segunda-feira, 21 de junho de 2021

21 de junho de 21

 Flora, amora

Te perguntei o que você acho do livro e, ao invés de responder, você me olhou boquiaberta. Aí eu entendi o que seu pai quis dizer quando perguntei, a ele, o que você tinha achado do livro; "ela não acreditou, ficou olhando com a boquinha aberta. Depois, começou a gritar 'eu e a gogó! sou eu e a gogó' e assistiu a live brigando comigo, cada vez que eu falava 'é a minha mãe' ela batia no peito e dizia 'é a minha gogó' e está folheando o livro até agora". 

A sua reação derrubou a minha notícia. Ia começar contando, toda feliz, que finalmente tenho um livro publicado e distribuído, que as pessoas estão lendo e comentando comigo sobre o que acharam. Você não tem palavras para dizer o que achou, e por isso ficou me olhando boquiaberta. E eu, na verdade, também não tenho palavras para descrever isso. A sua reação foi mais importante do que o fato de eu ter escrito e publicado o livro.

Bem, já estou escrevendo o próximo. E talvez ele te deixe de boquinha aberta por muito tempo. 

Você nem conversou mais comigo nessa ligação! Ficou virando as páginas do livro, demorando em algumas e comentando "papai" "mamãe" "olha eu aqui"; eu, só via o alto da sua cabecinha cacheada e a capa do livro aberta, na minha frente. Parecia a sua gogó e seu eterno refúgio nos livros. Sendo que esse, o meu, o nosso, eu ainda nem segurei nas minhas mãos porque estou "longe", como você sempre diz. O livro nem é mais meu, é de quem está lendo e se vendo nele: você, seus pais, as crianças do projeto, o Buiu, a comunidade. E mais: um empresário comprou 50 exemplares e distribuiu para pessoas que nunca vi na vida; outro que tem uma gráfica vai fazer uma nova impressão para distribuir, também.

A grande notícia é o que você fala. Para mim, é o que mais importa. Papai me ligou para a gente conversar um final de tarde na semana passada, estava frio, você agasalhada e cansada, vai saber de quais agitações na escola. Nem quis falar comigo, fiquei triste a princípio mas logo comecei a fazer gracinhas para lutar contra o seu mau humor. Contei que tomei vacina e em duas semanas a gente vai se ver, e que daí eu vou te dar um presente. Seus olhos de jabuticaba logo se iluminaram e você disse simplesmente: "boneca que fala".

Claro que a gogó não iria esperar duas semanas para te dar uma boneca que fala que já estava na sua mente, afinal não precisou pensar um minuto em qual presente gostaria de ganhar. Inclusive eu falei que ia te dar a boneca e você já completou: "e um bichinho", então quando desligamos eu dei um google e já comprei a boneca para você receber o quanto antes. 

Dias depois nos falamos de novo e você traduziu as diversas falas da boneca, quando ela disse "quero a minha mamãe" você me explicou "ela quer a mamãe dela" e quando ela disse "estou com sono" você me contou "ela está com sono". Perguntou ao seu papai onde será a caminha dela, e quando ele disse que você é a mamãe dela ficou revoltada, porque na verdade ela é a sua amiga que fala, não sua filha.

Melhor do que tudo isso - mesmo em um país soterrado por meio milhão de mortos (número subestimado), desgovernado por um genocida tão sádico quanto lunático, racismo imperando e fome voltando, mesmo com tudo isso acontecendo - é saber que eu vou te ver em breve. A gogó não vai mais ficar longe e, maior das ambições, nunca mais irá ficar tanto tempo longe da netinha. Foram 5 meses, de novo, como na primeira onda da pandemia. E ainda tem gente que é contra a vacina. 



sexta-feira, 7 de maio de 2021

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quinta-feira, 11 de março de 2021

Um ano, ontem

Curioso que eu havia falado sobre a minha vonta de ´passar pelos buraquinhos do telefone´ e te encontrar, e ontem você falou ´gogó, sai daí, vem aqui´, pedindo para eu ultrapassar a barreira do vídeo e me materializar para dentro do seu quarto. 

