrar que as coisas tinham voltado ao lugar correto.

Essa semana, seu pai queria uma coisa que ele merece receber. Ele não conseguia sequer iniciar o processo, e após dias e dias de energia e esforço, eu consegui. Na verdade, só avancei os primeiros passos, que estavam desafiantes até então. Achei que ele ia dar pulinhos de alegria, mas ele ficou apático, esperando o desenrolar do evento. Disse que merecia desde o princípio, e quando conseguir irá ficar aliviado, não feliz.

Lembrei da minha mãe na sala do Bode, horrorizada com a minha apatia. E eu só sentia alívio.

Fico pensando em você crescida, Flora, no senso de justiça que possivelmente fará parte da sua personalidade. Na alegria sem bobeira que são características do seu pai e da sua mãe. Fico pensando em você, Flora. Por isso que tenho trabalhado tanto, lido, escrito. Tudo menos ficar parada chorando de saudades. 





quarta-feira, 22 de abril de 2020

22 de abril - 38 dias de quarentena

Oi, Flora, minha neta amada

Você já fala mãe, pai, cocô e um monte de coisas. Me dói não estar vivendo essa fase ao seu lado, sempre disse para todos os papais e mamães que esse período, entre 1 e 2 anos, é o mais lindo de todos. Você completou um ano querendo andar, e vai fazer dois anos correndo e falando. Melhor focar na próxima festa de aniversário, eu ao seu lado cantando parabéns.

Meus melhores amigos sabem que sou uma pessoa rara de encontrar, e sempre peço a eles que me entendam. Não sacrifico uma tarde de leitura para bater papo furado, nunca, jamais. Então, quando não apareço na festa, não estou menosprezando. E, quando combino um encontro, estou demonstrando muito mais do que pode parecer.

Um dia eu contei isso para a Claudia, e ela entendeu na hora. Encaro o tempo como o recurso mais valioso que existe. Eu não sou uma pessoa de 'passatempos' e, para mim, tomar café da manhã com eles aos finais de semana significava afirmar que eles ocupam um papel importantíssimo na minha vida. Hoje, eles estão no Canadá, cada vez que eu vejo as crianças os reconheço menos, imagina só eles a mim. Mas, de novo, melhor focar no próximo encontro.

E manter vivas as conexões. Ontem recebi um e-mail do Michel, sobre o compartilhamento de poesias que o JJ me enviou uns dias atrás. Até correntes, Florinha, a coisa que era mais abominável no mundo há um bom tempo, hoje são um luxo. Quem diria! Funciona assim: o JJ - que é um dos meus amigos mais queridos - mandou um e-mail com um poema, pedindo para eu enviar um outro poema para o primeiro da lista e seguir as instruções de incluir novas pessoas na corrente.

Ontem, recebi um e-mail do Michel, enviando um poema para a pessoa que estava em primeiro na lista e copiando eu e o JJ. Assim, abri meu e-mail e havia uma poesia, compartilhada entre dois dos meus melhores amigos e eu. Parece meio bobo falando assim, mas foi como encontrar uma mensagem em uma garrafa.

Adivinha qual foi a poesia que eu coloquei no e-mail, Florinha? Aquela que escrevi no seu aniversário de um ano. Eu sempre fui boa de escrever mensagens, e nunca dei importância a comprar objetos para dar de presente. Uma vez, minha mãe me disse: seus cartões são sempre tão lindos! Eu guardo e fico lendo muitas vezes, mas nunca sei qual era o presente com o qual eles vieram.

Fiquei pensando nisso. Objetos são muito concretos, prefiro as coisas sutis. Depois que o seu papai nasceu, eu parei de ficar tentando acertar o que a sua bisavó queria e, ao invés disso, levava seu papai para tirar uma fotografia - às vezes era bem difícil, Florinha, porque ele não era lá aquela criança super cooperativa, sabe? Eu falava: dá uma risadinha, filhote? E ele: não estou achando graça. Isso, quando não chorava para descer do banquinho. Era tão difícil, e me dá tanta saudade de lembrar disso agora. Mas, afinal, sempre a foto saia linda. Eu tinha vontade de pagar o dobro para a fotógrafa, ela merecia muito, coitada. Daí eu simplesmente comprava um porta-retrato bem simples e elaborava um cartão bem caprichado.

Quando a minha mãe já estava bem doente, eu e o seu papai recortamos uma figurinhas de coisas que a gente queria que ela ainda vivesse: uma mala de viagens, um saquinho de dinheiro, uma cadeirinha de praia, coisas assim. Fizemos um cartão bem bonito, que ela deixou em cima da mesa até o final, mesmo sabendo que nada daquilo iria acontecer. O que vale é a intenção, mesmo.

