quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

31 de dezembro de 2020

 

Essa é a minha foto de final de ano, uma linda menina emburrada de jeans, fivelinha, camiseta que a gogó deu e tênis all star vermelho de cano alto que a gogó deu e não aparece na foto. Ao lado, o nenê da gogó, o papai amado. Noite de Natal, festa na casa da outra gogó, certeza que você melhorou de humor e se divertiu muito.

Por falar em humor, sabe que pensei em uma coisa engraçada esses dias? Você sabe que a gogó foi coautora de uma peça de teatro muito divertida? Atreva-se foi um sucesso, ficou dois anos em cartaz e eu queria muito que ainda estivesse, por inúmeros motivos. E, às vezes, eu vejo em você esse lampejo de atrevimento e genialidade que é o humor. Como no dia que a gente fez comida e você me enganava nas pegadinhas, quando eu falava "hummm, bom", você: "não, gogó, ruim", daí eu cuspia e você ria muito. Franzia toda a sua carinha linda com um ar de "te peguei". Seu outro presentinho da gogó foi um jogo de panelas de inox, que nem de adulto, por causa dessa nossa brincadeira ótima. Você na cozinha de compensado que sua mamãe deu gritando "pita!" foi um dos vários bons momentos que tivemos juntas nesse ano que está acabando.

Eu te amo, Florinha. Esse 2020 que foi tão cruel com a maioria só me trouxe uma coisa ruim: ficar menos perto fisicamente de vocês do que eu gostaria, especialmente passar 5 meses sem te ver. Mas a proximidade que eu sinto de você compensa tudo, até mesmo isso. Esses dias a gente falou por chamada de vídeo e você me estendeu a mão, lembrei de quando eu seguro a sua mãozinha gordinha e coloco o meu dedão bem no meio da sua palma. De verdade é melhor, mas pelo menos temos a tecnologia, né?

Não posso ser insensível em um ano que foi tão duro para o Brasil e o mundo, mas a verdade é que para mim foi suave. Trabalhei muito - nota-se pela falta de frequência em escrever aqui no diário -, terminei o livro sobre o Buiu (no gongo, mandei os originais para ele hoje), treinei bastante. E, se te vi pouco, compensei a quantidade com a qualidade de nosso amor e de um relacionamento que promete ser muito próximo e especial.

Feliz 2021 para a gente, Florinha, meu plano principal para o ano que vai começar é o mesmo que para toda a vida: ver esse amor florescendo.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

7 de dezembro

Florinha, amorzinha da gogó

Hoje minha mãe, sua bisavó, faria 78 anos de vida e eles, meus pais, 60 anos de casados. Ela casou com apenas 18 anos, quer dizer, no dia em que completou 18 anos. Só por isso já dá para ver como as coisas mudaram!

O que será que eles sentiriam vendo você fazendo sua performance de humor, fingindo pavor ao ver uma bruxa - ou um dinossauro, tanto faz - levando as mãos à cabeça e gritando como em filme de terror? Que engraçadinha você, Flora, onde já se viu uma nenê com senso de humor. 

Estou morrendo de saudades. 

Te amo

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Momentos, encontros

A gente estava na praça e um vizinho chegou com o cachorrinho no colo, um yorkshire. Ele te deu uma bolinha e ensinou você a jogar para o cachorrinho ir buscar, você riu muito daquele jeito que mostra todos os seus dentinhos. Umas duas semanas depois, estávamos na rua Augusta e você gritou: au-au! Era um yorkshire, outro ou o mesmo, mas claramente você achou que era o mesmo. Ficou encantada, e quando ele foi embora ficou chamando ele entusiasmada, e dando tchau. 

Quando você ainda nem andava, eu te pegava no colo para acalmar e ia até a varanda ver o cachorro do vizinho. Ficava cantando: "ô seu au-au, cadê você? Eu vim aqui só para te ver" e, quando acabava de cantar, você ficava pulando no meu colo para eu começar de novo. Em uma data próxima, você já vai estar falando tudo e um dia desses vai me ensinar sobre a diferença entre yorkshire e outra raça. 

