domingo, 29 de março de 2020

29 de março - dia 14 da quarentena

Florinha, ontem te falei de um livro, e hoje sai para dar a minha corrida matinal e me deparei com uma cenário que me lembrou um outro: O Ano do Dilúvio, da Margaret Atwood. Com O Conto da Aia ela ficou super na moda, mas na verdade meus amigos sabem que eu já era leitora contumaz dos livros dela, décadas atrás. Li e reli todos, especialmente A Noiva Ladra (umas 4 ou 5 vezes) e esse O Ano do Dilúvio, que é uma distopia - o contrário de utopia, quer dizer, uma imaginação sobre um cenário catastrófico. No livro, que faz parte de uma trilogia, o mundo está quase deserto por causa de doenças causadas por um acidente biológico fabricado por megacorporações, e a resistência vem de um grupo pós-hippie e místico, que usa a sabedoria da natureza para combater a destruição. 

Poucos livros mudam a vida da gente - O Mito da Beleza, que te contei ontem; Comer Animais, que comprei e guardei anos antes de ler, porque sabia que iria mudar a minha visão de mundo, e eu ainda não estava a fim de mudar. Quando li esse livro, que o Jonathan Safran Foer escreveu quando a mulher ficou grávida, foi que parei de comer bichinhos (sim, a vovó também comia, como quase todo mundo fazia, na época). Resolvi ler quando me toquei que a sua bisavó Marília, que parou de comer carne quando tinha uns 17 anos, tá aí tinindo e trincando aos 90 e tantos anos, mostrando que realmente não é preciso se preocupar com as proteínas, como tantas pessoas dizem por ignorância ou má fé.

Então, hoje eu fui correr e passei por vários cachorros em situação de rua, digamos assim. Foi isso o que me lembrou do livro, da distopia. Também, acho que estava abalada porque a Babs morreu, então ontem foram duas pessoas conhecidas próximas minhas, ambas de coronavírus. Daí comecei a ficar inquieta com o silêncio da Sandra, minha amiga, e pedi notícias, acabei descobrindo que a mãe dela está no hospital - não é covid, mas eu fiquei muito triste com a notícia, também. Várias pessoas que eu amo estão sofrendo e, mesmo se eu não fosse tão empática, já seria suficiente para baixar o moral.

Estou escrevendo isso antes de ler os jornais - sua vovó lê todos os jornais possíveis, todos os dias, pela internet. Quando o seu papai foi passar seis meses na Austrália, ela mandava notícias do Brasil para ele todas as manhãs, que para ele eram noite. Essa comunicação entre mãe e filho acabou virando um clipping que os amigos dele pediam para ler, e hoje faz parte da rotina da vovó, que faz uma curadoria de notícias todas as manhãs e manda para dezenas de pessoas. Hoje, estou até com medo de começar porque sei que as próximas semanas serão bastante difíceis para todo mundo.

Ficar seis meses longe do seu papai foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na vida, ainda mais porque a Austrália era muito longe, não adiantava só resolver e ir- iria demorar um dia inteiro para chegar, na melhor das hipóteses. Hoje, era para eu estar passando o dia com vocês, então estou lembrando de como me senti naquela época. Por mais duro que seja ficar longe, sei que seu pai está bem, com a mulher que ama, a filhota linda e maravilhosa, e a família da sua mamãe, que cuida super bem de vocês, dá carinho e faz comida gostosa (até demais, cada vez que vai aí a vovó volta uns quilinhos mais recheada). Então, mesmo sentindo uma saudades avassaladora de vocês, não vou ficar fazendo drama, e sim imaginando os abraços e beijos que vou dar em todos vocês daqui a uns meses.

Uma vez, quando estava na Austrália, seu pai foi passar alguns dias na Nova Zelândia, e ficou muito, muito doente. Desde que ele nasceu, uma coisa que eu sempre fiz questão era de cuidar dele eu mesma, fosse qual fosse a doença. Mas daquela vez ele estava no outro lado do mundo, Florinha. Eu e o vovô ficamos no mais completo desespero, dá para imaginar? Ele estava tremendo de febre e com calafrios, e não tinha onde passar a noite!

Daí, uma completa desconhecida, que nunca tinha visto ele na vida e não tinha nem a mais remota obrigação, levou ele para casa, comprou remédio e cuidou dele como cuidaria de uma das duas filhas dela. Eu agradeço a ela em pensamento, todos os dias, por isso. Quando as coisas parecem muito difíceis, eu lembro dela e agradeço. Acho que mesmo nesse mundo cruel, tem muita gente como ela, que sai do seu caminho, abre mão do próprio conforto, só para ajudar alguém que ela nem conhece. E que depois que essa maldita pandemia tiver passado, pessoas como a Lila vão continuar existindo, prontas - mas não a reconstruir - a construir um mundo novo, melhor.

Nenhum comentário: