sexta-feira, 15 de maio de 2020

15 de maio - dia 61 da quarentena

Flora, amora da vovó

Estou aproveitando as minhas férias entre quatro paredes, prova que (como eu sempre disse, aliás) dá para ser feliz em qualquer lugar. Acabei de fazer o treino que seu papai me passou e notei que já estou mais forte e ágil. Sabe essas chaleiras super pesadas que você vê seus papais usando para brincar? Ei! Acabo de perceber que estou escrevendo para a Florinha de hoje, a nenê que assiste os pais treinando - mas quem vai ler isso é a Flora menina que, aposto, terá seu próprio jogo de ketlebells, assim como seus kimonos. Enfim.

Mas posso te contar uma coisa que você não tem como descobrir por si só. É sobre o meu sonho recorrente, ou melhor dizendo, pesadelo. Acho que só contei isso na terapia, que me lembre. Inúmeras vezes eu sonhava que estava caminhando e 'queimando pontes' - isso significa que eu atravessava uma passagem e, por exemplo, deixava a escada cair, atrás de mim. Em outras palavras, eu traçava um caminho que não me permitiria retornar. Só me restava continuar.

Você vai me conhecer melhor, e descobrir que assim é que eu fiz a minha vida inteira: mudei de carreira, terminei relacionamentos etc. sem ter como desfazer os passos, nem mesmo mudar de ideia.  De propósito, claro. Mas, nos pesadelos, eu sempre chegava a um ponto do qual era impossível prosseguir; e não tinha mais como voltar. Penhascos, buracos, pinguelas que faziam meu coração acelerar e, óbvio, me despertavam.

Em 2007, fiz uma viagem a São Jorge, aqui perto, na Chapada dos Veadeiros. Visitei uma montanha cercada de cristais cor-de-rosa, com uma guia muito bacana e esotérica, chamada Marie. Subimos escalando, abraçadas nas rochas, e eu comentei com ela que a gente tinha que parar porque eu não iria conseguir voltar. Era o cenário dos meus sonhos, a mesma situação! E ela só disse 'vai, sim'. Fomos até o alto, onde ela ficou meditando e eu flutuando em uma "banheira" de quartzo rosa - imagina a cena!

Voltei tranquilamente, agarrando cada pedaço de montanha. Em alguns ela me estendia a mão - mas eu não descia apoiando nela, e sim no meu corpo e na natureza. A mão da Marie era o estímulo, mostrava mais que tudo que ela havia conseguido, e eu também podia. Nunca mais tive o pesadelo.

Essa noite sonhei que tinha que passar por diversos obstáculos, atravessando compridas mesas de madeira com uma mão segurando um prato de comida e a outra apoiando nas vigas do teto. Tinha uma amiga minha estendendo a mão, mas era um gesto simbólico, ela não tinha como me ajudar realmente. E eu sabia que ia conseguir, se mantivesse a calma e confiasse na minha capacidade física.

Do outro lado, estava uma situação festiva do passado, e afinal eu consegui e me juntei a eles, amigos antigos. Algo que eu larguei e para o qual eu retornava, mas muito modificada. Não apenas na segurança corporal.

O que tem a ver essa história toda com os treinos que seu papai me passou? Tudo.

Meu filho é quem mais me instiga a pesquisar, descobrir, agir. Ele está milhões de quilômetros à minha frente, como imagino que você estará, daqui a vários anos, à frente dele. Hoje, tá aí na casa dos vovôs brincado de chuvinha com a tia Vi. Tá tudo ótimo.



domingo, 10 de maio de 2020

10 de maio, 2 meses sem vocês

Florinha, hoje faz exatamente dois meses que eu não vejo vocês. E é dia das mães, data que eu sempre desprezei como meramente comercial. A síndica aqui do bloco chamou uns músicos pra fazer uma homenagem, e eu achei ridículo. Daí eles tocaram Eu Sei que Vou Te Amar e quando vi eu estava me debulhando em lágrimas. Muitas saudades, muita vontade de abraçar seu papai bem forte. Queria estar aí com vocês, dê um abraço na sua mamãe e na vovó Rose, por mim.
Te amo
Esse nenê da foto é o seu papai, acredita?

Eu não chorava desde o dia que seu papai e eu conversamos e decidimos que eu precisava adiar as minhas férias - era para eu passar o meu aniversário em São Paulo, com vocês. Chorei muito naquele dia. Desde que seus bisavós, meus pais, morreram, eu choro muito raramente. Mas, hoje chorei ouvindo as músicas (até a do Roberto Carlos, que ridícula), vendo as pessoas todas de máscara lá fora, em volta dos músicos (agora, todo mundo usa máscaras e ninguém se abraça! O que aconteceu com o nosso mundo!?) e chorei de novo, ao ler que o Sérgio Santanna morreu de covid. Eu acho que ele era o melhor escritor brasileiro vivo - mas ele agora está morto. Assisti um debate dele na FLIP e fiquei muito emocionada de conhecê-lo. Morreu afogado em ar, enquanto o palhaço que os imbecis colocaram na presidência passava o dia de ontem - no qual completamos 10 mil brasileiros mortos - brincando no jet sky. 

sábado, 9 de maio de 2020

9 de maio, dia 55 da quarentena

São 10h53 da manhã e eu já ganhei:
- uma imitação de elefante
- um rugidinho de leão
- vários beijos
- pelo menos um tchauzinho
- latidos de au au
- um sorrisinho (sem pedir)
- um 'vó!!!!!' (mais ou menos)
- vi e ouvi o papai
O que mais uma vovó pode querer? Na verdade, algumas coisas mais físicas, como sentir o macio da sua bochecha ao invés de só imaginar. Mas estou satisfeitíssima com o que já ganhei por enquanto.