Mas, essa barreira do vídeo é ao menos o que permite que eu te veja, e vice-versa. Você, para não se esquecer de mim (embora eu tenha muito medo que você ache que eu não estou brincando fisicamente com você, te abraçando de verdade, porque não quero); eu, porque posso te ver, ouvir, entender o quanto você está crescendo.

Você já fala frases completas, que qualquer pessoas pode entender, e começam com uma palavra nova e muito importante: ´eu não quero suco, papai´. Bom, terminam com uma palavra muito importante, também!

Ontem você mostrou que ganhou uma tatoo de coração, que a professora fez com canetinha vermelha na sua mãozinha, eu te mostrei a minha, de estrela cigana, no dedão, igual à do seu pai. Você falou ´é uma estrela´ e mostrou, sozinha, que seu pai tem outra estrela tatuada no braço, pegou e beijou a dele - que é uma rosa dos ventos.

Essa rosa dos ventos, Florinha, indica que mesmo em tempos turbulentos (amanhã escrevo sobre as reviravoltas políticas da semana, misturadas à essa profunda e imensa crise sanitária, tá?) e nós em uma localização geográfica diferente, estamos todos no mesmo desenho. Cada parte do desenho aponta em uma direção, mas a gente se encontra no centro. Eu queria mesmo era estar na mesma sala dessa tatto, onde estão o que me interessa, você, seu papai. 

Não vejo a hora de encontrar vocês. Te amo, Florinha

terça-feira, 9 de março de 2021

Amanhã fará um ano

Minha querida Flora Benita, a netinha amada

Ontem falamos por vídeo seu papai e eu, você estava de boas, na sua, e não quis conversar. hahahhahaha como pode? Você é uma nenenzinha e já cheia de postura e vontade. Ficou no seu joguinho e só deu um oi e disse para seu papai, quando ele ofereceu mamão: "eu não quero". Assim, com todas as letras, a poucos dias você falava sílabas e a gente tinha que completar. 

Fiquei com pena, ontem. Seu papai está sentindo, com toda a razão, que nada contra a corrente, aquele esforço tremendo para ir para a frente e as ondas empurrando para o começo, o empenho todo fica em não voltar ainda mais para trás do que estava. E isso é triste, é difícil, mesmo a gente sabendo que não pode reclamar (muito) quando nos comparamos com a maior parte das pessoas. Estamos sobrevivendo, e isso é ótimo. Mas o sentido da vida não é a mera sobrevivência.

Toda manhã eu escuto duas mulheres conversando, acho que trabalham na casa de uma vizinha e o som entra pelo cobogó da lavanderia aqui de casa. Já ia escrever: área de serviço! Olha só: aí no primeiro parágrafo, eu pensei em dizer: "fiquei com vontade de entrar pelos buraquinhos do telefone e te apertar", como se dizia ´antigamente´. Mas percebi que a imagem do bocal do telefone, com buraquinhos por onde a gente falava, ficou perdida lá no passado. E até essa ideia de te apertar é antiga, hoje os adultos não determinam o grau de aperto na netinha, depende do humor e da vontade dela. Enfim, área de serviço é um termo que ficou até mais ultrapassado. Quem faz o serviço de lavanderia aqui é a mesma pessoa que senta no computador ao lado, que fica no ´quarto de empregada', ambos locais onde quem trabalha orgulhosamente é a gogó.

Ao lado da sua gogó tem uma lousa colada na parede, presente de sua mamãe. Nela, estão escritas as tarefas e os nomes dos clientes. Na parte superior estão anotadas ideias, e uma delas chama Raízes para a Flora, que é como chamo o livro que anda querendo nascer da minha cabeça para fora. Está anotado ´vovó Queila´ que é um lembrete de que quero te contar sobre a minha gogó, algum dia que estiver sem pensamento sobre o que escrever aqui no diário. Só que eu sento para escrever e tem uma ideia já querendo sair e chegar até você nessa garrafa que estou lançando ao mar para você ler no futuro, né, e também para seu papai ler nas próximas horas (espero).

