terça-feira, 31 de março de 2020

31 de março - dia 16 da quarentena

Florinha, hoje a vovó trabalhou tanto, que não conseguiu parar para escrever nada aqui no diário. Ontem foi um dia tão intenso que dragou parte de minha energia de hoje. Sua vovó Loló está começando uma nova fase (e, desconfio, o mundo também): lançando três projetos literários simultâneos, trabalhando muito, correndo todos os dias, fazendo uma dieta meio 'tolerância zero' para voltar àquela forma pré-menopausa, lendo muito, com muito foco, aproveitando a distância para contraditoriamente, conversar com os amigos. E você, minha netinha, fez alguma descoberta importante, hoje? Pensou em mim?
Fique bem minha netinha amada. Te amo, Flora Benita <3 p="">

segunda-feira, 30 de março de 2020

30 de março - meu aniversário e dia 15 da quarentena

Florinha minha netinha linda,

Hoje é aniversário da vovó! Uma nova etapa de sete anos, segundo a antroposofia, que diz que a vida muda entre um e outro setênio. Mas dessa vez a mudança está meio forte demais, né?

Além de uma pandemia global, algo me diz que teremos, talvez amanhã mesmo, uma reedição do golpe militar que marcou meu nascimento. Veremos. Mesmo distante, comemorei em alto estilo com você batendo palmas enquanto seus pais cantaram parabéns, ganhei beijinho e tchauzinho. Afinal, o que mais uma avó poderia querer? Nada, tá perfeito.


O ponto alto de 2020, até agora, foi o seu aniversário, muito lindo. Não vejo a hora de reencontrar vocês.






domingo, 29 de março de 2020

29 de março - dia 14 da quarentena

Florinha, ontem te falei de um livro, e hoje sai para dar a minha corrida matinal e me deparei com uma cenário que me lembrou um outro: O Ano do Dilúvio, da Margaret Atwood. Com O Conto da Aia ela ficou super na moda, mas na verdade meus amigos sabem que eu já era leitora contumaz dos livros dela, décadas atrás. Li e reli todos, especialmente A Noiva Ladra (umas 4 ou 5 vezes) e esse O Ano do Dilúvio, que é uma distopia - o contrário de utopia, quer dizer, uma imaginação sobre um cenário catastrófico. No livro, que faz parte de uma trilogia, o mundo está quase deserto por causa de doenças causadas por um acidente biológico fabricado por megacorporações, e a resistência vem de um grupo pós-hippie e místico, que usa a sabedoria da natureza para combater a destruição. 

Poucos livros mudam a vida da gente - O Mito da Beleza, que te contei ontem; Comer Animais, que comprei e guardei anos antes de ler, porque sabia que iria mudar a minha visão de mundo, e eu ainda não estava a fim de mudar. Quando li esse livro, que o Jonathan Safran Foer escreveu quando a mulher ficou grávida, foi que parei de comer bichinhos (sim, a vovó também comia, como quase todo mundo fazia, na época). Resolvi ler quando me toquei que a sua bisavó Marília, que parou de comer carne quando tinha uns 17 anos, tá aí tinindo e trincando aos 90 e tantos anos, mostrando que realmente não é preciso se preocupar com as proteínas, como tantas pessoas dizem por ignorância ou má fé.

Então, hoje eu fui correr e passei por vários cachorros em situação de rua, digamos assim. Foi isso o que me lembrou do livro, da distopia. Também, acho que estava abalada porque a Babs morreu, então ontem foram duas pessoas conhecidas próximas minhas, ambas de coronavírus. Daí comecei a ficar inquieta com o silêncio da Sandra, minha amiga, e pedi notícias, acabei descobrindo que a mãe dela está no hospital - não é covid, mas eu fiquei muito triste com a notícia, também. Várias pessoas que eu amo estão sofrendo e, mesmo se eu não fosse tão empática, já seria suficiente para baixar o moral.

Estou escrevendo isso antes de ler os jornais - sua vovó lê todos os jornais possíveis, todos os dias, pela internet. Quando o seu papai foi passar seis meses na Austrália, ela mandava notícias do Brasil para ele todas as manhãs, que para ele eram noite. Essa comunicação entre mãe e filho acabou virando um clipping que os amigos dele pediam para ler, e hoje faz parte da rotina da vovó, que faz uma curadoria de notícias todas as manhãs e manda para dezenas de pessoas. Hoje, estou até com medo de começar porque sei que as próximas semanas serão bastante difíceis para todo mundo.