O ser humano é um bicho muito adaptável. Eu já tenho a minha rotina de 'distanciamento social' que é o nome adotado para essa fase de quarentena. Acordo cedo como sempre (hoje, umas 5h); leio um pouco de teoria (no banheiro): hoje li David Harvey, voltei a estudar marxismo por influência do seu pai. Conheci o seu vovô, pai do seu papai, quando ele deu um curso sobre Marx para o meu grupo de dentistas de esquerda (rararará essa frase é muito engraçada, soa como uma contradição em termos!). Seu pai, hoje, é um filósofo revolucionário autêntico, autodidata. Ele me enche de orgulho, e não apenas por isso.

Depois de ler um pouco, escrevo para você, como estou fazendo agora. Em seguida faço atividade física: um dia, eu corro pelas superquadras, ainda desertas, sem problemas porque não encontro ninguém. Se aparece alguém ao longe eu vou desviando por dentro ou por fora das quadras, é meio triste evitar os outros mas correr me faz um bem louco, me faz sentir como quando eu dançava. No dia alternado, sigo um plano de exercícios que seu papai montou, com garrafas de água de um litro e meio e galões de cinco litros, usando o peso do corpo, um treino pré-kettlebell como o que você assiste seu papai fazendo ou passando para a sua mamãe.

Durante o treino eu começo a ouvir os pássaros - Brasília tem uma quantidade absurda deles, embora na verdade, mesmo no centro de São Paulo, dá para ouvir pássaros de manhã - cantarem, acordando, e os primeiros raios de sol já estão aparecendo. Adoro esse momento, assim como fico triste quando o sol está se pondo. Se não triste, emocionada. Algo me incomoda, parece que estou esquecendo de alguma coisa, e acabo lembrando que esse é o horário de ligar para os meus pais. Mas, claro, eles estão mortos há 15 anos, então eu sinto que tenho algo a fazer que me fica faltando fazer.

Tomo banho, como uma fruta com 'coisas' (chia, linhaça, gergelim, leite vegetal, canela etc.), edito o que escrevi e leio TODOS os jornais enquanto faço um clipping de notícias. Eu amava esse momento de tomar um café preto bem cheiroso e ler o jornal de papel, mas hoje leio na internet, mesmo. Às vezes imagino se vou realizar meu sonho/plano de morar na praia e, daí, se lá eu vou voltar a ler jornal de papel. Sei que não tem o menor sentido em si, o papel - mas amo o cheiro, a textura, até a sujeira de tinta que deixa na mão. Mas deve ser pura nostalgia, mesmo.

Daí, sim, eu começo a trabalhar. Primeiro faço um pouco de divulgação dos trabalhos autorais, depois as demandas da agência. Eu gosto de produzir, muito até. Então fico feliz com a maior parte das minhas obrigações. Mas hoje é sábado e meu primeiro dias de férias, tenho uma 'pilha' virtual de 13 livros de teoria que quero ler, uma multidão de artigos salvos no ebook, enfim, meu passatempo predileto é deitar no sofá com as pernas para o alto e passar o dia lendo, mesmo.

Apenas duas coisas me fazem muita falta, é até engraçado porque todo mundo reclama de vontade de passear, sair beber, comer fora na quarentena. E eu só queria duas coisas: uma academia aberta e, mais que tudo no mundo: ver vocês.

Fora essas duas coisas, estou bem aqui em casa, lendo e escrevendo todo o tempo, trabalhando muito e bem, dormindo bastante, me cuidando.

Lá fora, o mundo explode, ou derrete, sei lá. Ontem morreram mais de 700 pessoas. Note bem: notificadas! - grande parte dos casos não são registrados como covid-19, para fazer esse rebanho de gente burra que elegeu um idiota achar que o perigo acabou e voltar ao trabalho. O show, isto é, a economia, não pode parar. Mas para os donos do dinheiro tanto faz quem é que opera as máquinas, o que interessa é que as mercadorias saiam delas. Se não tiver um brasileiro para comprar, eles exportam, não importa para eles de onde vem o dinheiro, também. Quem tem que perceber isso nem são eles, afinal, é o povo.

Porém, infelizmente, devo dizer que estou escrevendo da Asa Sul de Brasília, às 11h e estou ouvindo uma barulheira de carros de som e megafones. São os imbecis, fazendo uma mega manifestação  (para isso, tem dinheiro sobrando, mas para sustentar os pobres é aquele drama) pela volta da ditadura e contra a liberdade de fazer manifestações como essa que eles estão fazendo. Difícil de entender, né? Pois é.

Mas, de uma forma ou de outra, isso vai passar.

O meu amor por você, Flora, só vai aumentar.

Vovó


segunda-feira, 4 de maio de 2020

4 de maio, dia 50 da quarentena

Flora, 50 dias em quarentena! Longe de você há praticamente dois meses. Pelo menos, ontem você me mostrou seu umbiguinho, mandou beijos e falou 'água'. Apesar da distância, fico aliviada por vocês estarem em uma casa, com sol, jardim, piscina, área para seus pais treinarem, família cuidando de vocês três. Nosso objetivo, agora, é 'apenas' permanecer vivos e bem.