Mas o que eu ia contar é que essas mulheres em algum dos apartamentos vizinhos - não sei se é o de lado, o de baixo - conversam todos os dias exatamente às seis horas da manhã, Certamente é o horário da troca de turno, acho que elas são as cuidadoras de uma senhora, pelo que entendo. E elas só falam de comida. Acho isso tão pequeno que me enerva. Porque o alimento é a estratégia da sobrevivência, não adianta muito comer para permanecer vivo para poder comer. E a maior parte das pessoas fala sobre comida a maior parte do tempo. Domingo, elas estavam trocando ideias sobre alguém, fofocando, para falar bem a verdade. O sentido da existência não é fofocar, é claro, mas já melhorou bastante em relação a falar só de comida. 

Eu queria muito abraçar seu pai e contar para ele que as coisas vão melhorar e ele vai sentir a vida voltar a andar para a frente. Que períodos difíceis acabam por ganhar o nome de ´experiência´ e passam a fazer sentido mais lá na frente. Que a personalidade da gente é forjada, também, nesses tempos que passamos ´ouvindo o barulho do relógio´, para usar uma expressão mais velha ainda do que essas anteriores que eu citei. Ao contrário desse clichê "vai passar", isso tudo não vai passar - vai moldar a nossa história, o futuro de vocês. Nós, vocês, seu papai, somos privilegiados que não apenas sobrevivemos (o que já é um grande privilégio) mas também refletimos, aprendemos com as experiências.

Amanhã, fará um ano que eu saí daí da casa embaixo da sua em direção ao aeroporto, pensando que em duas semanas estaria de volta, e fiquei cinco meses sem te ver. Dessas coisas difíceis de entender e mais ainda de aceitar, mas que farão parte da nossa história, também. Cabe a nós fazer a leitura que quisermos e pudermos fazer. Mas, te confesso, sabe o que eu gostaria mesmo de fazer? Passar pelo buraquinho de minhoca do tempo/espaço e chegar aí, perto das pessoas que eu mais amo nesse mundo, apertar muito vocês, falar o quanto vocês são importantes para mim. 

sexta-feira, 5 de março de 2021

5 de março, 30 anos

Há exatos 30 anos, eu acordei com uma imensa dor na barriga. Percebi que em breve iria receber visitas e lembrei que o sofá continuava rasgado, à espera de um minuto (ou 20, né?) de dedicação. Peguei linha vermelha e agulha e lá me fui costurar o rasgão, tarefa que, além de infrutífera pois obviamente ele logo iria continuar a sua trajetória de destruição tecidual, não poderia ser descrita como a mais adequada para o momento. Afinal, o nascimento já estava 5 dias atrasado em relação à data estimada e a bolsa tinha estourado, eu costurava e sentia escorrer um líquido morno que, logo descobri, estava se tornando verde.

Sim, eu sei. Mas essa é a gogó. Prioriza manter a calma à entrar em pânico, mesmo ouvindo a urgência se aproximando. Quando enfim acordei o gogô o dia já ameaçava amanhecer e ele me deu a maior bronca, com razão, porque já havia trânsito para chegar ao hospital. 

Mas, enfim, chegamos por volta de 6h, 7h da manhã e seu papai esperou até depois das 13h para nascer. Também, tava tão bom ele dentro de mim que nenhum de nós tinha pressa. Essa, você só vai entender o dia que tiver, você mesma, um nenezinho dentro da sua barriga: o sentimento de completude.

Até às 13h gogó ficou em trabalho de parto, tentando ter um parto natural, mas o dr. José avisou que o nenê iria "entrar em sofrimento", isto é, começar a engolir mecônio (o tal líquido verde da bolsa amniótica que havia estourado). Daí, gogó desistiu e encarou uma cesárea. 