Ficar seis meses longe do seu papai foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz na vida, ainda mais porque a Austrália era muito longe, não adiantava só resolver e ir- iria demorar um dia inteiro para chegar, na melhor das hipóteses. Hoje, era para eu estar passando o dia com vocês, então estou lembrando de como me senti naquela época. Por mais duro que seja ficar longe, sei que seu pai está bem, com a mulher que ama, a filhota linda e maravilhosa, e a família da sua mamãe, que cuida super bem de vocês, dá carinho e faz comida gostosa (até demais, cada vez que vai aí a vovó volta uns quilinhos mais recheada). Então, mesmo sentindo uma saudades avassaladora de vocês, não vou ficar fazendo drama, e sim imaginando os abraços e beijos que vou dar em todos vocês daqui a uns meses.

Uma vez, quando estava na Austrália, seu pai foi passar alguns dias na Nova Zelândia, e ficou muito, muito doente. Desde que ele nasceu, uma coisa que eu sempre fiz questão era de cuidar dele eu mesma, fosse qual fosse a doença. Mas daquela vez ele estava no outro lado do mundo, Florinha. Eu e o vovô ficamos no mais completo desespero, dá para imaginar? Ele estava tremendo de febre e com calafrios, e não tinha onde passar a noite!

Daí, uma completa desconhecida, que nunca tinha visto ele na vida e não tinha nem a mais remota obrigação, levou ele para casa, comprou remédio e cuidou dele como cuidaria de uma das duas filhas dela. Eu agradeço a ela em pensamento, todos os dias, por isso. Quando as coisas parecem muito difíceis, eu lembro dela e agradeço. Acho que mesmo nesse mundo cruel, tem muita gente como ela, que sai do seu caminho, abre mão do próprio conforto, só para ajudar alguém que ela nem conhece. E que depois que essa maldita pandemia tiver passado, pessoas como a Lila vão continuar existindo, prontas - mas não a reconstruir - a construir um mundo novo, melhor.

sábado, 28 de março de 2020

28 de março - dia 13 da quarentena

Ai, Florinha, hoje a coisa pegou. A mãe da Roberta está no hospital com Covid-19, em estado grave, lutando pela vida. Minha irmã - sua tia-avó Dedé, não pode nem ir até lá para dar um abraço na mulher com quem viveu mais de uma década. É muito triste isso, de chorar muito, mas ao mesmo tempo dá vontade de bater no cara que me disse, essa semana, que é só uma gripezinha.

Como a humanidade conseguiu cavar um buraco tão fundo para si mesma? Um buracão no meio da casa dela, né? Afinal, a gente mora nesse planeta. Porque, Flora, você não vai acreditar, mas quando você era criança as pessoas comiam bichos! Sério. Daí começaram a vir as pandemias, a maioria delas a partir da China, onde os ricos comiam animais criados em cativeiro especialmente para serem mortos e virar alimento. Desculpe eu te contar isso, mas você precisa saber. Frutas, legumes, vegetais, essas coisas que você chama de alimento, eram trocadas por pedaços de bichos esquartejados - e tinha gente que adorava as partes com gordura, pingando sangue. Que nojo!

A gripe suína veio do México, aliás, o que para mim é espantoso: lá, eles têm batatas, abacates, pimentas, feijões e milhos incríveis, tanto é que seu pai é absolutamente fanático por comida mexicana 100% vegetal.

Mas na China tinha muito mais gente pobre do que gente rica (outra coisa que mudou desde que você era bebezinha, ainda bem!) e os pobres comiam bichinhos que vinham do mato, animais selvagens. Os ricos, comiam animais de tudo quanto é jeito: selvagens e criados para virarem bifes. Nossa, juro que estou constrangida de te contar essas coisas. Mas preciso continuar. Mesmo os ricos comiam frangos, que ficavam presos em gaiolas minúsculas, muitos em cada cela - aliás, gaiola - uns em cima dos outros. Tanto é que as pessoas que faziam isso cortavam os bicos e as garras deles para eles não matarem os companheiros ou eles mesmos. Como uma gaiola ficava sobre a outra, o cocô e o xixi dos de cima caia nos de baixo, e foi assim que apareceu a gripe aviária.