O nosso país é o único no mundo que enfrenta três crises simultâneas: a sanitária, a econômica e a política. Ontem, estava aqui trabalhando - lendo, escrevendo - quando ouvi uns estouros e vozes amplificadas. Corri para o Twitter para saber da manifestação contra o Supremo Tribunal Federal e a favor deste palhaço sem graça que é o nosso (atual, por pouco tempo, espero) presidente. E li que tinha milhares de pessoas aqui perto, na Praça dos 3 Poderes, um caminhão de som enorme. Me apavorei, mas óbvio que fui bem ingênua: quem divulgou isso era um 'deles' e o caminhão de som pode ter sido tudo, menos espontâneo. Depois, vi que eram um punhado de malucos, não chegou a 200 pessoas. Com um belo de um sistema de som, fogos de artifício, enfim: alguém pagou por tudo isso, e mesmo assim não reunião mais gente do que caberia na boleia do trio elétrico contratado.

Mesmo assim, na minha opinião chegamos a um impasse, porque o imbecil teria que mostrar o exame médico para dizer que não transmitiu covid para uma multidão de idiotas como ele; teria que obedecer à determinação de deixar a polícia trabalhar; o que, em última instância, pode meter ele próprio e os lamentáveis filhos dele, todos na prisão. Acho que nunca tivemos democracia no Brasil, afinal. A Comissão da Verdade atiçou os quartéis de tal forma que retomaram o poder pela via eleitoral, e nos próximos dias o golpe que se iniciou com a retirada de uma presidenta que foi, ela própria, torturada durante a ditadura, será finalizado. Depois, eu só poderei conversar aqui com você, e em qualquer lugar, sobre temas amenos.

Gostaria de ao menos poder falar a verdade sobre a pandemia. Temos 7 mil mortos contabilizados, mas se contarmos as mortes por doenças respiratórias não identificadas - o aumento sobre o número normal de óbitos - temos, na verdade, 70 mil. E subindo. Eu estudei Saúde Pública, né, fiz mestrado e entendo um pouco de epidemiologia (ah, eu fui a primeira da classe em estatística vital, sem querer me exibir demais hehehehe). Então, posso dizer, em resumo, que a situação vai ficar muito triste.

Eu pensei em colocar aqui uma foto de covas coletivas abertas, esperando caixões de papelão. Porque os de madeira acabaram. Mas, decidi não fazer isso e, ao invés, deixar essa postagem sem uma imagem. Da mesma forma que a gente fica sem palavras frente ao que está acontecendo.

Como sanitarista, aliás, acho um grave erro enterrar corpos, o correto é cremar. Como avó, quero falar com você da vida, do amor, da beleza, da natureza. Mesmo com o mundo caindo em volta da gente, vou continuar falando com você sobre o futuro. Falando sobre um tempo que virá, mesmo que após mais um imenso hiato de sofrimento; mesmo assim, acredito que virá. Fico aqui sonhando com o dia que vou te encontrar de novo, abraçar muito, conversar com os seus pais até acabar a voz da garganta, muito antes de esgotar o assunto. Até lá, abraça e beija os seus papais por mim. Te amo, Flora Benita.

sábado, 2 de maio de 2020

2 de maio - dia 48 da quarentena

Flora, acordei imaginando o quanto essas coisas que eu escrevo aqui farão sentido para você, na sua atualidade em que as vai ler. Quanto ao passado, as histórias da família, da guerra etc., continuarão relevantes. As questões mais íntimas, psicológicas, filosóficas, também. Mas será que quando você ler este diário os conceitos estarão superados? E se esse vírus for o anticorpo do planeta, e o mundo tiver se curado? Aí, palavras como capitalismo, consumismo, especismo, racismo, machismo, misoginia não farão nenhum sentido. E se eu te contar que eu era feminista, ecossocialista e vegana, e essas palavras não significarem nada?

Qual será o inimigo?

Tudo isso parece incrível, da perspectiva do tempo que eu escrevo. Mas, veja só, Marx inicia sua compreensão do mundo com a ideia de processo, e deixa bem claro que o capitalismo não pode parar, depende de movimento para continuar existindo. E hoje, a pandemia parou o mundo. As viagens aéreas praticamente não acontecem mais, e acredito que não voltarão a ser o que eram, nunca. As pessoas (finalmente!) entenderam que podem se comunicar perfeitamente sem vôos, fusos horários, barreiras de entendimento, hotéis, gastos supérfluos. Qual o sentido de um mundo lotado de prédios de escritório em que há muitas pessoas - famílias inteiras!- dormindo nas ruas? Como comer algo dispensável que promove a morte da natureza, dos corpos, do planeta? (Sem entrar no mérito de implicar em um assassinato). Qual a lógica de consumir o próprio sustento até ele acabar?

Uma coisa que não vai ser fácil de compreender será: pessoas rindo enquanto carregam um caixão na porta de um hospital. Não dá para entender daqui, de onde eu vejo. E certeza que não será possível daí, onde você lê isso. Zombar da desgraça alheia é um comportamento inaceitável, fazer piada da própria tragédia é impossível de entender, mas cavar o fosso, ir se enterrando nele e achar isso divertido, é mesmo tarefa para imbecis. Por que raios alguém escolhe um representante que é um completo boçal, um espécime repugnante, odioso? Eu sei. Mas não compreendo.

Você está vendo a casca de banana no seu caminho, cara. Apenas desvie.