O dr. José foi o médico que havia ajudado a sua bisavó a ficar grávida, porque ela demorou um ano depois de casada, algo que na época era considerado um problemão e hoje é visto como uma grande piada. Quando a gogó nasceu, ruiva dos cabelos vermelhos, ele brincou "essa é minha filha" e todos riram. Quando seu papai nasceu, com longos fios vermelhos - parecia uma cebola, mas como eu escrevi a ele em um desses cartões de aniversários dos últimos 30 anos, era a cebola mais linda que eu já tinha visto na vida - o dr. José falou: "nasceu meu neto" e todos choraram.

Desde então, foram 30 anos em que a palavra chorar mudou de significado. 

Há exatas três décadas o meu mundo mudou. Ganhou a cor certa, a trilha sonora perfeita. E bota "som" nisso. Seu papai chegou gritando a plenos pulmões, exigindo desde o primeiro segundo que o mundo ficasse melhor. 

Sorte do mundo, sorte minha, sorte sua, Florinha. Seu papai é uma das pessoas que fazem diferença, incomodam, provocam mudança. Você puxou o gênio forte, já vi, né? Também, teve a quem puxar porque vocês aí, os dos Santos D´Elia, são dos bravos. 

Florinha, dá um abraço apertado no seu papai, um beijo demorado, mostra para ele o amor que eu sinto mas que hoje só consigo mandar de longe. Diz que a gogó tá chorando de saudades.

Dan, feliz aniversário, parabéns por hoje e por tudo, Te amo muito, viu?



quinta-feira, 4 de março de 2021

Quase um ano

Flora, são 2h19 da madrugada e não consigo voltar a dormir. Lembrando de um ano atrás, quando cheguei em São Paulo e subi para a sua casa, estava tendo uma festinha. Aniversário do seu papai. Abri a porta e tinha uma menininha - sim, você - de casaco de tricô branco, você era tão pequenininha! Estava com a Juju, amiga do seu pai desde criança, eu te abracei tão forte. Você saiu correndo, a última vez que eu tinha te visto ainda andava vacilante. Mas não fazia mal porque logo eu ia te ver de novo, e de novo, de novo. Mas aí começou a pandemia e eu fiquei sem te ver por cinco meses. Você cresceu e aprendeu um monte de coisas e eu tava longe. E agora, está começando outro lockdown e não sei quando eu vou te ver de novo. Seu pai falou que agora você não tem mais memória de peixe (hahahaha) e ele tem razão. Que você olha a minha foto na geladeira e fala "a gogó". Que ele vai ligar pelo vídeo do celular - a gente não conversa, mas sim brinca juntas. Só que mesmo assim tá doendo e eu não consigo voltar a dormir.

Porque você tinha uns fiozinhos na cabeça e agora tem uma cabeleira toda cacheada, e eu te amo tanto e queria te ver crescendo todos os dias e não só de vez em quando.

O importante é que fiquem bem, que nós fiquemos bem. Eu sei disso.

Eu te amo, viu?

*******

Flora, amada da gogó

Acho que muito da minha insônia de hoje, e da inquietude dos últimos tempos, vem de perceber que a pandemia não ficou sendo uma fase, nem mesmo um ano ruim, mas um período mais longo que nem temos a previsão de quanto tempo vai durar. 

Março, para mim, é um mês de inícios. Foi o mês em que eu nasci, o mês em que me tornei mãe, E acho que esse março veio com uma frustração imensa da incerteza quanto ao futuro. Em março de 2019 você era uma nenezinha e eu voltei a morar em São Paulo; em 2020, março foi o mês em que começamos a quarentena; e esse março de 2021, sabe-se lá. Recomeçamos a quarentena, os hospitais estão lotados, o sistema de saúde colapsado. 

Preciso de um projeto. Por causa disso, resolvi começar finalmente a escrever. Esse blog vai ganhar um novo formato, virar um livro, Raízes para Flora. E vou também finalmente levar a sério o meu projeto literário. Assim, depois desse período terei algo concretizado. E, durante o tempo de reclusão, ao menos tenho um norte. O que eu queria mesmo era estar aí com você, penso nisso todos os dias. E preciso transformar essa frustração em ação, em algo concreto, real, de verdade. 