E no futuro a gente vai ter uma conversa sobre raças. Como as intermináveis conversas com o seu pai - intermináveis no bom sentido, que nunca terminam, sempre têm uma continuação que é evolução, sobre a raça humana, o racismo como construção social e as milhões de coisas que há por fazer depois de apenas conversar sobre.

São esses momentos, nossos encontros, que me motivam a cada dia. Já estou há duas semanas sem ver vocês e com muitas saudades. Trabalhando o tempo todo, estou começando a me sentir exausta. O que me move é saber que vou te encontrar em breve, vamos ter uma semana inteira para conviver, ficar muito com você, conversar muito com seu papai, fazer uns treinos porque ele quer porque quer que eu participe de um campeonato em dezembro para o qual me sinto completamente incapaz mas claro que ele é quem tem razão. E vamos sair bastante, comer naqueles restaurantes deliciosos; Pi: pizza no POP Vegan, Gó Qui Bu: nosso habitat natural no Vaca Verdade; o Halim que você adora; o Prime Dog que já é tradição; o Mexicaníssimo que é aquela festa; enfim bons momentos com sua mamãe e às vezes com o seu vovô também.

Flora, estou com saudades de verdade. Queria muito estar aí com vocês.


Hoje é quarta, daqui a exatas duas semanas a gente vai se encontrar. Dia 18! Você fará 1 ano e 10 meses, já. Há um ano, encontrei uma menininha de 2 anos que falava um monte, contei para seu papai e ele disse ser impossível imaginar você assim. Agora você me liga e manda mensagem: gogó! Tende!

Te amo

Gogó

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

29 de outubro de 2020

 Oi, minha netinha florida

Sonhei com você agora cedo, nem quis voltar a dormir porque queria guardar sua imagem na retina. Foi só um flash: tocava uma música e você ficava paradinha, para daí começar a pular, como você faz mesmo. Só que você olhava de soslaio, com o cantinho do olho, para ver se eu estava te olhando e, quando dava uma voltinha, eu estava mesmo te olhando; também, como a gente faz mesmo. Só que eu olhava a sua carinha e me dava um amor imenso, que inundou e aqueceu meu peito, no sonho e na realidade, tanto é que eu acordei. Nesse lugar estranho que ainda não é o dia mas já não é totalmente o sonho, eu te dava um beijinho no nariz e deixava meio melecado porque eu estava usando manteiga de cacau nos lábios, como eu sempre faço mesmo. 

Depois que o dia começa, vêm as leituras e a realidade. Como essa, que me lembra que antes de ir dormir eu soube que a França vai 'fechar' amanhã, fazer lockdown absoluto porque a peste voltou. Daí, acordei tão cedo e continuei a (re)leitura de Wolf Hall, exatamente no seguinte trecho:

"Todos parecem dotar a peste de uma inteligência humana, ou pelo menos animal: o lobo ataca as ovelhas, mas não nas noites em que os homens e os cães estão montando guarda. Talvez pensem que a peste é mais que animal ou humana - que Deus está por trás dela, Deus, aplicando seus velhos truques."




domingo, 25 de outubro de 2020

Seu papai

 Ontem, seu papei me contou que vai dar uma aula sobre eurocentrismo para um grupo de estudantes universitários. E também, vai dar um curso de formação no coletivo negro do qual faz parte. Privilégio seu crescer vendo outras coisas, em um mundo tão cheio de igual. A foto de vocês com o professor de jiu jitsu, o maior, todo mundo registrando o momento histórico da faixa coral e você olhando para o canto da fotografia, achando tudo normal: para você, isso tudo é mesmo normal. 

Só que não é. Um tempo tão igual e tão desigual, todo mundo querendo o mesmo e quase ninguém podendo querer algo. Você vai refletir sobre isso, mais tarde. 