Seu pai teve suspeita de gripe aviária. Com tanta coisa que já me aconteceu na vida, e mesmo não sabendo se foi mesmo essa doença que ele teve ou não, sempre lembro desse dia como o pior dia de toda a minha vida. Nunca senti tanto medo, tanta impotência, sem ter nada que pudesse fazer. Sofri tanto, o dia inteiro, que a lembrança da sensação nunca passou completamente.

Depois da aviária, teve a suína (antes, a da vaca louca), e agora a Covid-19, todas causadas por um vírus que vivia em paz dentro de um bichinho, chamado Pangolim, que vivia solto na mata. Alguém capturou o bichinho e levou ele para vender no mercado de bichos vivos - sim, Flora, a maioria dos mercados era de bichos já mortos e retalhados, acredita? - e os vírus que viviam nele passaram para as pessoas, e dentro das pessoas ele faz coisas terríveis como parar a respiração, e aí elas morrem afogadas. Parece uma história de terror, sem final feliz, né?

Bom, o que a gente pode fazer para melhorar essa história? Em primeiro lugar, não comer bichos, é claro. Depois, usar esse tempo presos em casa para produzir coisas boas, planejar um futuro melhor. Criar novas histórias, essas sim com finais felizes. Eu, por exemplo, estou aproveitando bem meu tempo. Tocando três projetos literários. Trabalhando mais do que o normal, escrevendo textos ótimos para os clientes. Bem, na verdade, textos que eu acho que estão ótimos, certo?

Mas é justamente aí que eu queria chegar. A minha vida toda eu escrevi, mas não achava que nada ficava bom o suficiente para mostrar aos outros. E, nos últimos anos, não sei bem o que aconteceu: ou o meu texto melhorou, ou eu perdi o senso de ridículo hehehehehehehe. Sério, acho que aconteceram as duas coisas. Vou te explicar:

Há mais de dez anos, eu fiz um curso rápido de escrita criativa com uma escritora muito boa que é também professora de literatura e escreve críticas de livros. A minha intenção ao fazer esse curso não era aprender a escrever, mas sim mostrar algo que eu tivesse escrito para uma crítica literária, para descobrir se eu tinha futuro ou era péssima e devia parar de ter ilusões e ir fazer outra coisa. O primeiro conto que eu escrevi no curso se chamava A Marquesa Saiu às Cinco Horas - uma brincadeira meio difícil de te explicar agora, outra hora eu conto.

A professora devolveu com um comentário: "Seu estilo é maravilhoso! Não pare nunca de escrever." E, Florinha, o que foi que eu fiz? Mil outras coisas menos escrever. Ou melhor, até escrevi bastante, sempre, afinal é mesmo o meu trabalho, mas não tinha segurança de mostrar para ninguém. E agora estou escrevendo esse diário e deixando público de propósito, para quem quiser ler. E sabe o que mais? Se ninguém ler, se ninguém gostar, não fará nenhuma diferença. Não estou escrevendo para ganhar prêmios ou ver meu talento reconhecido. Por causa dessa pandemia e da angústia que veio junto, estou finalmente conseguindo, apenas, colocar para fora.

O segundo motivo, é ter mesmo perdido o medo do ridículo. Sério. Quando eu era moça, eu demorava duas horas - du-as-ho-ras!- para sair de casa. Pergunta para o seu vovô Otávio. Eu não saia de óculos de casa nem para ir até a padaria, e não estou brincando. Aos poucos, por não ser muito burra, fui percebendo que tanto cuidado não se justificava. Primeiro que eu não era tão linda assim - eu cresci com o meu pai, seu bisavô, dizendo que eu era linda e meiga, que tinha medo de cachorro e de muitas outras coisas. Eu acreditei, e demorei algumas décadas para descobrir que eu nunca fui meiga (sou muito brava), nunca fui medrosa (sou extremamente corajosa, até demais, chega a ser um defeito: sou temerária). Mas só quando já tinha uns 40 anos percebi uma coisa: as pessoas me achavam atraente por causa do meu astral, era totalmente indiferente se eu estivesse de batom e salto alto ou com uma dessas roupas ridículas que eu uso para ficar em casa. É sério, não queira nem me ver agora, com um shorts de corrida dois números maior e uma camiseta velha! Se bem que o que eu mais queria era que você pudesse me ver agora, e eu pudesse te pegar no colo e encostar a sua cabecinha na minha.

