domingo, 27 de setembro de 2020

27 de setembro - Yom Kipur

Nasceu! 

Eram as primeiras horas do dia 18 de janeiro de 2019 quando eu “senti” que você tinha acabado de chegar ao mundo, Florinha. Fiquei deitada de olhos abertos, no que hoje é o seu quarto, e depois de um tempo recebi uma mensagem do seu papai que dizia: Flora nasceu.

Você chegou linda e perfeita, e depois só foi melhorando. 

Hoje estou começando o meu jejum de Yom Kipur - já te explico - e pensando em você. Mas, até aí, nada demais: o que eu mais penso na vida, as minhas absolutas prioridades, são essas mesmas: papai e você. 

Amanhã a essa hora o ano novo judaico, 5.781, vai nascer também. Essa coisa de ano e de número é muito relativa, tanto é que a pandemia chama covid-19 e, para mim, esse ano de 2019 foi marcado pela vida, amor, abundância, felicidade. Foi marcado pelo seu nascimento.

Como eu disse, só faz melhorar. Na semana passada fomos jantar e você, do nada, virou para mim e falou: “eeeeeeh gogó!” produzindo um calorzinho gostoso no meu coração. Uns dias depois fui na sua casa e você adormeceu, quando acordou olhou para mim e disse ”Gogó”, veio pertinho, colocou a cabecinha no meu peito e dormiu de novo. Em outro momento, colocou um lenço umedecido em volta do meu pescoço e riu muito, mostrando seus dentinhos lindos, como se estivesse vendo a coisa mais engraçada do mundo. Dois dias depois, fomos buscar um burguer vegano no Prime Dog da Faria Lima. Você mandava eu tomar água ao mesmo tempo que você, duas palavras que você (praticamente) já sabe falar: água e igual. Isso também foi muito engraçado, tanto é que você riu muito. E também chamou várias vezes: “gogó!”. Já tá entre gogó e vovó, na verdade, o som dessa palavra. Só que isso nunca fica banal. 

Para melhorar ainda mais, seu pai foi ao banheiro e você inventou uma brincadeira de colocar o seu rostinho entre as minhas mãos. Certamente porque sabe que adoro fazer carinho em você. Quase que jogava a sua carinha linda entre as minhas mãos. Que graça.

A verdade, Florinha, é que criança é a melhor coisa do mundo.

Uma vez fui com seu papai ao teatro. No Centro Cultural São Paulo, demorou um tempão, ficamos horas na fila etc. etc. etc. A peça começou e não deu cinco minutos seu pai me pegou pela mão e disse: “vamos!”. E me levou para fora do sala de teatro. Daí eu expliquei para ele que não, a peça mal tinha começado; mas ele estava apavorado, desesperado para ir embora e eu acabei me rendendo e saímos. Lá fora, ajoelhei na frente dele e perguntei o que tinha acontecido, e ele: “o capitão Guincho (sic) queria pegar você”. Eu pedi para ele explicar e ele repetiu o que o capitão Gancho havia dito: “quero arrumar uma mãe para mim, vou escolher a melhor mãe do mundo e levar para ser minha”. 

Flora, eu podia falar dez mil linhas sobre Peter Pan (era essa a peça, né) e como a infância é o estado maravilhoso de descobertas e alegrias; ou sobre capitão (esse traste que por ora nos desgoverna) e como o passar do tempo leva coisas embora, assim como levará esse idiota e os imbecis que se orgulham da própria ignorência. Mas, ao invés disso, vou fazer um desejo - além do tradicional, que sejamos inscritos no livro da vida. Que em 5781 eu possa ter muitos momentos maravilhosos ao seu lado, junto do seu papai. Te amo 

A primeira vez que eu jejuei foi quando completei 12 anos. Levamos a minha avó na sinagoga e fomos a um restaurante (!) onde fiquei sentada olhando os outros comerem. Depois, meu pai falou que achou que tinha feito errado, que poderia ter me poupado de olhar e passar vontade. Só que não passei. Acho que sempre tive muita força de vontade, determinação, autodisciplina. Quando resolvo que vou - ou que não vou fazer algo - tá decidido, tô decidida. Não comi, não bebi e não aumentei a importância daquele momento; nem como tentação nem como um descuido. Que foi, né?

Enquanto escrevo, sei que você foi ao mexicano com mamãe, papai e gogô. Quando vê a frente do restaurante, você bate palminhas e faz: "eeeeeeee". Hoje, eu não fui porque estou aqui me cuidando, meditando, ouvindo o rabino dizer que 'a autoceitação, parece um paradoxo, mas é o primeiro passo para a mudança'. Esse descuido, de me levar a um restaurante durante o jejum, eu não cometo comigo. Mas até valeria a pena, só para te ver bater palminhas. Falar "gogó". Dar sua risada feliz.

Felizmente, vou estar com vocês para quebrar o jejum. Seu papai, que é o melhor filho do mundo, marcou de jantarmos você, mamãe, papai e gogó. Juntos. Que, por sinal, é o meu desejo para 5.871.

Shaná Tová!