Não é bem isso que eu queria estar vivendo agora, mas é o que temos para o momento. E não devemos reclamar, afinal estamos vivos, bem, com saúde e até mesmo trabalhando, em um período tão difícil para todos. 

Penso em vocês o tempo todo, e essa foto mostra bem isso, de maneira simbólica e concreta como carregar um saco de 5 quilos.

Te amo

Gogó



domingo, 14 de fevereiro de 2021

Domingo, 14 de fevereiro de 2021

 Sua avó vai fazer 57 anos no próximo mês. Mas, alguns dos momentos mais ricos, inesquecíveis, desses anos todos, aconteceram nessa semana que passou. 

Uma vez, eu disse na terapia que, mesmo tendo vivido 27 anos antes do seu pai nascer, para mim não mais existia um mundo antes dele. E isso se repete com você, agora. 

Eu queria que você lesse isso aqui e percebesse que, aos dois anos, era a menina mais encantadora do mundo. Uma menininha de olhos imensos, um sorriso lindo, a carinha morena toda rodeada de cachinhos, o nariz arrebitadinho sempre pronto a se franzir na gargalhada. Uma criança com uma energia inacreditável, que adora dançar, correr, pular, se esconder, cada dia uma brincadeira nova. Mas que, também, dá um abraço apertado na gogó e fica um tempão com as bochechas coladas recebendo beijinhos (seu pai não pode saber disso, tá?)

Como de hábito, fomos comer a nossa pizza vegana. E estava tão bom que poucos dias depois - eu já tinha ido embora, sob seus protestos e ouvindo você chorar chamando a gogó - seus pais resolveram fazer pizza em casa. Seu pai perguntou: "Quem vai comer pizza hoje???" e você respondeu "a gogó".

Eu queria muito, sabia? Gostaria imensamente de estar aí com você, ou ao menos mais perto, ao alcance de vocês em algumas poucas horas. Mas estou a vários estados de distância, de coração apertado de tantas saudades. Vivendo e pensando na próxima vez que vou ver vocês. 


A verdade é que ficar longe de vocês é um sofrimento. Saí com você chorando e chamando "Gogó, fica 'qui, gogó!" e tudo o que eu queria era obedecer. Sinto muita falta de você e do seu papai. Antes de ir embora, a gente - ele e eu - havia ido a um shopping comprar um edredon novo para a sua mamãe. Foi uma furada atrás da outra: não havia UMA mísera opção vegana para comermos, gastamos uma grana desnecessária para comer umas 2 mil calorias vazias e gordurosas, e ainda senti fome na volta, no avião; o uber que chamamos parou na avenida errada; um sistema de táxi bloqueou o celular do papai; demoramos horas para conseguir voltar para casa. E, mesmo assim, foi uma tarde inesquecível.

Adoro a companhia de vocês e o que eu mais queria era poder desfrutar mais, sem entretanto atrapalhar. Minha meta é encontrar esse equilíbrio e as condições materiais de fazê-lo.

Te amo, netinha Florinha



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

2 de fevereiro de 2021

Flora, minha amora

Sua gogó anda falhando bem em escrever, nota-se. Mas não em pensar em você e curtir a netinha, seja por chamada de vídeo ou pessoalmente. Semana passada, você viu uma foto minha e falou para o seu papai: "A gogó! Qué gogó!". Daí ele me ligou e você: estendeu a mão para encostar na minha através da tela do celular, me mostrou a pipa no céu, os piu-pius, a piscina, o croc novo (igual ao meu! lilás), e saiu pulando com ele. Você adora pular! No seu aniversário, você usou o pula-pula alugado como a gogó fazia com as pistas de dança: entrou às 15h e só saiu às 19h, e mesmo assim porque tinha acabado a festa, não estava nada cansada. Você não ficou apenas brincando nele mas, literalmente, pulando. Curioso que as outras crianças tinham o dobro da sua idade - 4 anos - mas você não ligou a mínima para isso, ficou nada intimidada. 