Então. A segunda coisa que me fez perder o medo do ridículo foi ter perdido a vaidade. Há uns poucos anos, li um livro chamado O Mito da Beleza. "Mito", no caso, tem zero a ver com esse cara que está dizendo que a covid-19 é só uma gripezinha. Sabe, aquele dos seus livros de história, que podia ter contido o vírus com meia dúzia de mortes (o que já seria péssimo, porque toda vida é importante) mas saiu na rua abraçando as pessoas e disse a elas que deviam ir trabalhar, e daí morreu quase um milhão em poucos meses. Por causa dele, Brasília teve mais casos, proporcionalmente, do que Rio e São Paulo juntas! Dá para acreditar, alguém ser tão estúpido?

Se você acha inacreditável essa minha teoria sobre porque Brasília teve uma explosão de casos, pesquise sobre o desfile da Filadélfia para arrecadar grana para a Primeira Guerra Mundial, em 1918. Tinha 200 mil pessoas no desfile, e em 72 horas os 31 hospitais da cidade estavam lotados com doentes de gripe espanhola. Ao final, 4.500 pessoas morreram, só na Filadélfia, da pandemia daquela época.

O Mito da Beleza foi escrito por uma mulher chamada Naomi Wolf, e acho que nenhuma mulher termina essa leitura indiferente. Nem vou falar muito, porque espero que você leia. Só conto que parei de tingir o cabelo, pintar as unhas e fazer um monte de coisas que no fundo não tinham um motivo válido, mas davam uma trabalheira e gastavam uma grana. E hoje eu até me acho mais bonita, sendo que a cada dia fico mais velha (é uma piada, tá, espero que você entenda. Tem muita gente que não consegue entender a fina ironia dessa frase).

Mas, do corpo e da saúde eu cuido, e muito. Mesmo na quarentena, quando as academias estão fechadas. Eu adoro levantar peso, Flora! Nada me faz sentir mais poderosa do que me perceber forte. Sempre que faço musculação na academia, algum professor para do meu lado e vê se eu preciso de ajuda. Acho que eles pensam "xiiii, essa tia vai arrebentar a coluna e o peso não vai nem sair do lugar". Mas, depois, todos elogiam, dizem que faço agachamento perfeito e tal.

E também adoro correr. Faz me sentir de uma forma difícil de explicar. Mas posso tentar: como quando eu acho que encontrei a frase perfeita. Muitas vezes eu escrevo algo, ou penso em uma campanha criativa, e sinto os pelos do braço ficarem arrepiados. Assim, sei que dei o meu melhor, que mesmo se ficar mais dez horas, um ano, uma vida pensando, não vou atingir um ponto melhor do que aquele. Cheguei no meu máximo. Eu também me sinto assim, realizada e eufórica, quando termino uma boa corrida.

Mesmo confinada, de quarentena, eu aproveito que acordo bem cedo - e que Brasília, que já é, normalmente, uma cidade fantasma, está totalmente deserta durante o isolamento - e saio correndo pelas quadras daqui. Depois, paro em uma estação de ginástica, faço uma série de exercícios que o seu papai me passou, e alongo. Se não fizer isso, minha energia fica estagnada dentro de mim e eu grito com seu avô Carlos, não seguro direito as coisas, as deixo cair ou as quebro, enfim, nem eu me aguento.

Ontem, estava cansada e pouco inpirada. Hoje, fiquei triste mas cheia de ideias, acho até que escrevi demais. Vou parar para não cansar a sua beleza. Por falar nela, Flora, já te disse que você é a menina mais linda que eu já vi na minha vida? Te amo.


Olha aí, você na academia com a vovó

sexta-feira, 27 de março de 2020

27 de março - dia 12

Florinha amada, estava te contando ontem sobre o sequestro do tio Mário. A minha avó Regina me contou essa história e eu fiquei perguntando os detalhes. Daí ela virou para mim, me olhou bem no fundo dos olhos e perguntou: "Você quer escrever sobre isso? Quer ser uma escritora, quando crescer?".

Nossa, como eu demorei para crescer, né? Ou, pelo menos, para me sentir madura para escrever e mostrar aos outros, sem medo de críticas. Enfim.