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Dia 18 de setembro - Flora completa um ano e oito meses

Flora, netinha amada,

Hoje, uma menina muito linda veio aqui no apartamento onde a vovó está. Eu abri a porta e ela disse: Gogó! Cada vez que a sua vovó ouve isso dá um calor no coração, uma alegria na alma que não sei nem como te contar. Você tá muito linda e muito inteligente, uma bonequinha morena de nariz arrebitado. 

Hoje é o primeiro dia de 5781, o ano novo judaico. Gogó tá acompanhando pela internet, embora nos últimos anos eu não tenha ido à sinagoga nesse dia. E tô meio emocionada, sabia? Fazendo um pedido de miss: a paz mundial. Queria, mesmo, que as pessoas parassem de se odiar. Mais amor, por favor. Judeus, árabes, brancos, negros, mulheres, homens. Tá muito difícil um mundo em pandemia e ainda por cima em chamas e mergulhado em ódio. Quero um mundo melhor, diferente, para você. Sério.

E quero também ficar mais perto. Por isso tomei essa decisão de ficar um mês em São Paulo, porque ficar longe de você e do seu papai não dá. Então, estou aqui vendo a cerimônia pela internet e lembrando de uma pessoa muita especial na minha vida. A Noca, minha melhor amiga que morreu. Depois que ela se foi, eu nunca mais fui a mesma. Incorporei algo dela, a alegria, a energia, o riso, a vibração. Mudei. E hoje estou lembrando da última vez que estivemos juntas no acampanhamento, e também era shabat e ela que fez a reza das velas. Eu, nem conhecia, na minha casa praticamente  não tinha religião. 

Depois, ela me abraçou e chorou e disse que nunca mais iria ao acampamento, aquela seria a última vez. Eu fiquei muito incomodada, tentando acalmar ela e entender o que era aquilo. Resumindo, a gente estava olhando a fogueira e ela me contou que sabia que tudo iria mudar. Pouco depois, ela descobriu que tinha um câncer e dez meses depois, se foi. Porque estou contando isso agora? Sei lá. E nem é com tristeza que falo, é com gratidão por ter conhecido a Noca, por ter tido ela na minha vida. E, por de certa forma, ter ela comigo até hoje.

Essa foi uma semana difícil em um período duro. Hoje, um novo ano, shabat de lua nova, conectada pela internet, meu coração sente esperança. Tenho saúde e uma alegria dentro de mim que estou precisando resgatar.

Um vez fomos nesse primeiro dia de Rosh Hashaná, eu e seu papai, na sinagoga. Foi uma das poucas vezes em que fui, ouvir o toque do shofar, que é um chifre de carneiro que soa anunciando que começa o período de revisão do ano que está acabando. Daqui a dez dias, depois de um dia de reflexão e jejum, é que 5781 começará de verdade. 

Então, comprei um livro de rezas para marcar a solenidade de ir com seu papai nesse dia. E, na saída, telefonei para seu bisavô, o meu papai, do telefone da portaria. Nem existia celular ainda, que história velha, Florinha. E seu papai disse assim: "Vovô! Sabe onde eu estou? Na ópera!" hahahahahahaha porque na cerimônia judaica tem muita música, agora mesmo estão cantando uma linda. E mostrando diversas famílias, em suas casas. Uma delas é a cantora Fortuna, lindo nome, linda voz. Estamos muito espalhados pelo mundo. E estamos juntos, muitos de nós, nesse momento. É terrível e emocionante.

Obrigada por existir, Flora Benita. Que bom que você veio aqui hoje e me chamou de vovó. Eu te amo. Shaná Tová!

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Dia 4 de setembro de 2020

Depois de cinco meses sem te ver, você olhou para mim, do colo da outra vovó. Eu só fiz um coração com as mãos, nem tentei chegar muito perto. Ela te levou para onde estavam sua mamãe e seu papai: sentados no chão, entre a parede e a cama, e você ficou brincando entre eles. Eu sentei na cama, você encostou a ponta do dedinho no dedo da sua mãe, eu encostei o meu dedo no dela e só aí, na pontinha do seu, e você falou: nana. Eu perguntei: você quer uma banana? Então vem comigo que eu te dou. Estiquei a minha mão e você pegou, saímos andando as duas de mãos dadas. 

Depois do almoço, você ficou chatinha e seu pai disse que era sono, e que ia demorar um pouco até você conseguir dormir. Eu te aninhei nos braços e fiquei te embalando. Ele olhou e viu você dormindo profundamente, se espantou. Eu fiquei olhando você e sentindo o seu cheirinho, seu peso, sua forma. Dormi um pouquinho também, quando acordou você chorou chamando sua mãe. Daí em diante foi como se os últimos cinco meses, nós duas distantes, não tivessem existido.

Ursula Le Guin disse que escrever uma história é explicar em palavras o que não pode ser explicado em palavras.


 

domingo, 30 de agosto de 2020

30 de agosto - parando de contar os dias da quarentena

Florinha amada, ontem teve uma festinha de criança aqui do lado. Você adora cantar parabéns, bater palmas, soprar a velinha, né? Mas só que essa foi bem diferente. Escutei uma música de aniversário tocando bem alto, e olhei pela janela na direção do salão de festas. Mas, não. A festinha era no estacionamento, meia dúzia de crianças de máscaras e a mãe de uma delas. Acho que nem tinha bolo, porque não daria para assoprar. Todo mundo cantava, mas ninguém se abraçava. Eu comecei a chorar, acredita? 

