quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A GRANDE CRISE

Deus ajuda a quem cedo madruga. Esse ditado já era moda quando a palavra meritocracia ainda nem estava na moda, mas ficava apenas implícita representando que se alguém era pobre (e a maioria era, sempre foi em todos os momentos históricos em que uns trabalhavam para garantir que outros não precisassem trabalhar) a causa era sua preguiça, natural indolência e hábito de dormir até mais tarde. Embora, obviamente, os escravos dos faraós acordassem muito antes dos reis do Egito ou de qualquer outra época. 

A agenda de quem está no poder pode ter ficado mais ou menos maleável em diferentes épocas, mas vendo daqui de hoje parece correto afirmar que o Deus Dinheiro está mais em voga do que nunca - afinal, o grande lance hoje é a auto mercantilização, basta acessar a internet e ver quantos cursos ensinam você a se promover, ganhar dinheiro vendendo algo vago e impreciso (como fazem os youtubers, as irmãs Kardashian, musas fit do Instagram, celebridades diversas e gurus de autoajuda) isso para nem falar de igrejas formatadas "para vencedores" nas quais o dízimo e as rezas visam o sucesso pessoal e pedidos sem apelo como solidariedade e a boa e velha paz mundial não têm vez.

Será que a vitória do Trump, a escalada do Bolsonaro e o golpe (hoje todo mundo já fala que foi golpe, né?) que tirou uma eleita e colocou o "decorativo" embora feio Temer no lugar podem fazer parte de uma mesma agenda?

O tempo, para o Deus Dinheiro, não é o mesmo tempo das plantações. Ou da gravidez. Há uma agenda econômica e política a cumprir, o que explica desde os agrotóxicos até o fim do estado de bem estar social e suas 'frescuras' (planos de saúde, previdência e direitos trabalhistas). Quer ficar rico? Seja um empreendedor! Confie na meritocracia, pare de se queixar e vá trabalhar. 

Mas qual a graça de estar na área VIP da festa se todos podem estar lá?

A ascenção da classe média no Brasil popularizou o termo "andar de baixo" quando este começou a subir - mas será que tem lugar para todo mundo no andar de cima? 

Neste sentido, EUA e Brasil são muito diferentes.

Uma grande diferença - e aqui, pelamordedeus, entendam que ha imensa dose de ironia - no Brasil o andar de baixo é claramente diferente dos daqui do alto, pois não sabem falar direito e têm a pele escura. podem até fazer faculdade financiada pelo FIES mas não sabem se comportar bem em público e segurar os talheres direito. Mesmo assim, a até então chamada classe média ficou incomodada em compartilhar os bancos do avião e os espaços "públicos" nos aeroportos com essa gente que até parece o porteiro do … não, pera, aquele NAO É o porteiro do meu prédio??? Enfim, quando o grande barato é ostentar riqueza, é mais do que necessário que tenha para quem mostrar seus gadgets novos e demais artigos de luxo.

Quando alguém é assaltado à luz do dia por um bandido meliante vagabundo que rouba seu relógio de ouro, relógio esse que custa o mesmo que uma família de quatro pessoas gasta para viver confortavelmente por mais de um ano, há algo errado acontecendo e não, esse algo errado não é apenas a violência urbana ou a falta de polícia na rua.

Na Finlândia as mães saem da maternidade com uma caixa de papelão com o enxoval fornecido pelo estado, as chamadas caixas de bebê, que viram o bercinho de TODOS os bebês finlandeses nos primeiros meses de vida. Se uma escandinava quiser ostentar e exibir um berço de ouro, não vai nem cair bem, vai mostrar que é louca e não que tem mais dinheiro.

Já nos EUA e na Europa, a classe média baixa olha, apavorada, imigrantes dispostos a madrugar e arregaçar as mangas em subempregos, embora fosses médicos, advogados e engenheiros bem sucedidos nos seus países de origem. Os norteamericanos, afinal, estão acostumados a conviver com os "white trash", os brancos pobres que perderam suas casas na grande recessão, o crash bancário de 1929. Mas, peraí, isso não soa familiar? Em 2008 houve outra grande crise dos bancos e, olha só, os banqueiros ficaram mais ricos de lá para cá. Mas o número de famílias que perdeu suas casas aumentou e muito. 