Tem uma menina no Jiu do Projeto Viela, a Duda, que me enxerga como eu quero ser vista, dá para entender? Ela olha para mim e diz: "nossa, como você gosta de ler" e eu vejo que ela está olhando para uma escritora. Porque essa sou eu: a menina esquisita que passava os recreios lendo, a mulher que vai no show do Ratos de Porão e fica lendo um livro no camarim enquanto todos estão conversando. A pessoa que se sente confortável em ser diferente. Ela e a Ká me ensinam os golpes na maior paciência, e eu me sinto totalmente aceita, bem e feliz por ser como eu sou. Isso é muito legal.

Então, voltando, minha vovó Regina me contou toda a história mas não conseguiu explicar direito o que ela sentiu, falou que foi um desespero tão profundo que ela não sabia como descrever. Só encontraram o tio Mário no dia seguinte. Alguém ouviu um choro insistente de um nenê em um porão abandonado, foi ver e descobriu que algumas pessoas em situação de rua (na época chamava mendigos, mas hoje pega mal usar esse termo), que estavam completamente bêbados, haviam pegado ele, acho que para conseguir receber melhores esmolas. Sei que meu tio Mário ficou sem falar até os sete anos de idade.

Tenho pensado muito nesses desconfortos que meus avós passaram, Flora. Outro dia te conto a história do meu tio que fugiu do Gueto de Varsóvia, e do filme que eu vi sobre o gueto, porque são histórias muito tristes, embora meu tio tenha virado um herói em Israel e tenha até estátua dele!

Essas épocas de grandes mudanças, a gente chama de disruptivas. Quando tudo muda, e você passa a ver o mundo de uma forma diferente.

Hoje foi um dia triste. Ontem, já haviam morrido 77 pessoas de Covid-19 no Brasil, 19% a mais do que no dia anterior. Como não estão testando, ninguém sabe quantas pessoas estão infectadas. A FioCruz divulgou que muitas pessoas com sintomas respiratórios apareceram nos serviços nos dias anteriores ao aparecimento formal do coronavírus. Hoje, o número de mortos já chegou a 92, então amanhã já serão mais de 100. Fico muito preocupada e com medo.

Quando você me conhecer melhor, vai descobrir que eu raramente fico ansiona, e quase nunca, deprimida. Mas, esses dias, ando muito angustiada, imaginando as pessoas sozinhas ou passando dificuldades. Então, vou parar de escrever esse diário e ler um pouco. São duas as coisas que me acalmam quando estou agoniada: caminhar e ler. Mas nada se compara ao que eu mais queria estar fazendo agora: brincando com você, conversando com seus pais. Como não posso sair de casa, vou ler um pouco.

Fique bem, amanhã a gente continua. Te amo.

quinta-feira, 26 de março de 2020

26 de março - Dia 11

Flora,

Assim como vocês tem avós, que somos a vovó Rose e eu, eu também tinha duas: a vovó Regina e a vovó Queila. Na verdade, a vovó Regina se chamava Ryfka, mas quando veio da Polônia ela escolheu um nome mais fácil para os brasileiros chamarem.

Bom, você tem também a vovó Elisa, né? É que quando eu era criança era mais difícil os casais se separarem, então normalmente cada pessoa só tinha duas avós, mesmo. Acho meio triste pensar que alguns casais não ficam juntos para sempre, mas a parte legal é ter mais vovós e vovôs, né?

Eu queria ser uma avó divertida, que só conta coisas engraçadas, mas esses dias tenho pensado muito em coisas mais profundas. Me peguei lembrando das histórias que a vovó Regina me contou, sobre a época que ela chegou no Brasil. Como a vovó Queila chegou aqui menina, para ela o Brasil era a 'vida normal'. Mas a vovó Regina, não: ela tinha uma vida já toda arrumada em Varsóvia, e de uma hora para a outra viu tudo mudar e teve que se adaptar a outra forma de viver. É sobre isso que vou te falar hoje, aqui no diário.

Vou começar te contando a parte mais picante da história: o meu vovô Inácio era noivo da irmã da sua trisavó! Parece que foi um grande escândalo quando ele trocou de noiva, mas claro que ninguém nunca me contou esses detalhes hehehehe. O que eu sei é que a vovó Regina tinha 8 irmãos, o mais velho chamava Ben, e todos foram para os Estados Unidos. Como ela já estava casada e tinha outro sobrenome (que é o meu, Sendyk), ela não conseguiu os documentos para ir junto com eles.