Acho que a nossa sociedade de hoje, de quando eu escrevo, se caracteriza por não pensar. Apenas ir vivendo. Daí, no ano em que a terra parou, continuar consumindo se tornou inviável e as contradições começaram a aparecer, sem que as pessoas tenham "o trabalho" de pensar. No meu modo de ver, as pessoas aceitam ser consideradas meio simplórias porque essa atitude tira das costas delas a obrigação do fazer, do estudar, do pensar: esse "trabalho' entre aspas. Só realizam o trabalho que dá dinheiro, que se torna apenas um recurso para continuar empurrando a vida com a barriga. Comprando, mostrando, querendo mais, obtendo mais, comprando, mostrando, querendo mais.



sexta-feira, 1 de maio de 2020

1 de maio - dia 47 da quarentena

Flora, a neta mais moreninha de nariz arrebitado do mundo,

Vou te contar um segredo que todo mundo sabe: ser avó (ou avô, por suposto) é experimentar um amor muito louco. Digo que é segredo porque, mesmo que todo mundo saiba, amor é um sentimento inexplicável, que só se decifra vivendo. Ser mãe é a forma mais sublime de amor, continuo pensando assim. Mas deixar um fruto - filho é semente, neto é o que frutificou - é algo tão indescritível que não dá nem para tentar explicar. Ao invés, vou te contar uma historinha:

Você estava aqui no final do ano passado, esse 2019 tão marcante na minha vida, em que você nasceu (e veja só, 19 é 91 invertido, 1991 foi o ano em que seu papai nasceu) e que acabou se tornando nome de uma doença!

Então, você, sua mamãe e seu papai vieram passar uma semana aqui em Brasília, no final do ano de 2019. Ficaram alguns dias aqui em casa, com a gente: vovô, Gael e eu. E depois foram para a Chapada dos Veadeiros alguns dias, alugaram um carro e ficaram em uma pousada em São Jorge. Sua primeira viagem, a primeira viagem da sua família.

Logo que chegaram, talvez no dia seguinte, eu estava comendo uma tâmara jumbo congelada - já experimentou? Se não, faça isso, é uma delícia! Agora, você pode - porque, quando eu te dei, na verdade você não podia, ainda. O que aconteceu foi isso: eu fui até a geladeira com você no colo e peguei uma tâmara do pote no congelador. Essas tâmaras gigantes, congeladas viram uma espécie de bombom gelado maravilhoso, mas ainda assim são uma fruta, com o açucar natural dela, milhões de vezes mais saudável do que um doce.

Só que a sua mamãe não quer que você coma doces por enquanto, e a verdade é que eu concordo 1001% com ela. Para que despertar a gula por açucar em uma nenê? Não faz o menor sentido. E mesmo assim eu, pessoa total e rigidamente 'correta' nos hábitos alimentares, mãe, sogra e avó que faz questão absoluta de respeitar as decisões do casal, seus pais, e só emitir uma opinião qualquer quando devidamente questionada; bem, eu não resisti aos seus olhões curiosos e te dei uma casquinha da tâmara para experimentar.

Por falta de sorte, ou justiça universal, sua mãe olhou bem naquela hora. E ficou muito brava, como eu também ficaria no lugar dela. Acho que até foi bom, afinal, para a gente entender que, como eu disse a ela, polidez excessiva não orna com amor verdadeiro. Você verá que eu tenho brigas homéricas com seu papai, sobre assuntos plenamente filosóficos e teóricos, na maior parte das vezes; e mesmo assim tenho por ele um amor feroz.

O amor entre mãe e filho - seu papai e eu - é incondicional, essa é que é a maior graça. Eu posso ficar meia hora discutindo ideologia com seu papai, um gritando com o outro, sabendo que no final o sentimento entre nós vai continuar idêntico ao que era no começo.


E a questão da alimentação, entre nós, é muito ideológica. Tenho imensa, indescritível alegria em seu pai ser cartesiano (chato, diriam alguns) como eu, e jamais cometer qualquer deslize, por menor que seja. E agradeço todos os dias por seu papai ter encontrado uma esposa, a sua mamãe, que também é irredutível e abraça as causas sem reservas, luta por elas. E, mais do que tudo, sou extremamente feliz por eles estarem criando a minha neta com uma alimentação ética, saudável, absolutamente correta. O que torna o meu erro ainda mais absurdo, né?

Curiosamente, outro dia saí com o Vinicius, a Antonella e o JJ (alô JJ, você 'pediu' para que eu escrevesse um livro sobre você; por enquanto está sendo bastante citado nesse diário). Parece que foi em outra vida, quando as pessoas podiam passear por aí livremente, abraçar, pegar crianças no colo, ir juntas a parques. E foi isso o que fizemos, nos encontramos e visitamos um parque bem legal de São Paulo, depois do Vini ter visto vários aviões subirem no Aeroporto de Congonhas.

Lá, eles me contaram que a mãe do JJ - que é uma profissional reconhecida, com um trabalho importante e uma atuação que eu particularmente admiro, de registrar músicas cantadas na época da guerrilha do Araguaia em um disco, para perpetuar essa manifestação cultural - pois bem, a mãe do JJ, que é tudo isso e não é pouca coisa, estava oferecendo um docinho ao Vini, e a Lella lembrou que o Vini ainda não podia comer doces. O JJ reforçou: 'mãe, a gente não quer que você dê isso' e ela falou 'sim, eu sei'. E, passados instantes, foi lá e deu o doce! Ela não aguentou.

E, se isso parece totalmente absurdo para você, saiba que é, mesmo. Mas que um dia você vai estar com sua netinha ou netinho no colo e vai entender perfeitamente que tipo de amor absoluto e irreverente, contra toda a lógica, é esse que eu tô te contando. E vai lembrar de mim, espero.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quinta, 30 de maio, dia 46 da quarentena

Flora, minha Benita,

Nossa, estou com tanta saudades de vocês. Um mês e meio sem te pegar no colo, sem abraçar o seu papai. E sem saber quando vou fazer isso de novo. Mas é o contrário de uma prisão: adoro ficar em casa, estou trabalhando muito, lendo o dobro e escrevendo bastante. Menos do que gostaria, sempre. Mas o interior de uma prisão é o caos, o desespero, e em volta dela, o mundo. Aqui em casa é o meu mundo e, em volta dele, o caos. O desespero. Milhares de mortes sofridas, cercadas de pessoas rindo, dançando enquanto carregam um caixão (sério!), brincando que é só 'uma gripinha' e a autoridade que deveria cuidar de tudo perguntando 'E daí?'. O que aconteceu com esse mundo, Flora?

