sábado, 1 de agosto de 2020

Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Dia 2 de agosto - dia 140 da quarentena

Contagem regressiva para encontrar netinha: faltam 8 dias.

Florinha, por causa do seu pai esse período de quarentena foi extremamente profícuo: tenho lido várias coisas de teoria que ele me indicou. Todas, bem revolucionárias. Embora a gente discorde em alguns temas (eu gosto do termo necropolítica, ele não etc.) tem uma inversão interessante: ele é que me orienta. Ele é o meu professor, o estudioso. Ele que dá indicações de leituras complementares e tira dúvidas. Nessas, tenho devorado vários tomos de teoria, tomos entre aspas, porque leio tudo no meu ebook amado. Até agora me definia como ecossocialista, mas o que eu lia mesmo não passava muito de feministas (O Mito da Beleza, da Naomi Woolf, talvez meu livro preferido; e muitos outros, das clássicas às da novíssima geração, no estilo “Nós somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” - ou seja, você é a neta da neta. Nossa que parênteses longo.); pensadores da internet livre que surgiram junto com a própria mídia, lembrando que eu sou da primeira geração, comecei a trabalhar em uma empresa digital quando ninguém nem tinha e-mail; filósofos da saúde, como Foucault e Susan Sontag (porque sua vovó é sanitarista) e esses que "todo mundo" lê, todo mundo entre duplas aspas: Naomi Klein, Noam Chonsky, Rebecca Solnit, Zizek, vários outros. Enfim, os mais populares. Falando assim parece que lia muito, mas na verdade eu leio mil vezes mais literatura do que teoria.

Conheci o seu vovô Otávio em um curso de marxismo, ele era o professor. Agora, graças ao professor da nova geração (mais conhecido como papai) tenho adorado conhecer Fanon, Losurdo, vários revolucionários, até Ho Chi Minh meu mestre tá me apresentando! Como eu leio só pelo conhecimento mesmo, sem a menor preocupação de sistematizar ou explicar para alguém, é um enorme prazer. O prazer da descoberta, que espero e confio que você abrace, também.

Te amo! Prepara as bochechinhas que daqui a uma semana vovó estará aí com vocês.


Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Florinha, sabe quem vai aí na sua casa daqui a 9 dias? A gogó! Nossa, não tenho palavras para descrever como nem vejo a hora de te encontrar. Fico lembrando das nossas brincadeiras e imaginando você, com esses olhos imensos de jabuticaba; tentando lembrar do seu cheiro e da sua voz. 
Quero te ver assim, bem descontraída, você mesma.
Prepare-se!



quarta-feira, 29 de julho de 2020

Dia 29 de julho - dia 136 da quarentena


Flora amada da vovó, hoje é uma data triste; motivo pelo qual essa postagem tem que ser meio triste, também. Motivo pelo qual ela só será postada amanhã, aliás: não quero ninguém imaginando que vá acontecer algo de ruim hoje (além de tudo que já está ocorrendo,né?)

É o nono dia do mês Av (Tisha B´Av) no calendário hebraico. Segue a explicação:

A data de destruição do primeiro grande templo ocorre no mesmo dia, quase setecentos anos antes, que a destruição do segundo templo. O mesmo dia em que Bar Kochba derrotado, institucionaliza o eterno exílio judaico. Não o exílio da autodeterminação, mas o exílio de que nos falam estas coincidências. Pois nessa data, os judeus foram expulsos da Inglaterra e também da Espanha, o maior trauma medieval judaico. Data que inicia pogroms, data em que se inicia a Primeira Guerra Mundial e um destino macabro ao judaísmo do século XX. Data do lançamento da primeira bomba atômica sobre seres humanos. Data de muitas outras coisas, coisas que talvez só você saiba*.

Data desconectada do calendário solar e lunar, um dia qualquer. Seu símbolo não é a tristeza ou o medo da noite, mas o desespero do meio-dia do sol que racha o solo, o sol que se parece, infinitamente se parece com todos os outros sóis de todos os outros infindáveis dias. Momento de saudades, de aperto, de angústia, não do escuro, facilmente desmentido pela luz, mas da própria luz que não parece conduzir a lugar algum, este lugar onde não queremos ir - todos. É a falta. A falta assimilada.

Delicioso desespero que a tradição judaica transformou em ironia, a mesma que nos esclarece que "se não fossem pelas lágrimas não perceberíamos o desagregar-se das cores no arco-íris". Depressão que não é down, que é saudade das sombras que o sol a pique nos sabe roubar. Dia de jejum, de sentir o gosto de si mesmo - saliva repleta de gostos nunca mais sentidos, de uma infância questionável, de um futuro incerto.

Tal qual a água sob certas condições é gelo ou ar, assim é a alma - sob certas condições de luminosidade, é exílio.

Os judeus aprenderam a pintar seus séculos com este tom da alma humana, sua história ajudou. E, tal qual os cálculos indicavam, o fim do poço é o fim, não passa daí. Pois neste dia de acontecimentos fatídicos, de expulsão, de saudades do exílio, neste mesmo dia nascerá o Messias - não - exilado.

Perguntar-se-á alguém menos familiarizado: "Precisa ser tão cinzenta esta tradição?" Ela não é - Promove arco-íris. 
(parte do texto que recebi por e-mail da Congregação Judaica do Brasil)

*nessa data do calendário judaico, em 2003, morreu a minha mãe.

Sua bisavó, Florinha. Depois disso, muita coisa aconteceu: seu pai cresceu (ele tinha só 12 anos naquela época). Conheceu sua mãe, casou, teve a filha mais linda do mundo. Minha netinha.

É, a vida continua. Mesmo em quarentena, longe de você, ainda bem que a vida continua. 

Adivinha quem é essa nenê? Sua vovó Loló, por enquanto mais conhecida como Gó. Essa foto foi tirada no Guarujá, praia onde sua gogó praticamente cresceu, em 8 de março de 1965; faltavam três semanas para eu completar um aninho, portanto.

Te amo

quarta-feira, 22 de julho de 2020

22 de julho - dia 129 da quarentena

Nossa, Florinha, acordei 2h30 da manhã e não consegui mais dormir, levantei, fiz chá de erva-cidreira (lembrei do meu pai), comi duas maças, li muitas páginas do Não Basta Dizer Não (da Naomi Klein). Desassossego total, super preocupada porque seu papai me contou que tem vários casos de covid aí, bem pertinho de vocês, na vizinhança.

A verdade, netinha, amada, é que tá uma bagunça danada - como diria o seu outro bisavô, que adorava usar umas palavras das antigas como danada e camarada. Eu entrevistei uma pessoa muito sábia em saúde, esses dias, uma mulher que é especialista no SUS. Nosso Sistema Único de Saúde é o maior do mundo, sabia? Espero que no momento em que você está lendo isso, ele ainda exista, seja robusto, forte, universal. Enfim. Comentei com ela que eu, mesmo sendo sanitarista, ando lendo o jornal e não entendendo nada. Ela fez um silêncio respeitoso, certamente pensando 'coitada', mas aí eu expliquei e ela concordou comigo: as notícias são tão desencontradas que eu leio tudo e não chego a nenhuma conclusão.

Os casos estão aumentando, ou diminuindo? Chegamos no topo? Na verdade, ficamos estacionados em um platô, só que ele é altíssimo. A situação é péssima, mas ao mesmo tempo as pessoas não aguentam mais ficar em casa com tudo abrindo, dá uma sensação de ser o último crente do mundo. Foi o que eu falei para o seu pai: que tinha que continuar em quarentena, que voltar à vida normal era coisa de negacionista (peguei pesado, eu sei, depois pedi desculpas). E ele me respondeu: mas, mãe, já abriu tudo. E eu entendi, mas fiquei uma noite em claro, sem dormir, como essa de ontem para hoje. Só que essa foi pior ainda.

Em resumo, o que eu desejo é que vocês fiquem bem e saudáveis, só isso. Quero muitas coisas boas para os brasileiros, as pessoas do mundo todo, a humanidade, mas no final das contas só o que me interessa são três pessoinhas nesse universo: você, seu papai e sua mamãe. Mais do que eu mesma. Fiquem bem aí, em três semanas estarei chegando para te ver. Te amo.

sábado, 18 de julho de 2020

Dia 18 de julho - seu aniversário de um ano e meio

Hoje é um dia lindo, minha amada neta Flora Benita completa um ano e meio, forte, linda, saudável, inteligente, carinhosa. Mais do que perfeita, parece um milagre (lembrei que chamava seu papai de milagrinho quando ele era nenê). Parabéns netinha, te amo.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

15 de julho de 2020 - Dia 122 da quarentena

Florinha, tenho trabalhado muito e estou cansada, louca para te reencontrar. Não vejo a hora. Queria muito estar aí, ficar brincando com você enquanto seus papais trabalham. Hoje fiquei muito feliz, porque você pediu para seu papai telefonar para a gogó. Fiquei muito emocionada.

Essa comunicação entre nós resume tudo: ser mãe ou pai é querer estar sempre presente (o que gera uma certa angústia, a bem da verdade). Ser avó é querer deixar uma mensagem. Estar presente entre as diversas dimensões do tempo, o que torna mais suportável a distância no espaço.

te amo

Gogó

16 de julho - dia 123 da quarentena

Flora, minha amora de olhos de jabuticaba

Tive uma insônia como pouquíssimas vezes na minha vida. Meu chefe e amigo costuma dizer que "ficar velho é dormir mal"; eu que sempre me gabei de ser a melhor dormidora do mundo, brincava que se for verdade que dormir pouco é característica dos gênios, eu era uma anta, essa sua gogó que já dormiu de pé em um museu, sem apoiar em nada (sério, pergunta para o seu vovô sobre o Museu Picasso de Barcelona), agora batalho para dormir 7 ou 8 horas por noite. Mas, essa noite, chegou um momento em que eu desisti de tentar e fiquei lendo um livro na cama. Tudo porque soube que a sua vidinha vai voltar à normalidade, vocês vão interromper a quarentena. Eu estava tão feliz com vocês na casa dos outros vovôs, com tia, jardim, atenção, carinho.

Esse tempo todo fiquei propagando a frase 'vidas acima dos lucros'. Agora, estamos vendo a 'vida acima da Vida', isto é, a vida cotidiana, feita das coisas que devem continuar a acontecer, acima no valor maior da Vida. Sendo vida, e não morte, estamos no lucro.

Obviamente seus pais não voltaram às rotinas para ganhar muito dinheiro, e sim porque, simplesmente, as coisas voltaram. A roda do capitalismo opera até mesmo de forma sutil, fazendo o mundo girar. Especialmente os jovens não conseguem se ver à margem da história, observar a roda rodando e não se ver dentro dela, eu entendo isso. Nem posso julgar ninguém, do meu posto privilegiado, no momento até ultraprivilegiado: estou trabalhando normalmente, produzindo muito mais do que o de costume, justamente porque sei, ou consigo, trabalhar de casa. Consigo, aqui, nos dois sentidos do termo: minha empresa está permitindo que eu faça de casa as minhas rotinas de trabalho, e na verdade até aumentando as minhas atribuições; e, após décadas de free lancer, eu sei como conseguir me concentrar e realizar as minhas tarefas diárias.

Tendo substituído as duas horas que eu passava (e adora passar, mas isso acabou) na academia pelo treino super maravilhoso que seu papai formulou para mim, estou ficando mais em forma e ao mesmo tempo poupando duas horas do dia - já que não tenho que ir e voltar. E, no caso por sorte, sou "mais velha", como se diz, e pela minha personalidade, meu lazer é ficar em casa lendo meus livros e escrevendo, mesmo.

Só sinto muita falta de uma coisa, que não é coisa mas sim pessoas: vocês, minha família. Fiquem bem, sem vocês não há nada. Te amo.

domingo, 12 de julho de 2020

Dia 12 de julho - 119 dia da quarentena

Flora Benita
Amanhã será o dia 120 - já estou há quatro meses sem te ver. Ontem seu papai mandou uma foto que mostra bem o que eu deixei de ver de perto (não vou dizer que eu perdi, porque mesmo de longe, eu ganhei): você já não é um bebê, mas sim uma criança, uma linda menina morena e esperta, por sinal. Na sexta-feira a gente estava conversando, e você saiu correndo e seu pai: "tchau, depois a gente se fala", e você voltou correndo para falar "tchau, vovó", ou mais precisamente "gó!".