O meu vovô Inácio, seu trisavô, era de uma família rica de uma cidadezinha perto de Varsóvia, chamada Lodz (parêntesis: fui ver no Google se era assim que se escreve, e descobri que a universidade da cidade está temporariamente fechada, por causa da Covid-19. Então, quer dizer que estamos, de novo, em um momento em que coisas diferentes do normal estão acontecendo). Voltando: naquela época, os judeus dificilmente faziam faculdade ou tinham bons empregos, mas a família do meu avô - a nossa família - era uma exceção: ele era contabilista, um tipo de contador, e trabalhava em um banco em Berlim, na Alemanha.

Talvez por isso, logo depois da Primeira Guerra Mundial, ele sentiu que os ventos não estavam bons para os judeus, e resolveu vir para o Brasil. A irmã dele achou um absurdo, porque ela era super rica e bem conceituada na cidade. Resumindo: quando os nazistas tomaram a Polônia, invadiram a casa dela para transformar a mansão em um quartel general, e a família dela inaugurou o campo de concentração mais próximo. Morreram todos.

Olha só a foto de Lodz que encontrei na internet. É de um site chamado PolishPoland.com


O vovô Inácio - que também tinha um nome original mais polonês, Icek - veio para o Brasil e a minha vovó Regina, que ainda era Ryfka, ficou lá na casa da mãe dele. Ela me contava que a sogra dela era muito rica e muito metida a besta, mas claro que ela falava isso com outras palavras. O que ela me contou, mesmo, é que não se sentia confortável na casa da sogra com os dois filhos que ela tinha na época: a minha tia Salomea, que chegou aqui no Brasil com 7 anos e adotou o nome de Sarita, e o seu tio-bisavô Marek, que era um nenezinho ainda, menor ainda do que você é hoje, enquanto escrevo esse diário.

Um dia, ela foi passear com os dois no parque da cidade, e a tia Sarita pediu uma maça. O meu tio Mário estava dormindo no carrinho, ela se virou para dar a fruta para a sua tia-bisavó e, quando desvirou, o tio Mário tinha desaparecido!

Imagina isso: ela, praticamente sozinha em Varsóvia, com uma sogra 'difícil' e longe dos pais e irmãos dela, em um momento em que os judeus, como ela, enfrentavam sérios problemas com o restante da população. E o bebezinho dela havia simplesmente sumido!

Nossa, Flora, só de pensar nisso sinto um gelo no meu coração, acredita?

Minha neta linda, moreninha de nariz arrebitado e olhos imensos, deixa eu te falar uma coisa. A vovó tá aqui trabalhando de casa e tem que entregar um artigo, urgente, sobre como a pandemia explicita as questões de classe. Espero que no seu hoje, no dia que você está lendo esse texto, não existam mais classes sociais e nem pandemias. Imagino um mundo onde todas as pessoas vivam com o mesmo nível de conforto e não destruam a natureza e muito menos comam carnes exóticas. No fundo, o que eu sonho mesmo é que elas não comam nenhum bicho, seja selvagem ou criado para virar comida. Então, deixa eu acabar aqui por hoje e correr para entregar o meu artigo. Amanhã eu continuo a história do sequestro do tio Mário!

Te amo

quarta-feira, 25 de março de 2020

Um diário do ano da pandemia

25 de março de 2020 - 10 dias de quarentena 

Eu sempre achei que a fase mais bonita da vida de uma pessoa é quando ela começa a dar os primeiros passos. Quando cheguei em São Paulo nessa última visita, Flora, você já estava passeando desenvolta pela casa toda! Quinze dias antes, você dava apenas alguns passos e caia. Fazia uma cara terrível, de choro, que durava nem um minuto, e já se levantava e voltava a andar. Em atitudes suas, como essa, é que vou aprendendo a te conhecer.

Mas agora, Florinha, já se passou quase um mês - na verdade, se não fosse essa maldita pandemia, eu estaria nesse exato momento voando para te encontrar. São 15h07, e meu vôo estava marcado para chegar em Congonhas às 13h40. Neste momento eu estaria saindo do aeroporto para encontrar as pessoas que mais amo no mundo.