Aqui dentro, saudades de você e de seus pais. Quando falo com vocês quero dar um passo a mais na tecnologia: quando eu era criança, a gente fantasiava que no ano 2000 - isso é muito engraçado, a gente imaginava um futuro distante onde tudo seria eficiente e tecnológico, e isso sempre se passava no ano 2000 - as pessoas iam ter cada uma seu próprio telefone (mas, em geral, era acoplado ao relógio!), no qual poderiam falar com outras pessoas por vídeo, e isso era incrível. Eu cresci vendo TV em preto e branco, e você nasceu quando as vídeos chamadas já são a coisa mais banal do mundo. Mas, nos filmes de ficção científica mais ousados, eu poderia me teletransportar pelo telefone e me materializar bem aí, vendo você correr pela sala, chamando 'mãe' e 'pai' como você já sabe fazer.

Quando eu estava para começar a sétima série do ginásio, com 14 anos, fui com meus pais e irmãos fazer uma viagem pela Europa. Quando voltamos, o ano letivo já tinha começado, e eu tinha sido transferida para a turma B. Por nada, o diretor resolveu fazer um remanejamento e misturou os alunos das duas turmas, e eu caí na turma 'errada'. Só que todas as crianças odiaram mudar de classe e pediram para retornar às originais, e como eu estava ausente eu fiquei lá, na turma B, sendo que todas as minhas amigas estavam na turma A.

Eu achei aquilo injusto e pedi para mudar. Na verdade, fiquei extremamente infeliz porque eu era muito tímida e estava desconfortável com meninas que eu conhecia bem mas não eram as minhas melhores amigas. Resolvi pedir para mudar e, durante muitas semanas - deve ter levado quase dois meses - eu marcava reuniões na diretoria e implorava para retornar ao que era.

O diretor era um homem magro, de cabelos e barba preta. A gente chamava ele de Bode, mas parece que ele era bem legal. Ele me ouvia, conversava, e negava. Umas semanas depois, ele já dizia que ia pensar. Algumas vezes, a minha mãe era chamada e ia junto. Será que a minha mãe foi por iniciativa própria a alguma dessas reuniões? Não lembro.

Um belo dia ele me chamou, com a minha mãe, e disse que eu tinha vencido. Que seria muito bom ser flexível, adaptável mas que blá blá blá blá. Note, Florinha, que isso é muito curioso: porque existe pouca gente no mundo mais flexível e adaptável do que eu (isso dito por uma grande psicanalista, e facilmente observável por qualquer pessoa que conheça a minha história), mas sou também insistente, persistente em batalhar pelo que eu quero muito que aconteça. Que eu acho que são qualidades igualmente úteis para a sobrevivência. Enfim, ele falou, minha mãe me abraçou e os dois ficaram igualmente decepcionados comigo.

Eles esperavam que eu saísse dando pulinhos de felicidade, e eu apenas senti que tinha obtido algo que era justo. Que já era meu. O errado era eu ter sido transferida, não ia organizar uma festa para celebrar que as coisas tinham voltado ao lugar correto.

Essa semana, seu pai queria uma coisa que ele merece receber. Ele não conseguia sequer iniciar o processo, e após dias e dias de energia e esforço, eu consegui. Na verdade, só avancei os primeiros passos, que estavam desafiantes até então. Achei que ele ia dar pulinhos de alegria, mas ele ficou apático, esperando o desenrolar do evento. Disse que merecia desde o princípio, e quando conseguir irá ficar aliviado, não feliz.

Lembrei da minha mãe na sala do Bode, horrorizada com a minha apatia. E eu só sentia alívio.

Fico pensando em você crescida, Flora, no senso de justiça que possivelmente fará parte da sua personalidade. Na alegria sem bobeira que são características do seu pai e da sua mãe. Fico pensando em você, Flora. Por isso que tenho trabalhado tanto, lido, escrito. Tudo menos ficar parada chorando de saudades. 





quarta-feira, 22 de abril de 2020

22 de abril - 38 dias de quarentena

Oi, Flora, minha neta amada

Você já fala mãe, pai, cocô e um monte de coisas. Me dói não estar vivendo essa fase ao seu lado, sempre disse para todos os papais e mamães que esse período, entre 1 e 2 anos, é o mais lindo de todos. Você completou um ano querendo andar, e vai fazer dois anos correndo e falando. Melhor focar na próxima festa de aniversário, eu ao seu lado cantando parabéns.

Meus melhores amigos sabem que sou uma pessoa rara de encontrar, e sempre peço a eles que me entendam. Não sacrifico uma tarde de leitura para bater papo furado, nunca, jamais. Então, quando não apareço na festa, não estou menosprezando. E, quando combino um encontro, estou demonstrando muito mais do que pode parecer.

Um dia eu contei isso para a Claudia, e ela entendeu na hora. Encaro o tempo como o recurso mais valioso que existe. Eu não sou uma pessoa de 'passatempos' e, para mim, tomar café da manhã com eles aos finais de semana significava afirmar que eles ocupam um papel importantíssimo na minha vida. Hoje, eles estão no Canadá, cada vez que eu vejo as crianças os reconheço menos, imagina só eles a mim. Mas, de novo, melhor focar no próximo encontro.