Aqui em Brasília, um dia nós levamos o Gael na festinha do Noah, filho de um casal bem legal - ela é artista plástica, uma pessoa que também é bem diferente, fora da curva, e ele fabrica os compactos de vinil do vô Carlos. As festinhas aqui podem ser bem legais, porque acontecem nas praças entre as quadras, são mais descontraídas, super agradáveis, no meio da natureza, sem aquela liturgia de entrar e sair. O Gael e o vô Carlos fizeram, eles mesmos, um desenho lindo, assinaram, embalaram e entregaram para o Noah. Quando ele abriu, a primeira coisa que disse foi: 'É para mim? Ninguém mais tem um desenho igual a esse?' Fiquei boba de um menino tão pequeno perceber a preciosidade daquele presente (confesso que estava pensando se ele não iria achar ridículo, comparando com um brinquedo caro de loja. Mas ele adorou).

Então, no seu aniversário, algumas noites antes eu acordei com uma poesia na cabeça. Levantei e escrevi correndo. Eu tinha aqui um porta-retratos que ganhei no natal, a prova concreta que as pessoas dão presentes por convenção, gastando recursos (tempo, energia, dinheiro) à toa, com objetos que a outra pessoa não precisa. Primeiro, porque se eu quisesse um porta-retratos, eu o compraria. Dois, porque se é necessário dar um objeto a alguém para provar afeto, a coisa tá complicada. Enfim, vô Carlos fez uma instalação artística no porta-retratos, escrevendo seu nome e pintando florzinhas. Eu, escrevi a poesia em uma folha bonita de papel cartão cor de laranja, caprichando na letra e tentando imprimir em cada curvinha o que estava sentindo, imaginando você lendo aquilo quando aprender a ler, relendo quando for criança, adolescente, adulta, velha, uma senhora Florinha.

Flora
Você chegou como a primavera
E mais: como todas as primaveras da história
Você trouxe todas as flores
Contidas em todas as sementes do mundo
Quando, enfim, forem frutos
Posso, até mesmo, não estar mais aqui
Mas, graças a você, sempre estarei
Serei raiz
Obrigada
18 de janeiro de 2020
Primeiro aniversário da Flora Benita

Foto da sua festa de um ano, tirada pela Elisa Focante

sábado, 18 de abril de 2020

Sábado, 18 de abril - dia 34 da quarentena

Dureza, viu? Florinha, como você já notou, está todo mundo cansado de ficar trancado em casa - inclusive eu - sendo que o pior, muito pior, ainda está por vir! Espero estar enganada (frase bem rara de me ouvir dizer, porque adoro ter razão) mas acho que da próxima semana até final de maio veremos uma verdadeira tragédia. Eu sou a pessoa mais otimista que você irá conhecer, minha netinha - mas sou, também, sanitarista. Se não acontecer um 'milagre', teremos pessoas morrendo nas portas dos hospitais, abandonadas, sem vagas do lado de dentro e sem famílias acolhedoras do lado de fora.

Voltando à vaca fria (Flora, quem será que inventou essa expressão? E o que será que quer dizer?), eu tenho dois refúgios; aliás, o termo refúgio se aplica ao lar, onde amo estar, mas o que eu quero dizer é que tenho dois escapes: um dia, eu corro pelas quadras da asa sul, que, bem cedinho, estão desertas. Se vejo alguém ao longe, já desvio um pouquinho por dentro da quadra, saio do caminho e não chego a menos de dez metros de qualquer ser vivente.

No dia alternado, eu faço ginástica. Ou aqui em casa, o treino que seu papai me passou e que é ótimo, como tudo que vem do seu papai, com enorme destaque para você. Ou, então, faço meus exercícios de calistenia em uma pracinha aqui perto onde há barras fixas e ninguém treinando; só uma vez havia um rapaz, nesse dia não treinei mas assumi como a exceção que confirma a regra. Esta pracinha é ótima, cercada por prédios com porteiros, então me sinto bem segura lá. Ou me sentia, até hoje.

Pendurei a minha sacola em um dos aparelhos, calcei minhas luvas de esporte (para não tocar em nada), e estava lá fazendo minhas flexões de braço (perfeitas, não como esse palhaço do presidente finge que faz) e levantando o corpo bem alto na barra superior** quando ouvi um cara gritando para o outro: "no chão! deita no chão!". Quando olhei o primeiro já estava dando um tapão na cara do outro, que protestava timidamente enquanto o segundo já reforçava: "mandei deitar no chão! com as mãos para trás!". Esse que reestabeleceu a ordem [contém ironia] não estava vestido de policial, então não sei se estava à paisana, se é um vigilante da quadra, ou algum outro tipo de milícia.

Juntei minha sacola, garrafinha e saí correndo sem nem tirar as luvas. Umas duas quadras depois percebi que tinha acabado de sofrer mais uma perda de liberdade; agora vou ter que treinar confinada em casa, mesmo. Até porque seu papai vai ler isso hoje e, como você já sabe muito bem, ele é muito cuidadoso com as meninas dele - você, sua mamãe e eu.

Enfim, estou desabafando mas não reclamando, primeiro que não estou doente, o que hoje já é um imenso privilégio. Segundo, que tenho a opção de permanecer em casa, o que é um privilégio muito maior, ainda mais em um país no qual a imensa maiorira das pessoas não tem condições de escolher a forma de trabalho, por razões históricas que você já deve estar começando a perceber, nessas alturas.