Gogó Qui Bu

 Aqui, vovó, vamos brincar de se esconder como no outro dia. Mesmo uma semana depois, você lembrou perfeitamente da brincadeira que fizemos no restaurante de sempre - de quando a gente ia almoçar e passava no trabalho da sua mãe, namorada do seu pai, e eu de passagem pela cidade. Depois, a gente ia bastante, sua mamãe comendo até mais mas vomitando tudo em seguida, você ocupando seu espaço dentro dela, e mais tarde você ia no moisés, no cadeirão, agora comendo bastante e querendo logo levantar da mesa para brincar de se esconder, um jogo que não faz muito sentido se for pensar bem, mas quem quer pensar direito, quem quer ficar sentada comendo se pode fingir que se escondeu e fingir tomar um susto e a própria pessoa dar um pulo no ar e falar bu?

Uma menina linda que já sabe falar tudo, não as palavras mas contar o que gosta, qual o jogo, adora falar não - não, papai; não, mamãe. Gó! Qui, bu. 

Um mês curtindo você, Flora Benita. Foi mágico. Mas, agora, que saudades.

Qui, reparo que não tenho escrito e que deve ser porque a pandemia, a quarentena, virou algo difuso que ultrapassa a minha compreensão. Entrou em casa, o vírus, a mãe do Gael sabe-se lá como pegou e ele trouxe, seu gogô daqui pegou, eu fiquei muito mal e nervosa, chorei muito mas não peguei. E resolvi que se era para chorar não seria de saudades de vocês. 

Mas as pessoas estão na rua, sem máscaras, e na verdade a maior parte não morre. Mas o avô da Jamile morreu, ontem. E a mãe da Roberta, e o Daniel Azulay, e o Sérgio Sant'Anna, e o pai e a mãe da Ana Lúcia na mesma semana e até o Frederico que tinha outra coisa e não encontrou vaga na UTI. A mãe do Gael ficou internada, diz, e a avó dele, e agora está o avô. E aqui passou como uma gripe incômoda, então não sabemos.

O elevador do prédio tem uma placa que diz "exclusivo para os moradores que tem convide-19", sic. No shopping, tem uma entrada separada de uma saída, como se um vírus fosse pensar 'opa, aqui é só para sair, não é para mim, não'. As pessoas lavam as sacolas e tiram os sapatos, como se fosse isso, como se fosse assim. Um país que controlou a AIDS e ninguém entende o que é um vírus.

Dois escândalos por dia - um aliado com dinheiro enfiado no lugar de fazer cocô, sério! e o governo continua aí, firmão. A resistência é um bando de hashtags e notas de repúdio. Dinheiro dos milionários, bilionários, sei lá, apaziguando os pobres, dando esperança onde deveria crescer a vontade de lutar. 

Tempos tão estranhos e eu normal, trabalhando duas vezes mais, lendo bastante e sem conseguir escrever o que não sei contar e muito menos resumir.

O que eu sei é o que vai sobrar disso tudo, a preciosidade de um amor que diz gó, qui: bu!



domingo, 27 de setembro de 2020

27 de setembro - Yom Kipur

Nasceu! 

Eram as primeiras horas do dia 18 de janeiro de 2019 quando eu “senti” que você tinha acabado de chegar ao mundo, Florinha. Fiquei deitada de olhos abertos, no que hoje é o seu quarto, e depois de um tempo recebi uma mensagem do seu papai que dizia: Flora nasceu.

Você chegou linda e perfeita, e depois só foi melhorando. 

Hoje estou começando o meu jejum de Yom Kipur - já te explico - e pensando em você. Mas, até aí, nada demais: o que eu mais penso na vida, as minhas absolutas prioridades, são essas mesmas: papai e você. 

Amanhã a essa hora o ano novo judaico, 5.781, vai nascer também. Essa coisa de ano e de número é muito relativa, tanto é que a pandemia chama covid-19 e, para mim, esse ano de 2019 foi marcado pela vida, amor, abundância, felicidade. Foi marcado pelo seu nascimento.