Ao invés disso, estou aqui lendo aflita as milhões de notícias por hora que aparecem nos jornais. E lembrando de você, dessa última visita que foi tão maravilhosa.

Tem umas coisas entre nós que ninguém mais sabe, nem mesmo seu pai. Dói muito no peito quando eu penso que, agora, só eu é que sei delas, você é uma bebezinha e já esqueceu, certamente. Não lembra que, das duas últimas vezes que me viu, você (demorou muitos minutos para me reconhecer, eu sei, mas depois) lembrou da brincadeira que fizemos enquanto seu pai dormia na visita anterior, olhou bem nos meus olhos e fez um 'Ó' enorme com a boquinha, e bateu palmas. É uma cara que você só faz para mim, e significa: conseguimos encaixar a peça no lugar exato, que bom, palmas para nós.

Quando você ler isso, Flora, vai parecer uma fantasia da vovó, mas não é, não. Sei disso porque eu também achava que era, e fiz vários testes até tirar a dúvida. Mas, se fosse, só tenho a dizer: se non é vero, é ben trovato. Também é realidade que você às vezes interrompe a brincadeira, apanha a sua boneca preferida, que na verdade é uma macaca, e fica brincando sozinha, fazendo ela andar. Não sei se sua mamãe fazia isso, quando nenê, de passar uns momentos brincando sozinha, no mundinho dela. Mas seu papai, esse fazia, e é muito algo que ele puxou de mim.

Mas a parte mais deliciosa, eu ainda não cheguei nela. De vez em quando, você se achega e encosta a carinha na minha, só isso. Gruda a testinha na minha bochecha e fica. E eu quero morrer de tanta alegria. Também, algumas vezes, na visita anterior, você tombava, porque ainda tinha que se concentrar para permanecer sentada - hahahahahaha - quando se distraía, perdia o equilíbrio e caia para a frente. Eu fazia uma massagem nas suas costas e você ficava lá, esquecida de se aprumar. Seu pai também sempre adorou um carinho nas costas!

O que eu mais queria da vida, Florinha - depois de ser mãe, claro - era ser avó. E nenhuma neta poderia ser mais perfeita do que você. Mesmo agora, sofrendo de saudades, eu tenho que me concentrar em não dramatizar, não me fazer de vítima, por mais que seja um sofrimento agudo estar longe de você. Vou ficar meses longe de você, meses sem ver seu pai! Mas, o que me tira o sono várias vezes, de madrugada, é pensar nas outras crianças da favela, nas que não estão lá porque os pais escolheram participar de um projeto para mudar a comunidade mas, sim, porque os pais são as pessoas da comunidade, mesmo.

Sinto uma angústia absurda em pensar que elas já são desprotegidas naturalmente, e os tempos que estão chegando são ainda mais absurdamente cruéis. Então, minhas energias ficam voltadas para desejar com todas as minhas forças que elas fiquem bem. E quanto a você, apenas quero que fique bem, também. Nada do que temos entre nós será perdido. Vai desaparecer, claro que vai, mas nós duas vamos reconstruir esse comecinho de relacionamento e construir nossos momentos no futuro.

A outra idade mais bonita da vida, Florinha, é quando a criança começa a escrever. Essa é a minha opinião. O Gael está aqui na sala ao lado, descobrindo uma camada do mundo, como você faz ao andar. O que para você é liberdade de se locomover, e de falar as primeiras palavras - da última vez que te vi, você falou bola, banana, água - ele está descobrindo que é possível escrever uma história; inventar um mundo novo enquanto registra palavras em uma folha de papel.

E eu, também. Estou na idade em que é possível inventar novos formatos de construir novas realidades. No meu caso, esta idade é hoje, uma semana antes de completar 56 anos - quando, diga-se de passagem, era para eu passar o dia inteiro com você e retornar a Brasília só de noite. E aqui estou eu, escrevendo o nosso futuro. Eu acho mesmo, Flora Benita, que essa pandemia é uma vingança da natureza pelo modo terrível que a humanidade a tem tratado, consumindo tudo; madeira, águas, bichos, plantas, sempre querendo ter mais e mais. E também acredito que esse momento será um divisor de águas da nossa época. Que a sua geração será mais sábia, não destrutiva como a minha e não superficial como a dos seus pais - evidente que eles não são, mas boa parte das pessoas da idade deles, são, porque é a tônica deste tempo. Acho que, agora, elas terão que mudar.