E depois, mas também bastante importante, porque eu tenho uma vantagem psicológica, ou talvez, fisiológica, ou até, também, química, sobre muitas pessoas. Explico: tenho uma força de vontade absurda, então ao invés de estar comendo demais e estática demais, consigo levantar da cama todas as manhãs, grata por ter saúde, com disposição para fazer exercícios e passar o dia criando, lendo, escrevendo, trabalhando. Parece fácil, mas absolutamente não é!

Mesmo eu, que não tenho tendência à depressão, tenho me sentindo fazendo força para não ficar depressiva ou ansiosa, estados que são normais, e até esperados, nessa situação que atravessamos. Tenho muita pena da maioria das pessoas, que sofre em dobro. Sabe qual eu acho, no fundo, que é o segredo do meu espírito assertivo? Ter tido um pai muito amoroso. É apenas a minha teoria particular, mas me deixa muito satisfeita porque você, também, tem um pai maravilhoso.

Te amo

** essa parte é mentira, foi só para dar um colorido a mais na história; mas o resto é verdade

quinta-feira, 16 de abril de 2020

16 de abril - dia 32 da quarentena

Flora, minha amada neta

Achei que iria ter tempo de sobra na quarentena, escrever todos os dias demoradamente neste diário. E, olha só, quando eu vejo o dia acabou e metade dos afazeres da agenda ficou para o dia seguinte! Estou trabalhando mais e melhor, muito produtiva - profícua e frutuosa, minhas palavras favoritas (a outra é fascinante, mas não cabe aqui). A própria ideia do diário, que achei originalíssima, na verdade saiu em vários jornais que vovós e vovôs têm feito o mesmo! Melhor, né, quanto mais gente experiente contando as suas histórias, mais provável que a sua geração possa reunir o que há de melhor - ou que dá para salvar dessa humanidade tão absurda - para construir uma realidade mais justa, sensata, equilibrada. Menos consumista, ou nada consumista, de objetos, pessoas e sentimentos. Modéstia às favas, você tem bons exemplos a quem puxar. Seus pais são pessoas que escolheram viver de uma forma diferente do que se convencionou como "normal", dez milhões de aspas aqui. Se todos fossem iguais a eles, o mundo seria um lugar melhor. Como você puxou a inteligência deles, eu boto fé.

Hoje vou aproveitar para contar uma história que te prometi antes mas não encontrei tempo de cumprir. Seu papai vai adorar porque ele sempre pergunta dessas histórias dos nossos antepassados, que infelizmente sei pouco e de segunda mão. Afinal, nossa família fugiu do holocausto, memórias e pessoas perdidas pelo caminho. Mas, veja só, fui comentar isso com uma amiga e ela comentou que, como seus antepassados vieram da África escravizados, ela não sabe sequer quem foram, nem mesmo de que região vieram. Resumindo, para se queixar da vida é necessário um bocado de egoismo.

Mas a história do primo do meu avô é dramática o suficiente para interessar qualquer pessoa. Para começo de conversa, ele não parecia judeu, mas sim polonês: loirinho, de olhos azuis e supõe-se, nariz e orelhas pequenos. Não parecia, então, comigo. E nem com você, que é essa mistura deliciosa de judeu, branco europeu, preto e índio. Lembrei agora que no desfile do carnaval de 2019, quando você havia acabado de nascer, um carro alegórico trazia a figura de uma indígena com os olhos iguais aos seus, idênticos aos da sua mãe, portanto. Que lindos.  Curiosamente, também existe, em Israel, uma estátua do meu tio-avô - esse mesmo sobre quem eu vou te contar agora.

Meu tio-avô Mikael não foi levado ao gueto de Varsóvia, quando os nazistas decidiram isolar os judeus poloneses em um bairro: ele já morava lá. Óbvio que o plano não era que eles ficassem felizes e bem alimentados lá, e logo começou a faltar comida. Como Mikael era pequeno, ele podia se esgueirar pela tubulação de esgoto e, como tinha o tipo físico que fazia ele passar despercebido 'do lado de lá' do muro (é, cercaram o bairro judeu com um muro, como o que o Trump construiu esses dias), ele saia de tempos em tempos para buscar comida.

Florinha, desculpe pedir isso, mas faça aqui uma breve pausa na sua leitura, feche os olhos e visualize o que estou te contando: uma criança, andando dentro de um cano de esgoto. Com um rio de cocô, cheio de lixo e tudo o mais que você pode imaginar, e não quero descrever aqui. Depois, abra os olhos e continue lendo, vou te contar um episódio horripilante e, logo em seguida, a aventura surpreendente que o tio Mikael viveu.