Como eu disse, só faz melhorar. Na semana passada fomos jantar e você, do nada, virou para mim e falou: “eeeeeeh gogó!” produzindo um calorzinho gostoso no meu coração. Uns dias depois fui na sua casa e você adormeceu, quando acordou olhou para mim e disse ”Gogó”, veio pertinho, colocou a cabecinha no meu peito e dormiu de novo. Em outro momento, colocou um lenço umedecido em volta do meu pescoço e riu muito, mostrando seus dentinhos lindos, como se estivesse vendo a coisa mais engraçada do mundo. Dois dias depois, fomos buscar um burguer vegano no Prime Dog da Faria Lima. Você mandava eu tomar água ao mesmo tempo que você, duas palavras que você (praticamente) já sabe falar: água e igual. Isso também foi muito engraçado, tanto é que você riu muito. E também chamou várias vezes: “gogó!”. Já tá entre gogó e vovó, na verdade, o som dessa palavra. Só que isso nunca fica banal. 

Para melhorar ainda mais, seu pai foi ao banheiro e você inventou uma brincadeira de colocar o seu rostinho entre as minhas mãos. Certamente porque sabe que adoro fazer carinho em você. Quase que jogava a sua carinha linda entre as minhas mãos. Que graça.

A verdade, Florinha, é que criança é a melhor coisa do mundo.

Uma vez fui com seu papai ao teatro. No Centro Cultural São Paulo, demorou um tempão, ficamos horas na fila etc. etc. etc. A peça começou e não deu cinco minutos seu pai me pegou pela mão e disse: “vamos!”. E me levou para fora do sala de teatro. Daí eu expliquei para ele que não, a peça mal tinha começado; mas ele estava apavorado, desesperado para ir embora e eu acabei me rendendo e saímos. Lá fora, ajoelhei na frente dele e perguntei o que tinha acontecido, e ele: “o capitão Guincho (sic) queria pegar você”. Eu pedi para ele explicar e ele repetiu o que o capitão Gancho havia dito: “quero arrumar uma mãe para mim, vou escolher a melhor mãe do mundo e levar para ser minha”. 

Flora, eu podia falar dez mil linhas sobre Peter Pan (era essa a peça, né) e como a infância é o estado maravilhoso de descobertas e alegrias; ou sobre capitão (esse traste que por ora nos desgoverna) e como o passar do tempo leva coisas embora, assim como levará esse idiota e os imbecis que se orgulham da própria ignorência. Mas, ao invés disso, vou fazer um desejo - além do tradicional, que sejamos inscritos no livro da vida. Que em 5781 eu possa ter muitos momentos maravilhosos ao seu lado, junto do seu papai. Te amo 

A primeira vez que eu jejuei foi quando completei 12 anos. Levamos a minha avó na sinagoga e fomos a um restaurante (!) onde fiquei sentada olhando os outros comerem. Depois, meu pai falou que achou que tinha feito errado, que poderia ter me poupado de olhar e passar vontade. Só que não passei. Acho que sempre tive muita força de vontade, determinação, autodisciplina. Quando resolvo que vou - ou que não vou fazer algo - tá decidido, tô decidida. Não comi, não bebi e não aumentei a importância daquele momento; nem como tentação nem como um descuido. Que foi, né?

Enquanto escrevo, sei que você foi ao mexicano com mamãe, papai e gogô. Quando vê a frente do restaurante, você bate palminhas e faz: "eeeeeeee". Hoje, eu não fui porque estou aqui me cuidando, meditando, ouvindo o rabino dizer que 'a autoceitação, parece um paradoxo, mas é o primeiro passo para a mudança'. Esse descuido, de me levar a um restaurante durante o jejum, eu não cometo comigo. Mas até valeria a pena, só para te ver bater palminhas. Falar "gogó". Dar sua risada feliz.