E manter vivas as conexões. Ontem recebi um e-mail do Michel, sobre o compartilhamento de poesias que o JJ me enviou uns dias atrás. Até correntes, Florinha, a coisa que era mais abominável no mundo há um bom tempo, hoje são um luxo. Quem diria! Funciona assim: o JJ - que é um dos meus amigos mais queridos - mandou um e-mail com um poema, pedindo para eu enviar um outro poema para o primeiro da lista e seguir as instruções de incluir novas pessoas na corrente.

Ontem, recebi um e-mail do Michel, enviando um poema para a pessoa que estava em primeiro na lista e copiando eu e o JJ. Assim, abri meu e-mail e havia uma poesia, compartilhada entre dois dos meus melhores amigos e eu. Parece meio bobo falando assim, mas foi como encontrar uma mensagem em uma garrafa.

Adivinha qual foi a poesia que eu coloquei no e-mail, Florinha? Aquela que escrevi no seu aniversário de um ano. Eu sempre fui boa de escrever mensagens, e nunca dei importância a comprar objetos para dar de presente. Uma vez, minha mãe me disse: seus cartões são sempre tão lindos! Eu guardo e fico lendo muitas vezes, mas nunca sei qual era o presente com o qual eles vieram.

Fiquei pensando nisso. Objetos são muito concretos, prefiro as coisas sutis. Depois que o seu papai nasceu, eu parei de ficar tentando acertar o que a sua bisavó queria e, ao invés disso, levava seu papai para tirar uma fotografia - às vezes era bem difícil, Florinha, porque ele não era lá aquela criança super cooperativa, sabe? Eu falava: dá uma risadinha, filhote? E ele: não estou achando graça. Isso, quando não chorava para descer do banquinho. Era tão difícil, e me dá tanta saudade de lembrar disso agora. Mas, afinal, sempre a foto saia linda. Eu tinha vontade de pagar o dobro para a fotógrafa, ela merecia muito, coitada. Daí eu simplesmente comprava um porta-retrato bem simples e elaborava um cartão bem caprichado.

Quando a minha mãe já estava bem doente, eu e o seu papai recortamos uma figurinhas de coisas que a gente queria que ela ainda vivesse: uma mala de viagens, um saquinho de dinheiro, uma cadeirinha de praia, coisas assim. Fizemos um cartão bem bonito, que ela deixou em cima da mesa até o final, mesmo sabendo que nada daquilo iria acontecer. O que vale é a intenção, mesmo.

Aqui em Brasília, um dia nós levamos o Gael na festinha do Noah, filho de um casal bem legal - ela é artista plástica, uma pessoa que também é bem diferente, fora da curva, e ele fabrica os compactos de vinil do vô Carlos. As festinhas aqui podem ser bem legais, porque acontecem nas praças entre as quadras, são mais descontraídas, super agradáveis, no meio da natureza, sem aquela liturgia de entrar e sair. O Gael e o vô Carlos fizeram, eles mesmos, um desenho lindo, assinaram, embalaram e entregaram para o Noah. Quando ele abriu, a primeira coisa que disse foi: 'É para mim? Ninguém mais tem um desenho igual a esse?' Fiquei boba de um menino tão pequeno perceber a preciosidade daquele presente (confesso que estava pensando se ele não iria achar ridículo, comparando com um brinquedo caro de loja. Mas ele adorou).

Então, no seu aniversário, algumas noites antes eu acordei com uma poesia na cabeça. Levantei e escrevi correndo. Eu tinha aqui um porta-retratos que ganhei no natal, a prova concreta que as pessoas dão presentes por convenção, gastando recursos (tempo, energia, dinheiro) à toa, com objetos que a outra pessoa não precisa. Primeiro, porque se eu quisesse um porta-retratos, eu o compraria. Dois, porque se é necessário dar um objeto a alguém para provar afeto, a coisa tá complicada. Enfim, vô Carlos fez uma instalação artística no porta-retratos, escrevendo seu nome e pintando florzinhas. Eu, escrevi a poesia em uma folha bonita de papel cartão cor de laranja, caprichando na letra e tentando imprimir em cada curvinha o que estava sentindo, imaginando você lendo aquilo quando aprender a ler, relendo quando for criança, adolescente, adulta, velha, uma senhora Florinha.

Flora
Você chegou como a primavera
E mais: como todas as primaveras da história
Você trouxe todas as flores
Contidas em todas as sementes do mundo
Quando, enfim, forem frutos
Posso, até mesmo, não estar mais aqui
Mas, graças a você, sempre estarei
Serei raiz
Obrigada
18 de janeiro de 2020
Primeiro aniversário da Flora Benita

Foto da sua festa de um ano, tirada pela Elisa Focante

sábado, 18 de abril de 2020

Sábado, 18 de abril - dia 34 da quarentena

Dureza, viu? Florinha, como você já notou, está todo mundo cansado de ficar trancado em casa - inclusive eu - sendo que o pior, muito pior, ainda está por vir! Espero estar enganada (frase bem rara de me ouvir dizer, porque adoro ter razão) mas acho que da próxima semana até final de maio veremos uma verdadeira tragédia. Eu sou a pessoa mais otimista que você irá conhecer, minha netinha - mas sou, também, sanitarista. Se não acontecer um 'milagre', teremos pessoas morrendo nas portas dos hospitais, abandonadas, sem vagas do lado de dentro e sem famílias acolhedoras do lado de fora.