Um dia, o tio Mikael atravessou a cidade pelos esgotos para buscar comida na casa de uma senhora que doava alimentos para os habitantes do gueto. Provavelmente ela fazia parte de alguma organização, mas infelizmente jamais saberemos quem era. Triste haver herois anônimos, né? (Parêntesis entre parêntesis: sempre detestei quem escreve fazendo perguntas que a gente não pode responder. Afinal, a leitura é algo que acontece dentro da nossa cabeça, não tem para quem responder. Mas a ideia desse diário é justamente essa: conversar com você no futuro, independente de eu estar ao seu lado e você poder virar para mim e comentar sobre o que estiver lendo, ou não. Sempre que quiser falar comigo, Florinha, lembre que tem um pedaço nanoscópico de mim, e portanto do meu amor, dentro de você. Aliás, quando precisar buscar dentro de você um pouquinho de coragem, lembre também que há um filamento genético do tio Mikael bem aí dentro de você, que você pode acessar, e ativar, a qualquer instante).

Então, o tio Mikael voltou com as sacolas cheias da comida com a qual iria alimentar seus irmãos, seus pais, todo mundo e - prepare-se, Florinha, porque isso é muito forte: o gueto estava em chamas. Foi no dia 19 de abril de 1943, quando os judeus cansaram de ser exterminados no campo de concentração de Treblinka e resolveram morrer ali mesmo, lutando com dignidade. Resistiram praticamente um mês! Ao final, morreram todos, mas não o pequeno Mikael, que apenas ficou parado um tempo do lado de fora, olhando aquilo e sabendo que nunca mais veria a sua família. Depois, virou as costas e partiu.

Da minha perspectiva, nesse mesmo instante e bem longe dali, aqui no Brasil, a sua bisavó - minha mamãe - tinha exatamente 5 meses de idade quando o gueto finalmente 'caiu', sem nenhum sobrevivente, em 16 de maio daquele ano. Do ponto de vista do tio Mikael, ele tinha uma sacola de comida nas mãos e nenhum refúgio ao qual voltar. E apenas saiu andando. E bota andando nisso! Ele andou, andou, andou e chegou na Itália! Naquelas alturas, ele não tinha nem um bocadinho de comida, e isso há vários dias. Mas continuava andando, e lá pelas tantas ele chegou em uma fazenda, perto de um celeiro onde se fabricava queijo provolone. Havia um varal, onde estavam pendurados os queijos, curando. Imagine o cheiro forte que se espalhava pelo ar! E o tio Mikael fez o que?

Desmaiou.

Na manhã seguinte, acordou cercado por uma família de fazendeiros italianos fabricantes de queijo. Lembre que a Itália fazia parte do Eixo, formado por nazistas e fascistas, essa gente que a galera ignorante de hoje acha tão sensacional. Pense, também, que quem era apanhado escondendo judeus era assassinado, junto com os protegidos. Agora, pense o seguinte: aquela família - também anônima - acolheu, alimentou, escondeu e protegeu o nosso bravo tio Mikael.

Que, depois da guerra, emigrou para Israel, onde se tornou heroi por bravura em alguma das inúmeras guerras de lá e ganhou uma estátua em praça pública.

Tenho mais uma história para te contar sobre o gueto de Varsóvia, mas essa fica para a próxima. Por causa de histórias como essa que a minha avó me pediu: "nunca vá visitar a Polônia, nunca!". O marido dela, meu vovô, dizia que o Brasil é uma terra abençoada e que a gente devia beijar o chão todos os dias, ao levantar da cama.

Imagina se todos os brasileiros fizessem isso, Florinha? Amassem essa terra, que afinal de contas é o país mais rico do mundo, pois tem a natureza mais exuberante do planeta. Ao invés de destruir as florestas e os guardiões das florestas, cuidassem do nosso mundo e da nossa gente.

Escolhi duas fotos para ilustrar esta história, Flora. Uma delas é de uma criança sendo retirada do gueto de Varsóvia, após o levante. A outra é uma alegoria das tantas coisas alegres e luxuosas que temos no Brasil, esse país repleto de possibilidades. Escolho a segunda para me lembrar de você. Mas, nunca esqueço da primeira.

(Esta foto incrível é do Daniel Ramalho)

domingo, 12 de abril de 2020

12 de abril - dia 28 da quarentena


"Quando eu disse ao caroço de laranja, que dentro dele dormia um laranjal inteirinho, ele me olhou absolutamente incrédulo" (Hermógenes de Tarso)

Li essa frase acima, Flora, e me lembrei daquela que sempre uso - confesso que tento incluir em tudo, folders de clientes, propostas, licitações; mas é porque acho perfeita, e se ela me lembra de você, Flora, isso só faz dela ainda mais perfeita: "Todas as flores do futuro estão contidas nas sementes de hoje". É um provérbio chinês, ou é o que dizem, porque sempre que não se conhece a origem de um ditado, o costume é empurrar para a conta dos chineses ou dos indígenas. O que é bastante irônico, veja, porque o chamado 'vírus chinês' foi a gota d'água no copo da xenofobia que existia desde sempre mas, até então, de forma latente. E os indígenas, ai. Estão na fila de serem dizimados (mais uma vez) pelos vírus que o homem 'moderno', entre duzentas mil aspas, criou.