Felizmente, vou estar com vocês para quebrar o jejum. Seu papai, que é o melhor filho do mundo, marcou de jantarmos você, mamãe, papai e gogó. Juntos. Que, por sinal, é o meu desejo para 5.871.

Shaná Tová!

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Dia 18 de setembro - Flora completa um ano e oito meses

Flora, netinha amada,

Hoje, uma menina muito linda veio aqui no apartamento onde a vovó está. Eu abri a porta e ela disse: Gogó! Cada vez que a sua vovó ouve isso dá um calor no coração, uma alegria na alma que não sei nem como te contar. Você tá muito linda e muito inteligente, uma bonequinha morena de nariz arrebitado. 

Hoje é o primeiro dia de 5781, o ano novo judaico. Gogó tá acompanhando pela internet, embora nos últimos anos eu não tenha ido à sinagoga nesse dia. E tô meio emocionada, sabia? Fazendo um pedido de miss: a paz mundial. Queria, mesmo, que as pessoas parassem de se odiar. Mais amor, por favor. Judeus, árabes, brancos, negros, mulheres, homens. Tá muito difícil um mundo em pandemia e ainda por cima em chamas e mergulhado em ódio. Quero um mundo melhor, diferente, para você. Sério.

E quero também ficar mais perto. Por isso tomei essa decisão de ficar um mês em São Paulo, porque ficar longe de você e do seu papai não dá. Então, estou aqui vendo a cerimônia pela internet e lembrando de uma pessoa muita especial na minha vida. A Noca, minha melhor amiga que morreu. Depois que ela se foi, eu nunca mais fui a mesma. Incorporei algo dela, a alegria, a energia, o riso, a vibração. Mudei. E hoje estou lembrando da última vez que estivemos juntas no acampanhamento, e também era shabat e ela que fez a reza das velas. Eu, nem conhecia, na minha casa praticamente  não tinha religião. 

Depois, ela me abraçou e chorou e disse que nunca mais iria ao acampamento, aquela seria a última vez. Eu fiquei muito incomodada, tentando acalmar ela e entender o que era aquilo. Resumindo, a gente estava olhando a fogueira e ela me contou que sabia que tudo iria mudar. Pouco depois, ela descobriu que tinha um câncer e dez meses depois, se foi. Porque estou contando isso agora? Sei lá. E nem é com tristeza que falo, é com gratidão por ter conhecido a Noca, por ter tido ela na minha vida. E, por de certa forma, ter ela comigo até hoje.

Essa foi uma semana difícil em um período duro. Hoje, um novo ano, shabat de lua nova, conectada pela internet, meu coração sente esperança. Tenho saúde e uma alegria dentro de mim que estou precisando resgatar.

Um vez fomos nesse primeiro dia de Rosh Hashaná, eu e seu papai, na sinagoga. Foi uma das poucas vezes em que fui, ouvir o toque do shofar, que é um chifre de carneiro que soa anunciando que começa o período de revisão do ano que está acabando. Daqui a dez dias, depois de um dia de reflexão e jejum, é que 5781 começará de verdade. 

Então, comprei um livro de rezas para marcar a solenidade de ir com seu papai nesse dia. E, na saída, telefonei para seu bisavô, o meu papai, do telefone da portaria. Nem existia celular ainda, que história velha, Florinha. E seu papai disse assim: "Vovô! Sabe onde eu estou? Na ópera!" hahahahahahaha porque na cerimônia judaica tem muita música, agora mesmo estão cantando uma linda. E mostrando diversas famílias, em suas casas. Uma delas é a cantora Fortuna, lindo nome, linda voz. Estamos muito espalhados pelo mundo. E estamos juntos, muitos de nós, nesse momento. É terrível e emocionante.

Obrigada por existir, Flora Benita. Que bom que você veio aqui hoje e me chamou de vovó. Eu te amo. Shaná Tová!