Essa semana que passou recebi muitas notícias escabrosas de mortos e doentes por covid. No começo, pipocavam casos de conhecidos: logo no início, a mãe da Roberta, depois o Daniel Azulay e mais uns dias o Sérgio Sant'Anna, um escritor maravilhoso que eu escutei em Paraty, na Flip, e por quem eu tinha uma forma de conexão espiritual que chega a ser uma intimidade, como só se pode ter com artistas criadores, uma espécie de reconhecimento profundo. Ele tinha idade, aliás essas três primeiras vítimas tinham, mas estava escrevendo muito, ainda, inclusive um novo livro que nunca verá a luz do dia.

Mas a última semana começou com uma jovem que nunca verá o seu bebê; um bebê na ala dos prematuros que já verá a luz do mundo sem uma mãe; um pai que está doente em casa, sozinho, sem visitar o filho que nasceu prematuro e ainda sem saber que sua esposa morreu; uma família em que o pai morreu, a mãe está entubada e dois dos três filhos estão bem doentes; e assim por diante. Todos são pessoas próximas, a dois graus, no máximo, de separação comigo. Não conheço muita gente em Brasília, mas duas famílias de pessoas bem próximas estão com todas as pessoas infectadas; dos cinco do escritório, dois têm doentes em casa. Fora o Sirkis, que morreu de acidente de carro e deixou a mãe de 97 anos, por quem era muito apegado. Foi uma semana bem triste, essa aí.

Ao mesmo tempo, vejo tudo reabrindo e as pessoas ansiosas por querer sair de casa. Ontem li uma entrevista com o Fabricio Carpinejar, outro escritor especial, e ele disse que a primeira coisa que fará quando acabar a pandemia será ficar em casa - por vontade. Me define.

A parte boa é que estou progredindo no livro do Buiu e os Favelinhas. Tenho falado com as 'crianças' que, agora, já não são mais tão crianças. Assim como você está na fase mais importante da vida - descobrindo o mundo através da fala, ou seja, da linguagem, e do movimento, ao aprender a andar, e o Gael na segunda fase de descobertas, aprendendo a ler e a escrever, as crianças do projeto estão aprendendo outra coisa que também é uma descoberta muito transformadora. Estão exercitando a cidadania na marra, forçando o seu lugar no mundo, obrigando uma realidade que é bastante cruel a se conformar ao tamanho delas. E, melhor, esse tamanho tem aumentado.

Fico imaginando que você vai crescer rodeada por essas pessoas que elas irão se tornar. O Gu, que seu pai particularmente adora, será um homenzinho, já. A Duda, que é a minha amiga-leitora muito especial, será uma moça, a Ká, que também é minha professora de Jiu Jitsu, também. A Ra, o Pateta, Dani, Biscoito, Kauan, Yasmin, Pedrinho, são muitos os jovens para eu citar todos aqui, esses todos que estão aprendendo uma forma de organização que é revolucionária (mas eles ainda não sabem disso), estão descobrindo uma coisa muito louca: que eles podem mudar o mundo. Desejo que o façam.

Até eu que já passei dos 50 descubro coisas. Quando eu era criança, tinha o hábito de segurar um porta-retrato de prata com a foto do meu avô paterno, olhava bem nos olhos dele e ficava imaginando o que ele gostaria de me dizer. Agora, penso que seu trisavô Icek, que veio da Polônia fugindo da perseguição aos judeus, e pedia para a gente beijar o chão do Brasil ao sair da cama, iria gostar muito de te ver, e aos seus pais, morando com eles e fazendo parte dessa história. Acho que é exatamente o que ele iria querer: um bisneto para seguir a intenção de seus passos, prosseguindo na direção de criar um mundo mais justo. E uma trisneta linda, brasileirinha, com esperteza e olhos de índia, nome de natureza, guerreirinha desde o início.
Te amo Florinha, não vejo a hora de te reencontrar.





