segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PORQUENÃO?


Eu começo a minha colaboração no PorQueNão? contando que sou "mais velha". Participar de um coletivo formado por jovens envolve dois riscos: um é querer parecer jovial e fingir ter a idade da galera, o que é ineficaz e patético. O outro é querer dar uma de sábia da montanha, estilo "meninos, eu vi". Antes de cair em alguma das tentações, melhor eu confessar logo: aos 52 anos, só sei que nada sei. Para cada resposta que encontrei, surgiram duas novas perguntas. 

Perdão! Desculpe eu dizer isso assim, sei que seria muito mais legal falar que um belo dia, depois de 50 anos de incertezas, a gente acorda e pronto, sabe tudo. Agora é só relaxar e viver no conforto. Meninas, meninos, meninxs: zona de conforto é o túmulo. Até chegar lá, além de batalhar para manter esta data longe, há que se esforçar dia e noite para conhecer e melhorar. Só o que posso dizer é que ao longo de mais de meio século eu errei muito. E, como não me deixei abater por ter errado tanto, aprendi a errar melhor. O consolo é que ao errar tantas vezes, perde-se o medo de errar e portanto ganha-se coragem. Ela, a coragem, é o motor da vida, não tem como desbravar o mundo e se acomodar ao mesmo tempo. E por falar em tempo:

A passagem do tempo é uma coisa muito louca. 

Eu era menina quando apareceu a TV a cores, e foi uma revolução. Minha mãe, que nasceu 22 anos antes de mim, foi a primeira do bairro a ter geladeira em casa. Na época, meu avô reuniu a garotada para dizer que a brincadeira mais óbvia (se esconder dentro do refrigerador, que era grande como um armário) não era permitida. O motivo é que muitas crianças norte-americanas desapareceram, na época, e foram encontradas mortas, dias mais tarde, trancadas pelo lado de dentro das geladeiras. Notem: dias depois - isso porque as pessoas não guardavam nada, na prática, dentro das geladeiras, visto que não existiam supermercados e os vendedores - leiteiros, padeiros, verdureiros - passavam anunciando suas mercadorias em charretes. A comida vinha direto ao seu lar, era só prestar atenção no sininho. Detalhe: a casa da minha mãe era na avenida Paulista. 

O ponto aqui é: meu avô chamou as crianças para explicar que a geladeira não abria pelo lado de dentro porque reunir as pessoas, formar uma roda e conversar era o único jeito de espalhar as novidades. Os jornais impressos no estrangeiro demoravam dias, ou semanas, sei lá, para chegar aqui. O noticiário filmado era aquele que passava antes da sessão, nos cinemas. E havia o rádio, que era a forma mais veloz de difusão de informações, mas suponho que mais voltada para os adultos. A infância ainda não tinha entrado na moda naquela época, e a adolescência então, nem se fala.

Parece outra vida, né? Mas não tem nem 70 anos, sequer o tempo de ameaçar piscar os olhos, considerando em uma perspectiva da jornada humana sobre a terra. A velocidade da difusão da notícia mudou de uma forma espantosa. Em 6 de julho deste ano de 2016, praticamente ninguém tinha ouvido falar de Pokémon Go. Em 12 de julho de 2016, o aplicativo havia sido baixado por mais de 20 milhões de pessoas. As mudanças que demoravam 70 anos para se consolidar, hoje não levam 7 dias. Mas um resfriado, ou ferida, ou coração partido, continuam demorando mais de uma semana para passar. 

Enfim, a medida da vida é o tempo. Quantos anos você tem? A quantas horas está esperando? Quanto tempo vai demorar para chegar lá? Como eu disse no começo, não posso cair na tentação de ficar passando conselho. Mas, quem resiste a um bom clichê? O tempo voa. Um dia desses você vai acordar e vai ter 52 anos (Juro! Pode acreditar!) E para onde foi todo esse tempo? Não desperdice, aproveite cada segundo, dez minutos gastos ouvindo uma bobagem qualquer (ou caçando Pokémons) podem ser o bem mais precioso de todos, lá no (breve) futuro. 



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