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Dia 4 de setembro de 2020

Depois de cinco meses sem te ver, você olhou para mim, do colo da outra vovó. Eu só fiz um coração com as mãos, nem tentei chegar muito perto. Ela te levou para onde estavam sua mamãe e seu papai: sentados no chão, entre a parede e a cama, e você ficou brincando entre eles. Eu sentei na cama, você encostou a ponta do dedinho no dedo da sua mãe, eu encostei o meu dedo no dela e só aí, na pontinha do seu, e você falou: nana. Eu perguntei: você quer uma banana? Então vem comigo que eu te dou. Estiquei a minha mão e você pegou, saímos andando as duas de mãos dadas. 

Depois do almoço, você ficou chatinha e seu pai disse que era sono, e que ia demorar um pouco até você conseguir dormir. Eu te aninhei nos braços e fiquei te embalando. Ele olhou e viu você dormindo profundamente, se espantou. Eu fiquei olhando você e sentindo o seu cheirinho, seu peso, sua forma. Dormi um pouquinho também, quando acordou você chorou chamando sua mãe. Daí em diante foi como se os últimos cinco meses, nós duas distantes, não tivessem existido.

Ursula Le Guin disse que escrever uma história é explicar em palavras o que não pode ser explicado em palavras.


 

domingo, 30 de agosto de 2020

30 de agosto - parando de contar os dias da quarentena

Florinha amada, ontem teve uma festinha de criança aqui do lado. Você adora cantar parabéns, bater palmas, soprar a velinha, né? Mas só que essa foi bem diferente. Escutei uma música de aniversário tocando bem alto, e olhei pela janela na direção do salão de festas. Mas, não. A festinha era no estacionamento, meia dúzia de crianças de máscaras e a mãe de uma delas. Acho que nem tinha bolo, porque não daria para assoprar. Todo mundo cantava, mas ninguém se abraçava. Eu comecei a chorar, acredita? 

Tão triste isso, netinha, essa pandemia horrorosa. As crianças não podendo se abraçar, brincar, correr todas juntas. E os adultos achando que tudo bem continuar fazendo mil compras (só que pela internet), comendo carne e descartando plásticos da maneira correta para a reciclagem. Gente, precisa desenhar que não dá para continuar consumindo o planeta? Qual parte ainda não está clara o suficiente? Não adianta apenas tentar amenizar,  'consumir verde' ou 'compensar o consumo'. Se bem que tem carro que não usa combustível fóssil e a motorista se diverte mesmo sem queimar gasolina, como esse aí da foto.


Resolvi parar de contar os dias da quarentena porque acho que o 'novo normal' de que todo mundo falava é hoje, é esse normal aí que a gente está vivendo. As coisas parecem que não vão melhorar, ao menos do que depender do ser humano. Desculpe se estou sendo negativa! Vamos melhorar esse astral e falar de algo que eu amo e pelo visto você também adora? Vamos falar de dança!

Sabia que a sua vovó já foi mocinha? E, naquela época, era conhecida pelos amigos como a pessoa que chegava na festa, 'abria' a pista e dançava até o sol raiar? É sério! E, inúmeras vezes, não tinha onde ou com quem dançar, e eu ia sozinha a uma boate gay, onde sabia que podia brincar de dancing queen sem ninguém me aborrecer? É verdade, Florinha, e também era comum eu colocar uma música e dançar na frente do espelho por horas e horas e horas. Também, estudei ballet e danças folclóricas desde pequena.

Seu papai me chamou no vídeo essa semana e você estava dançando uma música super no ritmo! E, cada vez que acaba uma música e começa outra, você muda a forma de dançar e a postura, e acompanha a batida direitinho. Já tem uma coreografia certinha para as músicas que estão no seu Top 10, que gracinha. Daí, uma hora a música parou e você fez aquilo que eu a-do-ro, jogou os bracinhos para trás e o corpinho para a frente e fez um 'O' na boquinha, a mímica perfeita do 'mas o que é isso, pessoal?'. 

Agora, só de lembrar, não sei dizer se me dá mais vontade de rir ou de chorar. De saudades. Não vejo a hora de te encontrar, netinha linda.