quarta-feira, 25 de março de 2020

Um diário do ano da pandemia

25 de março de 2020 - 10 dias de quarentena 

Eu sempre achei que a fase mais bonita da vida de uma pessoa é quando ela começa a dar os primeiros passos. Quando cheguei em São Paulo nessa última visita, Flora, você já estava passeando desenvolta pela casa toda! Quinze dias antes, você dava apenas alguns passos e caia. Fazia uma cara terrível, de choro, que durava nem um minuto, e já se levantava e voltava a andar. Em atitudes suas, como essa, é que vou aprendendo a te conhecer.

Mas agora, Florinha, já se passou quase um mês - na verdade, se não fosse essa maldita pandemia, eu estaria nesse exato momento voando para te encontrar. São 15h07, e meu vôo estava marcado para chegar em Congonhas às 13h40. Neste momento eu estaria saindo do aeroporto para encontrar as pessoas que mais amo no mundo.

Ao invés disso, estou aqui lendo aflita as milhões de notícias por hora que aparecem nos jornais. E lembrando de você, dessa última visita que foi tão maravilhosa.

Tem umas coisas entre nós que ninguém mais sabe, nem mesmo seu pai. Dói muito no peito quando eu penso que, agora, só eu é que sei delas, você é uma bebezinha e já esqueceu, certamente. Não lembra que, das duas últimas vezes que me viu, você (demorou muitos minutos para me reconhecer, eu sei, mas depois) lembrou da brincadeira que fizemos enquanto seu pai dormia na visita anterior, olhou bem nos meus olhos e fez um 'Ó' enorme com a boquinha, e bateu palmas. É uma cara que você só faz para mim, e significa: conseguimos encaixar a peça no lugar exato, que bom, palmas para nós.

Quando você ler isso, Flora, vai parecer uma fantasia da vovó, mas não é, não. Sei disso porque eu também achava que era, e fiz vários testes até tirar a dúvida. Mas, se fosse, só tenho a dizer: se non é vero, é ben trovato. Também é realidade que você às vezes interrompe a brincadeira, apanha a sua boneca preferida, que na verdade é uma macaca, e fica brincando sozinha, fazendo ela andar. Não sei se sua mamãe fazia isso, quando nenê, de passar uns momentos brincando sozinha, no mundinho dela. Mas seu papai, esse fazia, e é muito algo que ele puxou de mim.

Mas a parte mais deliciosa, eu ainda não cheguei nela. De vez em quando, você se achega e encosta a carinha na minha, só isso. Gruda a testinha na minha bochecha e fica. E eu quero morrer de tanta alegria. Também, algumas vezes, na visita anterior, você tombava, porque ainda tinha que se concentrar para permanecer sentada - hahahahahaha - quando se distraía, perdia o equilíbrio e caia para a frente. Eu fazia uma massagem nas suas costas e você ficava lá, esquecida de se aprumar. Seu pai também sempre adorou um carinho nas costas!

O que eu mais queria da vida, Florinha - depois de ser mãe, claro - era ser avó. E nenhuma neta poderia ser mais perfeita do que você. Mesmo agora, sofrendo de saudades, eu tenho que me concentrar em não dramatizar, não me fazer de vítima, por mais que seja um sofrimento agudo estar longe de você. Vou ficar meses longe de você, meses sem ver seu pai! Mas, o que me tira o sono várias vezes, de madrugada, é pensar nas outras crianças da favela, nas que não estão lá porque os pais escolheram participar de um projeto para mudar a comunidade mas, sim, porque os pais são as pessoas da comunidade, mesmo.

Sinto uma angústia absurda em pensar que elas já são desprotegidas naturalmente, e os tempos que estão chegando são ainda mais absurdamente cruéis. Então, minhas energias ficam voltadas para desejar com todas as minhas forças que elas fiquem bem. E quanto a você, apenas quero que fique bem, também. Nada do que temos entre nós será perdido. Vai desaparecer, claro que vai, mas nós duas vamos reconstruir esse comecinho de relacionamento e construir nossos momentos no futuro.

A outra idade mais bonita da vida, Florinha, é quando a criança começa a escrever. Essa é a minha opinião. O Gael está aqui na sala ao lado, descobrindo uma camada do mundo, como você faz ao andar. O que para você é liberdade de se locomover, e de falar as primeiras palavras - da última vez que te vi, você falou bola, banana, água - ele está descobrindo que é possível escrever uma história; inventar um mundo novo enquanto registra palavras em uma folha de papel.

E eu, também. Estou na idade em que é possível inventar novos formatos de construir novas realidades. No meu caso, esta idade é hoje, uma semana antes de completar 56 anos - quando, diga-se de passagem, era para eu passar o dia inteiro com você e retornar a Brasília só de noite. E aqui estou eu, escrevendo o nosso futuro. Eu acho mesmo, Flora Benita, que essa pandemia é uma vingança da natureza pelo modo terrível que a humanidade a tem tratado, consumindo tudo; madeira, águas, bichos, plantas, sempre querendo ter mais e mais. E também acredito que esse momento será um divisor de águas da nossa época. Que a sua geração será mais sábia, não destrutiva como a minha e não superficial como a dos seus pais - evidente que eles não são, mas boa parte das pessoas da idade deles, são, porque é a tônica deste tempo. Acho que, agora, elas terão que mudar.

Quando você escrever o futuro, Flora, eu quero estar ao seu lado. E se não acreditasse nisso, que estarei, hoje seria um dia ainda mais difícil do que já está sendo.

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