Voltando à vaca fria (Flora, quem será que inventou essa expressão? E o que será que quer dizer?), eu tenho dois refúgios; aliás, o termo refúgio se aplica ao lar, onde amo estar, mas o que eu quero dizer é que tenho dois escapes: um dia, eu corro pelas quadras da asa sul, que, bem cedinho, estão desertas. Se vejo alguém ao longe, já desvio um pouquinho por dentro da quadra, saio do caminho e não chego a menos de dez metros de qualquer ser vivente.

No dia alternado, eu faço ginástica. Ou aqui em casa, o treino que seu papai me passou e que é ótimo, como tudo que vem do seu papai, com enorme destaque para você. Ou, então, faço meus exercícios de calistenia em uma pracinha aqui perto onde há barras fixas e ninguém treinando; só uma vez havia um rapaz, nesse dia não treinei mas assumi como a exceção que confirma a regra. Esta pracinha é ótima, cercada por prédios com porteiros, então me sinto bem segura lá. Ou me sentia, até hoje.

Pendurei a minha sacola em um dos aparelhos, calcei minhas luvas de esporte (para não tocar em nada), e estava lá fazendo minhas flexões de braço (perfeitas, não como esse palhaço do presidente finge que faz) e levantando o corpo bem alto na barra superior** quando ouvi um cara gritando para o outro: "no chão! deita no chão!". Quando olhei o primeiro já estava dando um tapão na cara do outro, que protestava timidamente enquanto o segundo já reforçava: "mandei deitar no chão! com as mãos para trás!". Esse que reestabeleceu a ordem [contém ironia] não estava vestido de policial, então não sei se estava à paisana, se é um vigilante da quadra, ou algum outro tipo de milícia.

Juntei minha sacola, garrafinha e saí correndo sem nem tirar as luvas. Umas duas quadras depois percebi que tinha acabado de sofrer mais uma perda de liberdade; agora vou ter que treinar confinada em casa, mesmo. Até porque seu papai vai ler isso hoje e, como você já sabe muito bem, ele é muito cuidadoso com as meninas dele - você, sua mamãe e eu.

Enfim, estou desabafando mas não reclamando, primeiro que não estou doente, o que hoje já é um imenso privilégio. Segundo, que tenho a opção de permanecer em casa, o que é um privilégio muito maior, ainda mais em um país no qual a imensa maiorira das pessoas não tem condições de escolher a forma de trabalho, por razões históricas que você já deve estar começando a perceber, nessas alturas.

E depois, mas também bastante importante, porque eu tenho uma vantagem psicológica, ou talvez, fisiológica, ou até, também, química, sobre muitas pessoas. Explico: tenho uma força de vontade absurda, então ao invés de estar comendo demais e estática demais, consigo levantar da cama todas as manhãs, grata por ter saúde, com disposição para fazer exercícios e passar o dia criando, lendo, escrevendo, trabalhando. Parece fácil, mas absolutamente não é!

Mesmo eu, que não tenho tendência à depressão, tenho me sentindo fazendo força para não ficar depressiva ou ansiosa, estados que são normais, e até esperados, nessa situação que atravessamos. Tenho muita pena da maioria das pessoas, que sofre em dobro. Sabe qual eu acho, no fundo, que é o segredo do meu espírito assertivo? Ter tido um pai muito amoroso. É apenas a minha teoria particular, mas me deixa muito satisfeita porque você, também, tem um pai maravilhoso.

Te amo

** essa parte é mentira, foi só para dar um colorido a mais na história; mas o resto é verdade

quinta-feira, 16 de abril de 2020

16 de abril - dia 32 da quarentena

Flora, minha amada neta

Achei que iria ter tempo de sobra na quarentena, escrever todos os dias demoradamente neste diário. E, olha só, quando eu vejo o dia acabou e metade dos afazeres da agenda ficou para o dia seguinte! Estou trabalhando mais e melhor, muito produtiva - profícua e frutuosa, minhas palavras favoritas (a outra é fascinante, mas não cabe aqui). A própria ideia do diário, que achei originalíssima, na verdade saiu em vários jornais que vovós e vovôs têm feito o mesmo! Melhor, né, quanto mais gente experiente contando as suas histórias, mais provável que a sua geração possa reunir o que há de melhor - ou que dá para salvar dessa humanidade tão absurda - para construir uma realidade mais justa, sensata, equilibrada. Menos consumista, ou nada consumista, de objetos, pessoas e sentimentos. Modéstia às favas, você tem bons exemplos a quem puxar. Seus pais são pessoas que escolheram viver de uma forma diferente do que se convencionou como "normal", dez milhões de aspas aqui. Se todos fossem iguais a eles, o mundo seria um lugar melhor. Como você puxou a inteligência deles, eu boto fé.

Hoje vou aproveitar para contar uma história que te prometi antes mas não encontrei tempo de cumprir. Seu papai vai adorar porque ele sempre pergunta dessas histórias dos nossos antepassados, que infelizmente sei pouco e de segunda mão. Afinal, nossa família fugiu do holocausto, memórias e pessoas perdidas pelo caminho. Mas, veja só, fui comentar isso com uma amiga e ela comentou que, como seus antepassados vieram da África escravizados, ela não sabe sequer quem foram, nem mesmo de que região vieram. Resumindo, para se queixar da vida é necessário um bocado de egoismo.