Curiosamente, conversei com um garoto índio aqui de Brasília, da Tribo dos Pajés, e ele zoou um pouquinho com a minha cara (ainda se usa essa expressão, Florinha, zoou?). Eu estava contando, nesse meu jeito meio hippie, que sou vegana. Foi em um curso de agrofloresta, e os outros participantes eram, cada um a seu modo, todos meio 'contra o sistema'. Havia um menino crudívero, que só se alimenta de frutas, e mesmo o almoço sendo o mais ambiental e politicamente correto (produzido no Buriti Zen, um restaurante muito massa daqui), ele saiu para comer as frutas dele lá fora. Enfim, o garoto da tribo Guajajara virou para mim e disse: "Você já viu índio vegetariano, por acaso?".

E eu fiquei pensando naquilo, porque os povos índigenas pescam e caçam, mas nunca na história destruíram a natureza a tal ponto de provocar uma pandemia. Ou, vai ver, isso é o que a gente acha. Quem sabe foi assim que desapareceu Macchu Picchu, todos vítimas de um vírus que entrou, inadvertidamente, em contato com os comensais de um banquete diverso do que estavam acostumados? E, digo mais: talvez tenham feito o que eu considero o correto, que é cremar, e não enterrar, todos os mortos. O mesmo pode explicar o mistério da Ilha de Páscoa. Enfim.

Sei que uma das coisas que eu mais gosto em mim mesma é o fato de eu fazer as coisas que eu considero corretas. E não comer animais é uma dessas coisas.

sábado, 11 de abril de 2020

11 de abril - dia 27 da quarentena

Oi, Florinha

Hoje não saí de casa. Aliás, a casa já se adaptou, também, à nova configuração. Comprei um colchonete para fazer exercícios e alongamento na sala - não só eu, tive que ir em quatro lojas até encontrar uma que ainda tivesse em estoque. Trouxe a magnífica cadeira de trabalho do escritório, arrumei a escrivaninha, montei uma etação de trabalho em pé, com o computador pessoal sobre uma caixa, e essa sobre a máquina de lavar roupa. Tudo perfeito para trabalhar, e na verdade o meu trabalho nunca rendeu tanto, nunca fui tão organizada assim, antes.

Da porta para fora, um caos. O imbecil que colocaram na presidência saiu pelas ruas, nos dois últimos dias, apertando mãos, comendo pãezinhos no balcão da padaria, acredite se quiser: limpando o nariz na mão e depois estendendo a mão infecta para uma senhora que estava usando máscara! O que será que passa pela cabeça de uma mulher que coloca uma máscara cirúrgica para se proteger de um vírus e mesmo assim aperta a mão imunda de um verme?

O que será que se passa na cabeça das pessoas desse país?

As ruas estão lotadas, como se nada estivesse acontecendo. Essa semana, no máximo na seguinte, os serviços de saúde provavelmente vão começar a entrar em colapso, e as pessoas podem morrer na porta, na rua, sem conseguir sequer atendimento. Porque funciona assim, como nas dietas: eu como tudo direitinho, regrado. Se, à minha volta, vejo todas as pessoas comendo um monte de bobagens, minha tolerância vai aumentando e eu acho que, mesmo comendo um punhado de amendoim, dois punhados de uvas passas, enfim, ainda como muito melhor do que os outros... vai alargando meus horizontes, entende?

Então, o povo está cansado de ficar em casa, e vê que as autoridades e as pessoas estão batendo pernas pelas ruas, e fica achando que pode sair de casa só um pouco, também. Nesse caso, não é só que ´o inferno são os outros´ mas são os outros que podem mandar as pessoas para o inferno, mesmo. 

Hoje tive uma conversa ótima com o seu papai sobre a guerra cultural armada em torno de um possível remédio, a cloroquina. Uns acham que ela é a panaceia que pode curar a covid, e que os outros são ideologicamente contra, como se alguém no mundo pudesse ser contra um medicamento! Ele está lendo Totem e Tabu, do Freud, e me falou um monte de coisas sobre fanatismo. Tenho lido muito sobre isso, e concluído cada vez mais que a maior parte das pessoas que votaram nesse homem abominável nunca irão mudar de ideia, justamente porque são fanáticos.

A única parte boa de tudo isso é que seu pai está cada vez mais culto e reflexivo, eu tenho muito orgulho dele, sabia? Salvei toda a conversa e outro dia vou te contar direito, você vai ficar de boca aberta. Aliás, isso você já está, mas por outro motivo: está descobrindo um mundo de cores, arte, diversão. Você é um amor, Flora, hoje já fez um mês que não te encontro, e eu estou morrendo de saudades.

terça-feira, 7 de abril de 2020

7 de abril - dia 23 da quarentena

Flora, enquanto eu escrevo, você está na casa da vovó Rose brincando com a tartaruga. Como eu sei disso? Não, não tenho poderes sobrenaturais de ir aí e ficar te espiando - infelizmente! Você não faz ideia de como eu gostaria de estar aí, em um passe de mágica, com vocês. É que seu papai me chamou agora pelo vídeo, e descobri que você está deixando de ser uma bebezinha e já virando uma menininha. Já sabe mostrar a barriga, o pé, apontar o peixinho, pedir os brinquedos, chamar 'papá'.

Quando desligamos, eu dei uma bela de uma chorada, porque estou perdendo tudo isso. Mas, ao mesmo tempo, sei que tenho que ficar feliz e agradecida por você estar tão bem, tão linda, tão esperta, e o seu papai também estar ótimo, aí ao seu lado. No fundo todas as situações são complexas, e essa também é. Você está tendo um tempo de qualidade com os seus papais, e isso é legal também. Eu, me sinto perdendo a fase que (sempre disse, já te contei) acho mais linda na vida de uma criança.

Há exatamente um mês, em 7 de março, eu saí de casa lá pelas duas da tarde. Peguei um uber, depois um avião, depois um ônibus, depois um metrô e depois mais um uber - ufa! é que comprei a passagem mais barata, que chegava em Viracopos. Mas fui com uma alegria imensa no coração, porque estava indo te encontrar.

Quando eu cheguei, seu papai avisou que os amigos dele estavam na sua casa, comemorando o aniversário dele, que tinha sido dois dias antes. Daí, eu subi e abri a porta e tinha uma pessoinha de casaco branco paradinha bem ao lado da porta. Eu te peguei no colo, bem como eu adoraria poder fazer agora. Te abracei muito, e quando soltei você saiu correndo na minha frente. Correndo, já! Na vez anterior que eu tinha ficado com você, ainda andava alguns passos, caía e fazia uma carinha engraçada, de desolação.

Passei horas com você, brincando, e também curtindo os amigos do seu papai. Imagine que eu conheci todos eles quando eram crianças, não do seu tamanho de agora, enquanto escrevo, mas aprendendo a ler, a escrever, a conhecer o mundo. Sinto um grande amor por todos eles, também, e como eles sabem disso é sempre muito legal encontrar a turma do seu papai.

Mais do que isso: é esse o sentido da vida. Aqueles meninos e meninas estão crescendo, logo mais muitos deles serão papais e mamães. Você, passou de bebezinha para menininha. E eu, claro, fiquei mais velha, como tem que ser.

A única parte chata é que já havia uma ameaça entre nós, invisível como ela é, mas ainda desconhecida. O Saba, que é um dos amigos do papai que eu gosto muito, e que já passou uns dias comigo depois de adulto, quando a gente ainda morava no Rio, havia tido contato com uma pessoa que teve essa doença que está me forçando a ficar longe de você. Felizmente, nem ele, nem nenhum de nós, havia se contaminado. Mas já deu para antecipar o drama, quer dizer, para sentir que não era uma ameaça distante, mas um perigo que estava mesmo chegando perto da gente.

Engraçado como essa frase, que li hoje e escolhi para abrir o clipping, é precisa: "a ação individual de um dos 6 bilhões de habitantes do planeta pode ser mais importante do que a decisão de qualquer governo" (Bertrand Badie). Um ser minúsculo, invisível, que na verdade não é sequer exatamente um ser vivo, está ameaçando as pessoas (mas, eventualmente, salvando o planeta); agindo como um divisor de águas capaz de mudar profundamente a vida de todos nós; e me mantendo afastada das pessoas que eu mais amo no mundo.

Como eu posso terminar essa página do diário, Florinha? Chorando? Antecipando o abraço imenso de forte, apertado e demorado que eu vou dar em você, assim que finalmente puder te encontrar?

domingo, 5 de abril de 2020

Domingo, 5 de abril, dia 21 da quarentena

O ANO EM QUE A TERRA PAROU
e as verdadeiras amizades brilharam

Dava um bom título e subtítulo de romance, né, Florinha?

Hoje tive uma conversa especial com uma pessoa que é minha amiga há bem mais de 30 anos, mas só agora estamos ficando Amigas, com A maiúsculo. Estudamos juntas na faculdade, sempre estivemos mais ou menos em contato, mas - curiosamente - agora é que estamos criando laços de fraternidade e compreensão mais fortes, reais e, espero, indissolúveis. Além de uma série de coincidências - tivemos filhos na mesma época, o neto dela tem a idade do meu enteado (seu tio Gael), a filha dela começou a carreira com uma espécie de pequeno empurrão meu, estamos descobrindo uma visão de mundo coincidente, nos últimos tempos.

Engraçado que estou trancada em casa, mas nunca conversei tanto com os amigos como nas últimas semanas. Tecnologia tem essas vantagens. E, especialmente, permite que seu papai me mande um vídeo como o que recebi agora, com você toda feliz e desenvolta, já dominando a própria postura corporal. Seu pai falou que você está quase dando pulos, já!

Você não faz ideia de como eu queria estar aí. Pelo menos, fiquei feliz vendo você cercada de jardim e de pessoas queridas, com as mãozinhas sujas de tinta, tão alegre como se estivéssemos vivendo tempos normais.

