sábado, 28 de março de 2020

28 de março - dia 13 da quarentena

Ai, Florinha, hoje a coisa pegou. A mãe da Roberta está no hospital com Covid-19, em estado grave, lutando pela vida. Minha irmã - sua tia-avó Dedé, não pode nem ir até lá para dar um abraço na mulher com quem viveu mais de uma década. É muito triste isso, de chorar muito, mas ao mesmo tempo dá vontade de bater no cara que me disse, essa semana, que é só uma gripezinha.

Como a humanidade conseguiu cavar um buraco tão fundo para si mesma? Um buracão no meio da casa dela, né? Afinal, a gente mora nesse planeta. Porque, Flora, você não vai acreditar, mas quando você era criança as pessoas comiam bichos! Sério. Daí começaram a vir as pandemias, a maioria delas a partir da China, onde os ricos comiam animais criados em cativeiro especialmente para serem mortos e virar alimento. Desculpe eu te contar isso, mas você precisa saber. Frutas, legumes, vegetais, essas coisas que você chama de alimento, eram trocadas por pedaços de bichos esquartejados - e tinha gente que adorava as partes com gordura, pingando sangue. Que nojo!

A gripe suína veio do México, aliás, o que para mim é espantoso: lá, eles têm batatas, abacates, pimentas, feijões e milhos incríveis, tanto é que seu pai é absolutamente fanático por comida mexicana 100% vegetal.

Mas na China tinha muito mais gente pobre do que gente rica (outra coisa que mudou desde que você era bebezinha, ainda bem!) e os pobres comiam bichinhos que vinham do mato, animais selvagens. Os ricos, comiam animais de tudo quanto é jeito: selvagens e criados para virarem bifes. Nossa, juro que estou constrangida de te contar essas coisas. Mas preciso continuar. Mesmo os ricos comiam frangos, que ficavam presos em gaiolas minúsculas, muitos em cada cela - aliás, gaiola - uns em cima dos outros. Tanto é que as pessoas que faziam isso cortavam os bicos e as garras deles para eles não matarem os companheiros ou eles mesmos. Como uma gaiola ficava sobre a outra, o cocô e o xixi dos de cima caia nos de baixo, e foi assim que apareceu a gripe aviária.

Seu pai teve suspeita de gripe aviária. Com tanta coisa que já me aconteceu na vida, e mesmo não sabendo se foi mesmo essa doença que ele teve ou não, sempre lembro desse dia como o pior dia de toda a minha vida. Nunca senti tanto medo, tanta impotência, sem ter nada que pudesse fazer. Sofri tanto, o dia inteiro, que a lembrança da sensação nunca passou completamente.

Depois da aviária, teve a suína (antes, a da vaca louca), e agora a Covid-19, todas causadas por um vírus que vivia em paz dentro de um bichinho, chamado Pangolim, que vivia solto na mata. Alguém capturou o bichinho e levou ele para vender no mercado de bichos vivos - sim, Flora, a maioria dos mercados era de bichos já mortos e retalhados, acredita? - e os vírus que viviam nele passaram para as pessoas, e dentro das pessoas ele faz coisas terríveis como parar a respiração, e aí elas morrem afogadas. Parece uma história de terror, sem final feliz, né?

Bom, o que a gente pode fazer para melhorar essa história? Em primeiro lugar, não comer bichos, é claro. Depois, usar esse tempo presos em casa para produzir coisas boas, planejar um futuro melhor. Criar novas histórias, essas sim com finais felizes. Eu, por exemplo, estou aproveitando bem meu tempo. Tocando três projetos literários. Trabalhando mais do que o normal, escrevendo textos ótimos para os clientes. Bem, na verdade, textos que eu acho que estão ótimos, certo?

Mas é justamente aí que eu queria chegar. A minha vida toda eu escrevi, mas não achava que nada ficava bom o suficiente para mostrar aos outros. E, nos últimos anos, não sei bem o que aconteceu: ou o meu texto melhorou, ou eu perdi o senso de ridículo hehehehehehehe. Sério, acho que aconteceram as duas coisas. Vou te explicar:

Há mais de dez anos, eu fiz um curso rápido de escrita criativa com uma escritora muito boa que é também professora de literatura e escreve críticas de livros. A minha intenção ao fazer esse curso não era aprender a escrever, mas sim mostrar algo que eu tivesse escrito para uma crítica literária, para descobrir se eu tinha futuro ou era péssima e devia parar de ter ilusões e ir fazer outra coisa. O primeiro conto que eu escrevi no curso se chamava A Marquesa Saiu às Cinco Horas - uma brincadeira meio difícil de te explicar agora, outra hora eu conto.

A professora devolveu com um comentário: "Seu estilo é maravilhoso! Não pare nunca de escrever." E, Florinha, o que foi que eu fiz? Mil outras coisas menos escrever. Ou melhor, até escrevi bastante, sempre, afinal é mesmo o meu trabalho, mas não tinha segurança de mostrar para ninguém. E agora estou escrevendo esse diário e deixando público de propósito, para quem quiser ler. E sabe o que mais? Se ninguém ler, se ninguém gostar, não fará nenhuma diferença. Não estou escrevendo para ganhar prêmios ou ver meu talento reconhecido. Por causa dessa pandemia e da angústia que veio junto, estou finalmente conseguindo, apenas, colocar para fora.

