sexta-feira, 27 de março de 2020

27 de março - dia 12

Florinha amada, estava te contando ontem sobre o sequestro do tio Mário. A minha avó Regina me contou essa história e eu fiquei perguntando os detalhes. Daí ela virou para mim, me olhou bem no fundo dos olhos e perguntou: "Você quer escrever sobre isso? Quer ser uma escritora, quando crescer?".

Nossa, como eu demorei para crescer, né? Ou, pelo menos, para me sentir madura para escrever e mostrar aos outros, sem medo de críticas. Enfim.

Tem uma menina no Jiu do Projeto Viela, a Duda, que me enxerga como eu quero ser vista, dá para entender? Ela olha para mim e diz: "nossa, como você gosta de ler" e eu vejo que ela está olhando para uma escritora. Porque essa sou eu: a menina esquisita que passava os recreios lendo, a mulher que vai no show do Ratos de Porão e fica lendo um livro no camarim enquanto todos estão conversando. A pessoa que se sente confortável em ser diferente. Ela e a Ká me ensinam os golpes na maior paciência, e eu me sinto totalmente aceita, bem e feliz por ser como eu sou. Isso é muito legal.

Então, voltando, minha vovó Regina me contou toda a história mas não conseguiu explicar direito o que ela sentiu, falou que foi um desespero tão profundo que ela não sabia como descrever. Só encontraram o tio Mário no dia seguinte. Alguém ouviu um choro insistente de um nenê em um porão abandonado, foi ver e descobriu que algumas pessoas em situação de rua (na época chamava mendigos, mas hoje pega mal usar esse termo), que estavam completamente bêbados, haviam pegado ele, acho que para conseguir receber melhores esmolas. Sei que meu tio Mário ficou sem falar até os sete anos de idade.

Tenho pensado muito nesses desconfortos que meus avós passaram, Flora. Outro dia te conto a história do meu tio que fugiu do Gueto de Varsóvia, e do filme que eu vi sobre o gueto, porque são histórias muito tristes, embora meu tio tenha virado um herói em Israel e tenha até estátua dele!

Essas épocas de grandes mudanças, a gente chama de disruptivas. Quando tudo muda, e você passa a ver o mundo de uma forma diferente.

Hoje foi um dia triste. Ontem, já haviam morrido 77 pessoas de Covid-19 no Brasil, 19% a mais do que no dia anterior. Como não estão testando, ninguém sabe quantas pessoas estão infectadas. A FioCruz divulgou que muitas pessoas com sintomas respiratórios apareceram nos serviços nos dias anteriores ao aparecimento formal do coronavírus. Hoje, o número de mortos já chegou a 92, então amanhã já serão mais de 100. Fico muito preocupada e com medo.

Quando você me conhecer melhor, vai descobrir que eu raramente fico ansiona, e quase nunca, deprimida. Mas, esses dias, ando muito angustiada, imaginando as pessoas sozinhas ou passando dificuldades. Então, vou parar de escrever esse diário e ler um pouco. São duas as coisas que me acalmam quando estou agoniada: caminhar e ler. Mas nada se compara ao que eu mais queria estar fazendo agora: brincando com você, conversando com seus pais. Como não posso sair de casa, vou ler um pouco.

Fique bem, amanhã a gente continua. Te amo.

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