Te amo, minha neta, se eu pudesse romper os padrões de espaço-tempo e ir aí só para te dar um abraço bem forte, ficaria ainda mais feliz. Como não posso, mando raios telepáticos de amor.


sábado, 4 de abril de 2020

Sábado, 4 de abril - dia 20 da quarentena

Flora,

Em 1974, sua vovó tinha dez anos, e aconteceu uma epidemia de meningite. Todas as aulas foram suspensas - mesmo se naquela época existisse um imbecil para falar de isolamento vertical, eram as crianças que morriam de meningite, em geral as de até 5 anos. Que terrível. Mas na verdade havia um outro imbecil até pior no poder, porque ao invés de só abrir a boca para falar asneiras ele mandava matar quem falasse o que queria! E ninguém contava quantos casos da doença realmente estavam acontendo, só se ficava sabendo quando morria alguém. Bom, nesse sentido os dois governos eram igualmente imbecis, então.

Minha mãe deve ter ficado apavorada, claro, mas para te falar bem a verdade eu lembro daquela época como divertidíssima. Ganhamos muito brinquedos, o que eu mais lembro foi um fogãozinho que assava bolos de verdade: a gente usava aquela mistura de bolo pronta, colocava na assadeirazinha que vinha junto com o brinquedo e depois, comíamos todos juntos - nós três e os Piza: eu, seus tios avós, Bola e Dedé e os vizinhos da casa em frente da nossa, Mônica, Marcelo e Duda. Engraçado que eu estou aqui te contando isso e sentindo o gosto e o cheiro, lembrando da textura daquele bolo de chocolate terrivelmente artificial.

Por falar em comida, minha mãe começou a obrigar a gente a comer verduras, para ficarmos resistentes e saudáveis. A Maria, uma mulher mineira que morava em casa e era a "nossa" cozinheira, era o que se chamava de forno-e-fogão: fazia pastéis deliciosos, um tutu de feijão maravilhoso, mas nas verduras ela era um legítimo caso de calamidade pública. Tudo era murcho, aguado, sem gosto de nada. E nós crianças, claro, detestávamos. Por causa disso, toda vez que eu como um prato lotado de verduras, ou seja, umas duas vezes por dia no mínimo, eu tenho vontade de ligar para a minha mãe e contar para ela.

Seu papai, também, não comia nada quando era criança! Quem diria que ele e eu juntos, hoje, comemos uma horta inteira de verduras, legumes e frutas, todos os dias, cada um! Estou aqui pensando em você que é a bebezinha que come mais perfeitamente, só alimentos super saudáveis e feitos com todo o carinho.


Bom, um dia, subitamente, descobriram uma vacina para aquele surto de meningite. Não entendo porque, não foi a minha mãe quem nos levou para tomar. Mas, será que meus pais poderiam estar viajando, no meio daquele caos? Não sei mesmo, e acho que nunca vou saber. Enfim, foi a minha vovó (acho) quem nos levou, onde hoje é o supermercado Pão de Açucar na Praça Panamericana (acho). Lembro que havia uma fila imensa, e a gente tomava a picada da vacina no braço, era aquela máquina de injeção que parece uma arminha.


Que ironia.

Enfim, tudo passou. Aquela história da meningite acabou, as aulas voltaram ao normal e a vida prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Sobraram um mês de férias sem poder sair de casa; o forninho de assar bolos queimados embaixo; a impressão de que verduras são péssimas de comer mas ótimas para a saúde; e o alívio da contabilidade: nenhum morto em casa ou entre os conhecidos.



sexta-feira, 3 de abril de 2020

2 de abril (e madrugada do dia 3) - dia 19 da quarentena

Flora, hoje é aniversário da morte do meu avô Inácio. Essa foto é do documento de chegada dele no Brasil, um registro do momento que ele desceu do navio.


Muito emocionante, né?

Ele chegou sozinho em Santos, no mesmo ano que minha avó materna, Queila. 1929. Muitos judeus vieram naquele ano, quando as coisas já estavam ficando bem difíceis para os judeus, na Europa. Olha o nome dele lá, na linha 6.

Eu vou te contar tudo: a imigração dele, a chegada da minha avó, a família dele que ficou no Gueto de Varsóvia. Mas são histórias bem pesadas, e os dias aqui estão bem pesados também, Florinha. Então deixo para contar em outro momento. Você fica aí na casa dos vovôs em Mogi, brincando, felizmente super bem cuidada e cercada de amor. Ainda bem que não sabe que tudo no mundo pode virar, como está acontecendo agora. Uma pandemia, imagine só!

Desde que eu nasci, esse é o momento mais assustador pelo qual passa a humanidade. Estamos um em não-lugar, exatamente onde meu avô, seu trisavô, estava, praticamente um século atrás. Mais exatamente, há 92 anos. 