O segundo motivo, é ter mesmo perdido o medo do ridículo. Sério. Quando eu era moça, eu demorava duas horas - du-as-ho-ras!- para sair de casa. Pergunta para o seu vovô Otávio. Eu não saia de óculos de casa nem para ir até a padaria, e não estou brincando. Aos poucos, por não ser muito burra, fui percebendo que tanto cuidado não se justificava. Primeiro que eu não era tão linda assim - eu cresci com o meu pai, seu bisavô, dizendo que eu era linda e meiga, que tinha medo de cachorro e de muitas outras coisas. Eu acreditei, e demorei algumas décadas para descobrir que eu nunca fui meiga (sou muito brava), nunca fui medrosa (sou extremamente corajosa, até demais, chega a ser um defeito: sou temerária). Mas só quando já tinha uns 40 anos percebi uma coisa: as pessoas me achavam atraente por causa do meu astral, era totalmente indiferente se eu estivesse de batom e salto alto ou com uma dessas roupas ridículas que eu uso para ficar em casa. É sério, não queira nem me ver agora, com um shorts de corrida dois números maior e uma camiseta velha! Se bem que o que eu mais queria era que você pudesse me ver agora, e eu pudesse te pegar no colo e encostar a sua cabecinha na minha.

Então. A segunda coisa que me fez perder o medo do ridículo foi ter perdido a vaidade. Há uns poucos anos, li um livro chamado O Mito da Beleza. "Mito", no caso, tem zero a ver com esse cara que está dizendo que a covid-19 é só uma gripezinha. Sabe, aquele dos seus livros de história, que podia ter contido o vírus com meia dúzia de mortes (o que já seria péssimo, porque toda vida é importante) mas saiu na rua abraçando as pessoas e disse a elas que deviam ir trabalhar, e daí morreu quase um milhão em poucos meses. Por causa dele, Brasília teve mais casos, proporcionalmente, do que Rio e São Paulo juntas! Dá para acreditar, alguém ser tão estúpido?

Se você acha inacreditável essa minha teoria sobre porque Brasília teve uma explosão de casos, pesquise sobre o desfile da Filadélfia para arrecadar grana para a Primeira Guerra Mundial, em 1918. Tinha 200 mil pessoas no desfile, e em 72 horas os 31 hospitais da cidade estavam lotados com doentes de gripe espanhola. Ao final, 4.500 pessoas morreram, só na Filadélfia, da pandemia daquela época.

O Mito da Beleza foi escrito por uma mulher chamada Naomi Wolf, e acho que nenhuma mulher termina essa leitura indiferente. Nem vou falar muito, porque espero que você leia. Só conto que parei de tingir o cabelo, pintar as unhas e fazer um monte de coisas que no fundo não tinham um motivo válido, mas davam uma trabalheira e gastavam uma grana. E hoje eu até me acho mais bonita, sendo que a cada dia fico mais velha (é uma piada, tá, espero que você entenda. Tem muita gente que não consegue entender a fina ironia dessa frase).

Mas, do corpo e da saúde eu cuido, e muito. Mesmo na quarentena, quando as academias estão fechadas. Eu adoro levantar peso, Flora! Nada me faz sentir mais poderosa do que me perceber forte. Sempre que faço musculação na academia, algum professor para do meu lado e vê se eu preciso de ajuda. Acho que eles pensam "xiiii, essa tia vai arrebentar a coluna e o peso não vai nem sair do lugar". Mas, depois, todos elogiam, dizem que faço agachamento perfeito e tal.

E também adoro correr. Faz me sentir de uma forma difícil de explicar. Mas posso tentar: como quando eu acho que encontrei a frase perfeita. Muitas vezes eu escrevo algo, ou penso em uma campanha criativa, e sinto os pelos do braço ficarem arrepiados. Assim, sei que dei o meu melhor, que mesmo se ficar mais dez horas, um ano, uma vida pensando, não vou atingir um ponto melhor do que aquele. Cheguei no meu máximo. Eu também me sinto assim, realizada e eufórica, quando termino uma boa corrida.

Mesmo confinada, de quarentena, eu aproveito que acordo bem cedo - e que Brasília, que já é, normalmente, uma cidade fantasma, está totalmente deserta durante o isolamento - e saio correndo pelas quadras daqui. Depois, paro em uma estação de ginástica, faço uma série de exercícios que o seu papai me passou, e alongo. Se não fizer isso, minha energia fica estagnada dentro de mim e eu grito com seu avô Carlos, não seguro direito as coisas, as deixo cair ou as quebro, enfim, nem eu me aguento.

Ontem, estava cansada e pouco inpirada. Hoje, fiquei triste mas cheia de ideias, acho até que escrevi demais. Vou parar para não cansar a sua beleza. Por falar nela, Flora, já te disse que você é a menina mais linda que eu já vi na minha vida? Te amo.


Olha aí, você na academia com a vovó

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