Mas a história do primo do meu avô é dramática o suficiente para interessar qualquer pessoa. Para começo de conversa, ele não parecia judeu, mas sim polonês: loirinho, de olhos azuis e supõe-se, nariz e orelhas pequenos. Não parecia, então, comigo. E nem com você, que é essa mistura deliciosa de judeu, branco europeu, preto e índio. Lembrei agora que no desfile do carnaval de 2019, quando você havia acabado de nascer, um carro alegórico trazia a figura de uma indígena com os olhos iguais aos seus, idênticos aos da sua mãe, portanto. Que lindos.  Curiosamente, também existe, em Israel, uma estátua do meu tio-avô - esse mesmo sobre quem eu vou te contar agora.

Meu tio-avô Mikael não foi levado ao gueto de Varsóvia, quando os nazistas decidiram isolar os judeus poloneses em um bairro: ele já morava lá. Óbvio que o plano não era que eles ficassem felizes e bem alimentados lá, e logo começou a faltar comida. Como Mikael era pequeno, ele podia se esgueirar pela tubulação de esgoto e, como tinha o tipo físico que fazia ele passar despercebido 'do lado de lá' do muro (é, cercaram o bairro judeu com um muro, como o que o Trump construiu esses dias), ele saia de tempos em tempos para buscar comida.

Florinha, desculpe pedir isso, mas faça aqui uma breve pausa na sua leitura, feche os olhos e visualize o que estou te contando: uma criança, andando dentro de um cano de esgoto. Com um rio de cocô, cheio de lixo e tudo o mais que você pode imaginar, e não quero descrever aqui. Depois, abra os olhos e continue lendo, vou te contar um episódio horripilante e, logo em seguida, a aventura surpreendente que o tio Mikael viveu.

Um dia, o tio Mikael atravessou a cidade pelos esgotos para buscar comida na casa de uma senhora que doava alimentos para os habitantes do gueto. Provavelmente ela fazia parte de alguma organização, mas infelizmente jamais saberemos quem era. Triste haver herois anônimos, né? (Parêntesis entre parêntesis: sempre detestei quem escreve fazendo perguntas que a gente não pode responder. Afinal, a leitura é algo que acontece dentro da nossa cabeça, não tem para quem responder. Mas a ideia desse diário é justamente essa: conversar com você no futuro, independente de eu estar ao seu lado e você poder virar para mim e comentar sobre o que estiver lendo, ou não. Sempre que quiser falar comigo, Florinha, lembre que tem um pedaço nanoscópico de mim, e portanto do meu amor, dentro de você. Aliás, quando precisar buscar dentro de você um pouquinho de coragem, lembre também que há um filamento genético do tio Mikael bem aí dentro de você, que você pode acessar, e ativar, a qualquer instante).

Então, o tio Mikael voltou com as sacolas cheias da comida com a qual iria alimentar seus irmãos, seus pais, todo mundo e - prepare-se, Florinha, porque isso é muito forte: o gueto estava em chamas. Foi no dia 19 de abril de 1943, quando os judeus cansaram de ser exterminados no campo de concentração de Treblinka e resolveram morrer ali mesmo, lutando com dignidade. Resistiram praticamente um mês! Ao final, morreram todos, mas não o pequeno Mikael, que apenas ficou parado um tempo do lado de fora, olhando aquilo e sabendo que nunca mais veria a sua família. Depois, virou as costas e partiu.

Da minha perspectiva, nesse mesmo instante e bem longe dali, aqui no Brasil, a sua bisavó - minha mamãe - tinha exatamente 5 meses de idade quando o gueto finalmente 'caiu', sem nenhum sobrevivente, em 16 de maio daquele ano. Do ponto de vista do tio Mikael, ele tinha uma sacola de comida nas mãos e nenhum refúgio ao qual voltar. E apenas saiu andando. E bota andando nisso! Ele andou, andou, andou e chegou na Itália! Naquelas alturas, ele não tinha nem um bocadinho de comida, e isso há vários dias. Mas continuava andando, e lá pelas tantas ele chegou em uma fazenda, perto de um celeiro onde se fabricava queijo provolone. Havia um varal, onde estavam pendurados os queijos, curando. Imagine o cheiro forte que se espalhava pelo ar! E o tio Mikael fez o que?

Desmaiou.

Na manhã seguinte, acordou cercado por uma família de fazendeiros italianos fabricantes de queijo. Lembre que a Itália fazia parte do Eixo, formado por nazistas e fascistas, essa gente que a galera ignorante de hoje acha tão sensacional. Pense, também, que quem era apanhado escondendo judeus era assassinado, junto com os protegidos. Agora, pense o seguinte: aquela família - também anônima - acolheu, alimentou, escondeu e protegeu o nosso bravo tio Mikael.

Que, depois da guerra, emigrou para Israel, onde se tornou heroi por bravura em alguma das inúmeras guerras de lá e ganhou uma estátua em praça pública.

Tenho mais uma história para te contar sobre o gueto de Varsóvia, mas essa fica para a próxima. Por causa de histórias como essa que a minha avó me pediu: "nunca vá visitar a Polônia, nunca!". O marido dela, meu vovô, dizia que o Brasil é uma terra abençoada e que a gente devia beijar o chão todos os dias, ao levantar da cama.

Imagina se todos os brasileiros fizessem isso, Florinha? Amassem essa terra, que afinal de contas é o país mais rico do mundo, pois tem a natureza mais exuberante do planeta. Ao invés de destruir as florestas e os guardiões das florestas, cuidassem do nosso mundo e da nossa gente.

Escolhi duas fotos para ilustrar esta história, Flora. Uma delas é de uma criança sendo retirada do gueto de Varsóvia, após o levante. A outra é uma alegoria das tantas coisas alegres e luxuosas que temos no Brasil, esse país repleto de possibilidades. Escolho a segunda para me lembrar de você. Mas, nunca esqueço da primeira.

(Esta foto incrível é do Daniel Ramalho)