Olha só, Florinha: o vovô Inácio nasceu em Lodz, na Polônia, em uma família rica e letrada de judeus, o que já era bastante incomum à época. Porque, na verdade, sempre houve um forte antissemitismo na Europa. Daí ele fez faculdade de contabilidade, foi trabalhar como bancário em Berlim, acho que até ocupava um cargo alto. Lembro de ter ouvido algo sobre ele ser gerente, mas não custa lembrar que metade dos judeus do Brasil dizem que seus avós eram rabinos - o que é impossível. A explicação é bem simples: quando uma pessoa faz uma mudança radical e rompe os laços com as suas origens, ela ganhar essa liberdade de inventar o passado que bem entender. 

Eu me senti assim quando entrei na faculdade: cresci como uma menina terrivelmente tímida que tinha vergonha de tudo e só gostava de ficar lendo em um canto, sozinha. Aí entrei na faculdade, percebendo que esse papel já não me cabia tão bem, e inventei uma nova Luciana, que era a mais divertida e extrovertida, aquela figura de popular da classe. E hoje, me reconheço mais na primeira personagem do que na segunda, vai entender.

Curiosamente, entre os judeus e, acho, todo mundo daquela época, estudar era considerado uma dádiva. A pessoa que pudesse dedicar seu tempo a aprender, se tornar mais sábia, era profundamente invejada pelos demais, e por isso que ser rabino era a ocupação mais valorizada entre todas. Bem diferente de nossos tempos, em que temos um presidente da república que fala cuspindo as palavras como se estivesse latindo, não consegue articular uma frase e mesmo assim tem uma turma de fãs. Mas, se parar para pensar, não faz o menor sentido admirar um ignorante! A ideia de ter um modelo é, justamente, que sirva de inspiração para que a gente melhore sempre, não alguém que nos conforte e desculpe por também ser burro e preguiçoso.


Então, o meu vovô cresceu em uma família respeitada, e deve aos poucos ter ido notando que os judeus já não eram mais bem aceitos como antes. Sei que ele não quis ir lutar na primeira guerra, porque era pacifista e, sendo também comunista, não devia concordar com a questão de fundo daquela guerra em particular. Mas teve que ir para o front mesmo assim, porque acabou sendo convocado. 

Na volta, ele perdeu o emprego e voltou para a Polônia, foi morar em Varsóvia onde conheceu a minha avó e se casou com ela, e onde nasceram os dois primeiros fllhos, a tia Sarita e o tio Mário, aquele que te contei que foi sequestrado, lembra? Se quiser, volta algumas páginas aqui do diário e relembre a história, eu te espero hehehehe! Na verdade posso dizer que estou te esperando no futuro, né? É exatamente isso que estou querendo dizer: estou escrevendo nas primeiras horas do dia 3 de abril de 2020, isolada em casa, em meio a uma quarentena. Daqui a pouco vou sair e dar uma corrida na cidade deserta, fazer os exercícios que seu pai me ensinou, e então voltar e trabalhar, ler e escrever até a hora de ir dormir de novo. Amanhã, não sei como estará o mundo - bem, na verdade nem hoje eu sei. Suponho que vou ler nos jornais que o número de casos (casos? pessoas mortas, pessoas doentes, pessoas salvas) aumentou muitíssimo. Estamos em uma fase de total incerteza e só sei que vai acabar bem porque estou conversando, nesse momento, com o futuro. Com você, Flora Benita.

Mesmo se acontecer o pior, do outro lado dessa régua que é o tempo existe você, uma pessoa linda que tem um pedacinho de gene meu. Tem um pedacinho de gene do meu vovô Inácio! Aquele que, um dia, sentiu que a vida na Polônia estava se tornando inviável para a família dele, entrou em um navio e atravessou o mundo - feche os olhos por um segundo, Florinha, e tenta se colocar no lugar dele. A viagem de navio é uma incerteza; a chegada, uma incerteza; o novo pais: incerteza. É uma metáfora perfeita da vida. A única diferença é que, normalmente, a gente está tão envolvido nas tarefas contidianas que não sentimos essa carga de tudo ser incerteza.

Talvez, essa seja a principal diferença desses dias esquisitos, e só essa. A única certeza que eu tenho agora, Flora, está dentro de mim. Sei quem eu sou, o que gosto de fazer e quem são as pessoas que eu amo. E você está no topo dessa lista, e nesse momento deve estar dormindo tranquila e linda ao lado de sua mamãe e de seu papai, que também estão no topo da minha lista. Então, só posso pensar que está tudo certo e sair para a minha corrida. 

Te amo


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Primeiro de abril - dia 18 da pandemia

Florinha, hoje eu posso dizer que não queria estar aí com você, vi o vídeo que o seu papai mandou agora e não me deu a menor vontade de te apertar muito, te abraçar com força e sapecar um beijão na sua bochecha. Só hoje eu posso dizer isso, porque é Dia da Mentira. Nunca achei graça nessas coisas, mas como você é uma bebezinha eu tenho licença para fazer brincadeiras infantis com você, né?

Te amo muito, viu, mas isso não é mentira não. É a mais pura verdade.

Vovó