quinta-feira, 26 de março de 2020

26 de março - Dia 11

Flora,

Assim como vocês tem avós, que somos a vovó Rose e eu, eu também tinha duas: a vovó Regina e a vovó Queila. Na verdade, a vovó Regina se chamava Ryfka, mas quando veio da Polônia ela escolheu um nome mais fácil para os brasileiros chamarem.

Bom, você tem também a vovó Elisa, né? É que quando eu era criança era mais difícil os casais se separarem, então normalmente cada pessoa só tinha duas avós, mesmo. Acho meio triste pensar que alguns casais não ficam juntos para sempre, mas a parte legal é ter mais vovós e vovôs, né?

Eu queria ser uma avó divertida, que só conta coisas engraçadas, mas esses dias tenho pensado muito em coisas mais profundas. Me peguei lembrando das histórias que a vovó Regina me contou, sobre a época que ela chegou no Brasil. Como a vovó Queila chegou aqui menina, para ela o Brasil era a 'vida normal'. Mas a vovó Regina, não: ela tinha uma vida já toda arrumada em Varsóvia, e de uma hora para a outra viu tudo mudar e teve que se adaptar a outra forma de viver. É sobre isso que vou te falar hoje, aqui no diário.

Vou começar te contando a parte mais picante da história: o meu vovô Inácio era noivo da irmã da sua trisavó! Parece que foi um grande escândalo quando ele trocou de noiva, mas claro que ninguém nunca me contou esses detalhes hehehehe. O que eu sei é que a vovó Regina tinha 8 irmãos, o mais velho chamava Ben, e todos foram para os Estados Unidos. Como ela já estava casada e tinha outro sobrenome (que é o meu, Sendyk), ela não conseguiu os documentos para ir junto com eles.

O meu vovô Inácio, seu trisavô, era de uma família rica de uma cidadezinha perto de Varsóvia, chamada Lodz (parêntesis: fui ver no Google se era assim que se escreve, e descobri que a universidade da cidade está temporariamente fechada, por causa da Covid-19. Então, quer dizer que estamos, de novo, em um momento em que coisas diferentes do normal estão acontecendo). Voltando: naquela época, os judeus dificilmente faziam faculdade ou tinham bons empregos, mas a família do meu avô - a nossa família - era uma exceção: ele era contabilista, um tipo de contador, e trabalhava em um banco em Berlim, na Alemanha.

Talvez por isso, logo depois da Primeira Guerra Mundial, ele sentiu que os ventos não estavam bons para os judeus, e resolveu vir para o Brasil. A irmã dele achou um absurdo, porque ela era super rica e bem conceituada na cidade. Resumindo: quando os nazistas tomaram a Polônia, invadiram a casa dela para transformar a mansão em um quartel general, e a família dela inaugurou o campo de concentração mais próximo. Morreram todos.

Olha só a foto de Lodz que encontrei na internet. É de um site chamado PolishPoland.com


O vovô Inácio - que também tinha um nome original mais polonês, Icek - veio para o Brasil e a minha vovó Regina, que ainda era Ryfka, ficou lá na casa da mãe dele. Ela me contava que a sogra dela era muito rica e muito metida a besta, mas claro que ela falava isso com outras palavras. O que ela me contou, mesmo, é que não se sentia confortável na casa da sogra com os dois filhos que ela tinha na época: a minha tia Salomea, que chegou aqui no Brasil com 7 anos e adotou o nome de Sarita, e o seu tio-bisavô Marek, que era um nenezinho ainda, menor ainda do que você é hoje, enquanto escrevo esse diário.

Um dia, ela foi passear com os dois no parque da cidade, e a tia Sarita pediu uma maça. O meu tio Mário estava dormindo no carrinho, ela se virou para dar a fruta para a sua tia-bisavó e, quando desvirou, o tio Mário tinha desaparecido!

Imagina isso: ela, praticamente sozinha em Varsóvia, com uma sogra 'difícil' e longe dos pais e irmãos dela, em um momento em que os judeus, como ela, enfrentavam sérios problemas com o restante da população. E o bebezinho dela havia simplesmente sumido!

Nossa, Flora, só de pensar nisso sinto um gelo no meu coração, acredita?

Minha neta linda, moreninha de nariz arrebitado e olhos imensos, deixa eu te falar uma coisa. A vovó tá aqui trabalhando de casa e tem que entregar um artigo, urgente, sobre como a pandemia explicita as questões de classe. Espero que no seu hoje, no dia que você está lendo esse texto, não existam mais classes sociais e nem pandemias. Imagino um mundo onde todas as pessoas vivam com o mesmo nível de conforto e não destruam a natureza e muito menos comam carnes exóticas. No fundo, o que eu sonho mesmo é que elas não comam nenhum bicho, seja selvagem ou criado para virar comida. Então, deixa eu acabar aqui por hoje e correr para entregar o meu artigo. Amanhã eu continuo a história do sequestro do tio Mário!

Te amo