segunda-feira, 6 de julho de 2020

Dia 6 de julho - 113o. dia da quarentena

Florinha, minha netinha linda,
ontem recebi uma foto sua: você descabeladinha, seu pai te abraçando bem firme e você olhando a cadelinha da tia-avó Dedé com curiosidade e um pouquinho de medo. Me doeu de saudades. 
Às vezes parece que estou - estamos - andando em terreno pantanoso: os números de infectados saltaram mas ao mesmo tempo já tá todo mundo na rua, todos os comércios abrindo, como se não houvesse doença. E aí eu, e acho que todos que estamos respeitando o isolamento sanitário, ficamos nos sentindo meio paranoicos, deslocados. Na quinta-feira, os bares do Leblon, onde a vovó morou até pouco tempo atrás, reabriram. Centenas, ou milhares, sei lá, de pessoas lotaram os espaços, todo mundo pertinho, sem máscara, brindando e rindo como se "a frescura" tivesse acabado.
Mesmo os Favelinhas, que estou admirando tanto por tantos motivos, estão fazendo churrascos e passando o tempo junto sem máscaras. Que questão complicada. Daí, às vezes me dá uma sensação de que esse tempo sem te ver foi uma bobeira, uma inutilidade. Só que eu sei que não, afinal sua vovó tem formação de sanitarista, e estudo várias coisas sobre saúde porque eu gosto do tema. E as UTIs estão lotadas, quer dizer, se uma pessoa tiver um problema banal de saúde, não terá atendimento hospitalar, imagina só isso. E tem mais, ninguém sabe se esse vírus, mesmo depois que a pessoa se cura, não é capaz de continuar provocando danos graves ao longo do tempo. Na verdade é o que aponta o estado atual das pesquisas.
Parece que as pessoas não conseguem simplesmente "dar um tempo". Têm que "passar" o tempo: fazê-lo passar fazendo coisas. Por isso perguntei para o seu pai se você é mesmo "na sua" como parece nos vídeos. E ele disse que sim. Eu já tinha notado, como em uma vez que a gente estava brincando juntas e você ficou de costas fazendo a sua macaca de pelúcia caminhar; estava na minha companhia, na boa, mas se distraindo sozinha. Essa é uma característica muito forte minha e também do seu papai; perguntei para ele se a sua mamãe também é assim, "na dela" e ele confirmou. O que é ótimo, porque pessoas que ficam bem na própria companhia estão sempre bem - o que é especialmente verdade nesse momento.
Também, fico agoniada porque já temos mais duas pandemias 'cozinhando' por aí: uma de gripe suína na China, só em porcos por enquanto; mas o vírus se adapta aos humanos em dois palitos. E outra, o retorno da peste bulbônica, que matou dois terços dos habitantes da Europa no século XIX e voltou porque as pessoas comem marmotas!!!!!! Como pode, Flora? Por que as pessoas continuam comendo animais?
Acho que é pouco amor à vida. À vida delas, à dos animais, à vida, enfim. Tanto é que tem gente que diz que 'bacon é vida' e morre de rir, que frase cretina: um porco grita horas e horas, às vezes até dias (eu já vi e foi horrível) enquanto está morrendo. O porco é o animal mais próximo fisicamente do ser humano, tanto que nele são testadas vacinas e extraídos órgãos para transplante em pessoas. E se a morte dele é lenta e excruciante, a morte de quem come, pelas veias entupidas de gordura, começa na primeira dentada e vai prosseguindo lenta, invisível e concreta. Acho muito louco isso, e muito triste também.
A parte boa dessa época estranha é que logo mais estarei com você, não vejo a hora, mesmo.
Te amo Florinha, minha Flora Benita netinha linda
Vovó