Você é uma graça. Tem a personalidade forte, nada tímida, e adora esportes. Pular, bola, correr. Que bom que agora você voltou para a escolinha e está aproveitando tanto, ontem seu papai mandou fotos de você jogando bola na quadra com as suas amiguinhas, e eu só fiquei aqui imaginando a sua alegria.

Deixa eu te contar uma história: eu era sempre a última a ser escolhida para os times - ou a penúltima, quando a minha prima Adriana era a capitã. Uma vez, na escolinha de esportes do time (que minha mãe me obrigava a frequentar, cheguei a explodir alguns termômetros os aproximando do abajour para que esquentassem e ela achasse que eu estava com febre), a escolha dos times era numa quadra enorme e ao final só estava eu, sentadinha de pernas cruzadas, e mais uns pernas de pau como eu. Daí um cara desceu lá da arquibancada - meu pai - me pegou pela mão e me tirou daquela situação vexaminosa e, de quebra, da escolinha de esportes. 

Na escola, eu conseguia convencer os professores a ser "coringa", só entrava nos times se faltasse alguém. Eu só era boa em queimada, porque minha única habilidade era fugir da bola hahahahahaha. Mas fazia balé, na adolescência fiz aulas de tênis e, quem diria, hoje adoro atividades físicas - desde que solitárias, porque tenho trauma de afundar os times, né?

Pensa que eu era muuuuito míope e só descobri aos 9 anos! E daí, já quase não enxergava nada. Uma tarde,  fomos - seu bisavó, sua bisavó, seus tios-avôs e eu - 'ver avião subir', um típico programa de paulista. E o meu pai falou: olha o avião! E eu: onde? Ele ficou super irritado comigo, que já estava passando por uma frase de sofrimento: olhava a lousa na escola e não entendia nada, mas todo mundo entendia, e eu não sabia o que estava acontecendo. Eu achava que o mundo era daquele jeito, não sabia que eu é que não estava enxergando direito. 

Até um dia que a minha mãe pediu para eu ler o nome de uma rua na placa e eu: que placa? Ela na hora puxou o freio de mão e virou para trás: você não está mesmo vendo que tem uma placa? E, finalmente, percebemos todos que eu precisava usar óculos. Sua gogó tem 10 graus em uma lente e 8 na outra, nesses óculos que você adorava por os seus dedinhos - agora, aos 2 anos e inteligente como é, já entendeu que não é algo que a gogó aprecie muito.

Enfim, a bola entrava no meu campo de visão apenas quando já estava tão perto que só me restava desviar correndo - razão das minhas únicas medalhas serem de queimada. Imagina mergulhar em uma piscina, então. Mas, hoje, tenho tantas medalhas de corrida que não as guardo mais. E treino kettlebell sport graças ao seu papai. E levanto mais peso do que muitos rapazes: sempre que eu ia fazer um agachamento livre na academia, um professor logo colava ao meu lado com medo de que eu não fosse capaz de fazer com todo aquele peso. Mas eu sou, é claro.

Essa autoconfiança demorou para surgir, porque imagine só: uma vez, na escola, todas as crianças tinham que pular por sobre uma corda esticada e um menino disse: essa não vai conseguir. Eu fiquei tão triste! Mas fui lá e pulei, e ele: é, até que conseguiu. Aconteceu o mesmo em uma prova de corrida, anos depois, e eu me senti muito depreciada. Era uma corrida curta, de velocidade. E a verdade é que não sou rápida mesmo, até hoje, mas completo uma meia maratona no meu ritmo, feliz da vida. 

Mas a questão é que eu fazia o meu melhor, que em termos esportivos podia ser menos do que eles eram capazes. Mas em termos pessoais, eles deixavam bastante a desejar e, vai saber, hoje eu até que estou melhor do que a maior parte da minha geração em termos físicos (e continuo sendo uma boa pessoa). 