Quando você escrever o futuro, Flora, eu quero estar ao seu lado. E se não acreditasse nisso, que estarei, hoje seria um dia ainda mais difícil do que já está sendo.

segunda-feira, 2 de março de 2020

AS VIELAS DO BUIU


O PROJETO VIELA

O Jardim São Luís é como qualquer outra favela: um amontoado de ruazinhas. E, como sempre acontece em vias estreitas, toma-se um caminho sem a certeza do que vai encontrar mais adiante. Pode ser uma pedra, uma pessoa querida, um beco sem saída. Lá, no extremo da zona sul de São Paulo, você pode entrar pela avenida, virar em uma rua mais larga e desembocar numa viela. Lá, vai encontrar crianças estudando, jogando futebol, praticando jiu-jitsu, tendo aula de inglês, teatro ou gastronomia, reforço escolar ou apenas conversando. E, também, vai encontrar o Buiu, o fundador do Projeto Viela.



O BUIU 

Lá no passado não tão distante, Anderson Verdiano Agostinho pegou o caminho errado. Ficou viciado em drogas, perdeu amigos, pediu dinheiro, se meteu em confusão. Claramente, era um beco sem saída: o Buiu tinha tudo para acabar como tantos outros, em um país onde quem nasce pobre, negro, filho de alcóolatra e favelado já começa devendo posições no jogo da vida. Quem visita o Projeto Viela (sim, isso é um convite), entretanto, só pode se surpreender. Ela não apenas venceu os obstáculos à sobrevivência como transformou tudo à sua volta. 


AS VIELAS DO BUIU 

Está na hora de contar a história do Buiu. Um livro inspirador, capaz de ´furar bolhas´ e espalhar boas ideias – em um formato inovador: inspirado nO Jogo da Amarelinha (Julio Cortázar) pode ser lido em várias direções: de trás para frente, apresenta pessoas que transformaram – ou foram transformadas - pelo projeto; ´normal´, conta a trajetória do Buiu; nas outras dimensões apresenta as narrativas das crianças. Como se você, também, estivesse escolhendo por qual viela prosseguir.
O projeto é multimídia, transmídia e multiplataforma. E aberto, por ter a descarada ambição de influenciar pessoas.
Desde um site com múltiplas possibilidades – como um game em que cada escolha leva à uma continuação diferente, até palestras presenciais em que o Buiu pode apontar um caminho a crianças em situação de fragilidade ou mostrar a pessoas privilegiadas de todas as idades que elas também podem fazer a diferença. Contar para adolescentes dos perigos da drogadição e apontar um caminho para que sejam superados.

IMÃS

Duas irmãs que atraem, como um campo magnético, histórias que merecem ser contadas e as transformam, a quatro mãos, em leituras inspiradoras. Luciana e Andrea Sendyk e mais um time capaz de programar, desenhar, construir e produzir, vão espalhar a história do Buiu. Personagem que já atrai, por si só, bastante mídia espontânea (faça uma busca e descubra) ele vai ganhar uma mãozinha de uma dupla dinâmica especializada em comunicação e que trabalha, juntas e separadas, com internet antes dos brasileiros saberem o significado da palavra.

E você, vai dar uma mão?

VOCÊ NAS VIELAS

Estamos escrevendo a história do Buiu e entrevistando as pessoas que tocaram, tangenciaram ou transformaram o projeto. Agora, precisamos de uma força para contar para todo mundo. Podem ser sugestões, indicações de uma empresa que queira colocar sua marca em um local admirável, críticas e, até mesmo, elogios. Podem ser direcionamentos, como algumas pessoas já estão fazendo. Você pode comprar um livro antes mesmo do lançamento, ou pode comprar um lote e distribuir gratuitamente para algum grupo de pessoas que você acha que merece a leitura.
Pode bancar uma palestra, pode compartilhar na sua rede de contatos reais e reais.
Comprar uma cota de patrocínio? Ligue já!
Pode, inclusive, dizer que não tem interesse em participar. Mas, se você leu até aqui, a gente acha altamente improvável que você queira fazer isso.
De qualquer forma, se leu até aqui a gente já tem algo a te dizer: muito obrigada!