domingo, 28 de junho de 2020

Dia 28 de junho - dia 105 da quarentena

Amada Flora,
Estou ouvindo a música composta pelo Renato Paz para os Favelinhas,  e a mensagem é 'você pode ser melhor'. A história é ainda melhor: os favelinhas começaram se organizando para fazer a favela sobreviver, e descobriram que podem ser melhores. Puta música, puta mensagem. Acredito muito na organização comunitária, essa que não é 'aho', é coletiva por necessidade.
Outro dia seu pai me chamou e, quando atendi, ele estava correndo e gritando 'socorro, tem um bichão tentando me pegar'. Você gritava e gargalhava ao mesmo tempo, perseguindo ele, e eu aqui em casa fiquei toda emocionada, embevecida. Seu pai não falou 'tem uma menininha linda brincando de me pegar', porque feroz é o bichão. E o povo organizado é o bichão, os favelinhas são o bichão. A necessidade abre as portas das casinhas (pior ainda, solta os bichos paradas nos cantinhos).
Nesses tempos de pandemia eu, muitas vezes, passo os dias lendo notícias assombrosas sobre esse país inacreditável que o Brasil virou, e essa época que o mundo vive. Meu dia começa escrevendo um  pouco e lendo todos os jornais que posso, acho que mais de dez, logo cedo. Depois, escrevo e leio o dia inteiro, tirando uma ou outra reunião que acaba sendo, também, uma nova demanda de texto. Então fico ligada nas notícias praticamente o dia inteiro, e me controlo para não cair na desesperança porque olha, vou te falar, que fase.
Leio sobre o aquecimento global que fez a Sibéria atingir 38 ºC, sobre a nuvem de gafanhotos que vem do Sul, o povo Yamomami sendo atacado pelo coronavírus, as leis ambientais afrouxadas, a poeira que vem do Saara e está em Cuba, as mortes aumentando e os hospitais de campanha sendo desativados (parece que eles não internam e mandam as pessoas para morrer em casa), os shoppings reabrindo

Leio sobre a famiglicia desse homem nojento que colocaram para presidir o país e que parece, cada dia mais, envolvido com quem mandou matar uma mulher negra e corajosa que ousou sair da favela para libertar, dessa vez de verdade, a família das pessoas escravizadas.

Depois de ler, eu escrevo sobre as crianças dessas famílias de pessoas escravizadas, que são as crianças que aparecem na minha cabeça quando deito para dormir, que acabaram virando a família do meu filho e, portanto, a minha.

Fico tão aliviada de ver a forma como eles reagiram à pandemia e, também, animada quanto ao futuro. O Buiu organizou uma coisa muito louca e revolucionária, que é fazer eles verem que podem vencer a exclusão, se organizando. Estão conseguindo juntar grana, levantar as necessidades das famílias, distribuir certinho o que cada família precisa sem deixar sobrar nem faltar, trabalhando com alegria e brigando um pouquinho (tô acompanhando o grupo, hehe, imagine juntar uma moçada toda e ninguém brigar, impossível, né?)

Quando acordo, a primeira criança em que penso é você, minha neta, que estou morrendo de saudades e não vejo a hora de te abraçar. Te amo,

Vovó







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quarta-feira, 24 de junho de 2020

24 de junho - Dia 101 da quarentena

Quantos dias fiquei sem te escrever, Florinha! Você sabe que não foi por não sentir saudades, e a falta de tempo não é uma justificativa válida. É que se completaram 100 dias já, e o isolamento entrou em uma normalidade. Felizmente converso com vocês todos os dias, troco uma ideia com seu pai enquanto fico vendo você brincar, e confirmo que você é a menina mais linda e inteligente que já nasceu no mundo. Está enorme, ágil, forte, esperta. Sabe dizer quantos anos tem, mostrando o dedinho e falando "um'. Sabe falar morango, buraco, jacaré, várias palavras difíceis que a primeira ou a última letra você pronuncia claramente e basta para quem quer entender. Mais importante, dá para perceber que em poucos meses você estará falando todas as palavras com a perfeição com que faz todas as coisas: dança, imita a branca de neve e a bruxa, mostra a cabeça, mãos, pés, pernas, imita todos os animais, e inclusive faz exercícios com o seu kettlebell imaginário. Perfeita. Queria muito estar aí com você hoje, mas faço planos de te encontrar em julho e isso já me mantém satisfeita.