Será tudo uma grande coincidência? 

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

PORQUENÃO?


Eu começo a minha colaboração no PorQueNão? contando que sou "mais velha". Participar de um coletivo formado por jovens envolve dois riscos: um é querer parecer jovial e fingir ter a idade da galera, o que é ineficaz e patético. O outro é querer dar uma de sábia da montanha, estilo "meninos, eu vi". Antes de cair em alguma das tentações, melhor eu confessar logo: aos 52 anos, só sei que nada sei. Para cada resposta que encontrei, surgiram duas novas perguntas. 

Perdão! Desculpe eu dizer isso assim, sei que seria muito mais legal falar que um belo dia, depois de 50 anos de incertezas, a gente acorda e pronto, sabe tudo. Agora é só relaxar e viver no conforto. Meninas, meninos, meninxs: zona de conforto é o túmulo. Até chegar lá, além de batalhar para manter esta data longe, há que se esforçar dia e noite para conhecer e melhorar. Só o que posso dizer é que ao longo de mais de meio século eu errei muito. E, como não me deixei abater por ter errado tanto, aprendi a errar melhor. O consolo é que ao errar tantas vezes, perde-se o medo de errar e portanto ganha-se coragem. Ela, a coragem, é o motor da vida, não tem como desbravar o mundo e se acomodar ao mesmo tempo. E por falar em tempo:

A passagem do tempo é uma coisa muito louca. 

Eu era menina quando apareceu a TV a cores, e foi uma revolução. Minha mãe, que nasceu 22 anos antes de mim, foi a primeira do bairro a ter geladeira em casa. Na época, meu avô reuniu a garotada para dizer que a brincadeira mais óbvia (se esconder dentro do refrigerador, que era grande como um armário) não era permitida. O motivo é que muitas crianças norte-americanas desapareceram, na época, e foram encontradas mortas, dias mais tarde, trancadas pelo lado de dentro das geladeiras. Notem: dias depois - isso porque as pessoas não guardavam nada, na prática, dentro das geladeiras, visto que não existiam supermercados e os vendedores - leiteiros, padeiros, verdureiros - passavam anunciando suas mercadorias em charretes. A comida vinha direto ao seu lar, era só prestar atenção no sininho. Detalhe: a casa da minha mãe era na avenida Paulista. 

O ponto aqui é: meu avô chamou as crianças para explicar que a geladeira não abria pelo lado de dentro porque reunir as pessoas, formar uma roda e conversar era o único jeito de espalhar as novidades. Os jornais impressos no estrangeiro demoravam dias, ou semanas, sei lá, para chegar aqui. O noticiário filmado era aquele que passava antes da sessão, nos cinemas. E havia o rádio, que era a forma mais veloz de difusão de informações, mas suponho que mais voltada para os adultos. A infância ainda não tinha entrado na moda naquela época, e a adolescência então, nem se fala.

Parece outra vida, né? Mas não tem nem 70 anos, sequer o tempo de ameaçar piscar os olhos, considerando em uma perspectiva da jornada humana sobre a terra. A velocidade da difusão da notícia mudou de uma forma espantosa. Em 6 de julho deste ano de 2016, praticamente ninguém tinha ouvido falar de Pokémon Go. Em 12 de julho de 2016, o aplicativo havia sido baixado por mais de 20 milhões de pessoas. As mudanças que demoravam 70 anos para se consolidar, hoje não levam 7 dias. Mas um resfriado, ou ferida, ou coração partido, continuam demorando mais de uma semana para passar. 

Enfim, a medida da vida é o tempo. Quantos anos você tem? A quantas horas está esperando? Quanto tempo vai demorar para chegar lá? Como eu disse no começo, não posso cair na tentação de ficar passando conselho. Mas, quem resiste a um bom clichê? O tempo voa. Um dia desses você vai acordar e vai ter 52 anos (Juro! Pode acreditar!) E para onde foi todo esse tempo? Não desperdice, aproveite cada segundo, dez minutos gastos ouvindo uma bobagem qualquer (ou caçando Pokémons) podem ser o bem mais precioso de todos, lá no (breve) futuro.