Até mesmo uma professora, que deveria incentivar as crianças, uma vez me disse: vou te dar a medalha porque seu time venceu, mas você não mereceu. Flora, me conta: como uma professora olha nos olhos de uma criança e fala isso? Uma professora! É por isso que estou te contando essas histórias todas: porque seus pais são professores de esportes e você é uma esportista nata. Mas vocês três são também sábios, estudiosos - quando você ouve a gente falando a palavra livro vai para o seu quarto e logo volta com vários dos seus livrinhos para conversar sobre eles, também. Ahhhhh que menina mais fofa e perfeita que você é!

Gogó tá morrendo de saudades. Mas vai aguentar viva, porque daqui a exatamente uma semana vou para aí te encontrar. Te amo, netinha linda e agitada. 





quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

31 de dezembro de 2020

 

Essa é a minha foto de final de ano, uma linda menina emburrada de jeans, fivelinha, camiseta que a gogó deu e tênis all star vermelho de cano alto que a gogó deu e não aparece na foto. Ao lado, o nenê da gogó, o papai amado. Noite de Natal, festa na casa da outra gogó, certeza que você melhorou de humor e se divertiu muito.

Por falar em humor, sabe que pensei em uma coisa engraçada esses dias? Você sabe que a gogó foi coautora de uma peça de teatro muito divertida? Atreva-se foi um sucesso, ficou dois anos em cartaz e eu queria muito que ainda estivesse, por inúmeros motivos. E, às vezes, eu vejo em você esse lampejo de atrevimento e genialidade que é o humor. Como no dia que a gente fez comida e você me enganava nas pegadinhas, quando eu falava "hummm, bom", você: "não, gogó, ruim", daí eu cuspia e você ria muito. Franzia toda a sua carinha linda com um ar de "te peguei". Seu outro presentinho da gogó foi um jogo de panelas de inox, que nem de adulto, por causa dessa nossa brincadeira ótima. Você na cozinha de compensado que sua mamãe deu gritando "pita!" foi um dos vários bons momentos que tivemos juntas nesse ano que está acabando.

Eu te amo, Florinha. Esse 2020 que foi tão cruel com a maioria só me trouxe uma coisa ruim: ficar menos perto fisicamente de vocês do que eu gostaria, especialmente passar 5 meses sem te ver. Mas a proximidade que eu sinto de você compensa tudo, até mesmo isso. Esses dias a gente falou por chamada de vídeo e você me estendeu a mão, lembrei de quando eu seguro a sua mãozinha gordinha e coloco o meu dedão bem no meio da sua palma. De verdade é melhor, mas pelo menos temos a tecnologia, né?

Não posso ser insensível em um ano que foi tão duro para o Brasil e o mundo, mas a verdade é que para mim foi suave. Trabalhei muito - nota-se pela falta de frequência em escrever aqui no diário -, terminei o livro sobre o Buiu (no gongo, mandei os originais para ele hoje), treinei bastante. E, se te vi pouco, compensei a quantidade com a qualidade de nosso amor e de um relacionamento que promete ser muito próximo e especial.

Feliz 2021 para a gente, Florinha, meu plano principal para o ano que vai começar é o mesmo que para toda a vida: ver esse amor florescendo.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

7 de dezembro

Florinha, amorzinha da gogó

Hoje minha mãe, sua bisavó, faria 78 anos de vida e eles, meus pais, 60 anos de casados. Ela casou com apenas 18 anos, quer dizer, no dia em que completou 18 anos. Só por isso já dá para ver como as coisas mudaram!

O que será que eles sentiriam vendo você fazendo sua performance de humor, fingindo pavor ao ver uma bruxa - ou um dinossauro, tanto faz - levando as mãos à cabeça e gritando como em filme de terror? Que engraçadinha você, Flora, onde já se viu uma nenê com senso de humor. 

Estou morrendo de saudades. 

Te amo