Estou com saudades imensas do seu pai, também, a única vez em que ficamos tanto tempo longe foi quando ele foi para a Austrália, e sinceramente eu não achei graça nenhuma da experiência. Ainda mais com a diferença de fuso horário, quando a gente se falava ele dizia 'bom dia' e era de noite, e eu nem corrigia para ele não sentir toda a distância entre nós da maneira que eu estava sentindo.

Sentir saudades é uma dor, mas é sinal que existe amor, então é ruim e é bom. Hoje, 24 de junho, é a data em que a Noca, que era a minha melhor amiga, morreu. E dela eu só sinto a falta, sem um plano de encontrar no futuro, então isso sim é muito ruim. Ela nem teve um futuro, porque morreu adolescente, né, acho que por causa dessa tristeza que eu incorporei eu sempre acho um lado bom nas situações difíceis. Não sendo definitivas, como foi quando ela morreu, já estamos em vantagem.

Por falar em futuro, comecei a conversar com os Favelinhas, as crianças do projeto dos seus pais, que estão organizando a entrega das cestas básicas para a comunidade. Eles estão fazendo um trabalho absurdo de lindo, Florinha, super organizado e alegre ao mesmo tempo. Muitas vezes eu leio e me dá vontade de chorar, mas ao invés eu fico pensando em como descrever aquilo no livro e tentar fazer as pessoas que lerem perceberem como a atitude coletiva pode ser transformadora. Uma bela tarefa essa que eu tenho pela frente!

O livro sobre o Buiu, que iria se chamar As Vielas do Buiu, se transformou em Buiu e os Favelinhas. Quanto mais eu tenho contato com esse universo, mais eu enxergo o seu pai e entendo o nome que escolhemos para ele. Danilo quer dizer 'Deus é meu juiz', e como seu avô e eu não somos religiosos, parecia que não fazia muito sentido essa escolha, mas a gente sabia que fazia, sim. E hoje isso fica muito mais claro. Seu pai (e sua mãe também) age como acha que tem que agir. A explicação para o nome não fala exatamente de religião e nem de julgamento, mas é: SÓ Deus é meu juiz. Seu pai faz o que acha que é o correto, e não está preocupado com o mundo, com aplausos, reconhecimento. Ele só conta para o mundo o que faz na esperança de conseguir convencer alguns aliados, e às vezes consegue, mesmo.

Florinha, prometo que vou voltar a escrever mais constantemente aqui. Estou trabalhando muito e ando bem cansada, mas isso é ótimo, teria medo é do contrário. Aqui é carpe diem! Eu te amo muito, viu? Não vejo a hora de encontrar vocês.
beijão da vovó






domingo, 14 de junho de 2020

14 de junho - dia 91 da minha quarentena e último dia da de vocês

Flora, minha adorada, 
Apesar das saudades, eu estava tão feliz de saber que vocês estavam isolados, protegidos, bem cuidados, em uma casa ótima com jardim, piscina e especialmente o carinho da família. Para mim, a pandemia começa agora. Com tudo o que traz junto dela: medo, intranquilidade, insegurança, necessidade de controlar a imaginação. Fico aqui distante e torcendo para que seus pais percebam que toda e qualquer pessoa pode estar infectada, ou seja, onde já se viu torcer para que as pessoas que você ama fiquem paranoicas? Mas, na verdade, uma profissional da linha de frente do serviço de saúde falou exatamente isso: toda paranoia é justificada. E eu, sua vovó, fico aqui assim: longe de vocês e com a antena ligada no máximo. 

Malditos governantes, malditos. Uns são imbecis, os outros, talvez até piores, quiseram agradar aos dois lados, aquilo que todos nós sabemos ser impossível. Mandando mensagens dúbias, não fizeram nem uma coisa e nem outra. Não houve isolamento e não se manteve a economia funcionando, o que temos é o pior dos mundos, a tempestade perfeita. Até o prefeito de São Paulo, com câncer, implantou um rodízio rastaquera sem lógica nenhuma, voltou atrás, ficou isolado na sede da prefeitura trabalhando e agora o que? Tá com covid, ele também. Não posso julgar, mas só tenho um pedido sincero para os próximos tempos: fiquem bem, você sua mamãe e seu papai. Assim que possível estarei aí com vocês.

Amo vocês, te amo