Tão triste isso, netinha, essa pandemia horrorosa. As crianças não podendo se abraçar, brincar, correr todas juntas. E os adultos achando que tudo bem continuar fazendo mil compras (só que pela internet), comendo carne e descartando plásticos da maneira correta para a reciclagem. Gente, precisa desenhar que não dá para continuar consumindo o planeta? Qual parte ainda não está clara o suficiente? Não adianta apenas tentar amenizar,  'consumir verde' ou 'compensar o consumo'. Se bem que tem carro que não usa combustível fóssil e a motorista se diverte mesmo sem queimar gasolina, como esse aí da foto.


Resolvi parar de contar os dias da quarentena porque acho que o 'novo normal' de que todo mundo falava é hoje, é esse normal aí que a gente está vivendo. As coisas parecem que não vão melhorar, ao menos do que depender do ser humano. Desculpe se estou sendo negativa! Vamos melhorar esse astral e falar de algo que eu amo e pelo visto você também adora? Vamos falar de dança!

Sabia que a sua vovó já foi mocinha? E, naquela época, era conhecida pelos amigos como a pessoa que chegava na festa, 'abria' a pista e dançava até o sol raiar? É sério! E, inúmeras vezes, não tinha onde ou com quem dançar, e eu ia sozinha a uma boate gay, onde sabia que podia brincar de dancing queen sem ninguém me aborrecer? É verdade, Florinha, e também era comum eu colocar uma música e dançar na frente do espelho por horas e horas e horas. Também, estudei ballet e danças folclóricas desde pequena.

Seu papai me chamou no vídeo essa semana e você estava dançando uma música super no ritmo! E, cada vez que acaba uma música e começa outra, você muda a forma de dançar e a postura, e acompanha a batida direitinho. Já tem uma coreografia certinha para as músicas que estão no seu Top 10, que gracinha. Daí, uma hora a música parou e você fez aquilo que eu a-do-ro, jogou os bracinhos para trás e o corpinho para a frente e fez um 'O' na boquinha, a mímica perfeita do 'mas o que é isso, pessoal?'. 

Agora, só de lembrar, não sei dizer se me dá mais vontade de rir ou de chorar. De saudades. Não vejo a hora de te encontrar, netinha linda. 

sábado, 22 de agosto de 2020

22 de agosto - dia 160 da quarentena

 Flora Benita, neta linda, minha amora de olhos enormes e cachichos pretos, que sua mãe diz que são antenas do universo. O que eu mais queria agora era estar aí em Mogi com vocês. A segunda coisa que eu mais queria, era ter um filminho dos melhores - ou seja, todos - os momentos que nós passamos juntas. Agora mesmo eu iria assistir você sapateando, pulando - nunca vi um nenê tão ágil! - e fazendo: buuuu! Eu digo 'ai que susto' e você gargalha! O mais engraçado é que essa brincadeira continua rolando mesmo por vídeo, embora claramente não faça muito sentido (o susto, né? nós duas dando risadas juntas sempre fará muito sentido).

Você é agitada e adora se mexer. Já sabe falar bola (bó) e inventamos um jogo de gogósbol que é o máximo, as suas duas vovós se divertem muito. Não tanto por causa da bola rolando, mas por causa da sua risada deliciosa, sua carinha esperta e animada. Quando escuta a Sandy (que seu papai chamava de Sendijunio e insistia que era uma só pessoa) cantando 'vamos pular' você faz o comecinho da coreografia, com os bracinhos para um lado e depois para o outro. E pula muito! E, claro, sabe treinar kettlebell esporte como seu papai. 

Também sabe contar a história do peixe (pexx) que pulou (po) do aquário e nós levamos um susto (so). Susto tem a boquinha aberta, espantada. Na verdade, tem muito mais: você joga o corpinho para a frente e os bracinhos para trás e dá um saltinho para o alto, no mais genuíno e fingido espanto. Só esse gesto, sozinho, já seria suficiente para me encantar e me dá aquela vontade de estar pertinho de vocês.

Depois de almoçar, um dia, você ficou chatinha, com sono. Eu te peguei nos braços e fiquei ninando, seu pai com aquela cara de 'isso não vai adiantar' e logo você dormindo, como uma nenezinha linda que você é mesmo. Daí eu te coloquei dormindo sobre mim, igualzinho eu fazia com seu pai. Ele dormia sobre a minha barriga, de onde ele veio. E você ficou sobre o meu coração, que é onde você mora. Eu sinto que somos ligadas de uma forma diferente: não uma relação umbilical como tenho com seu pai, e você tem com a sua mamá, mas um amor maior que a vida. 


sábado, 8 de agosto de 2020

8 de agosto - dia 146 da quarentena

Gogó aqui, morrendo de saudades. E você aí, vivendo a vida loka pedalando com papai. Ontem, Florinha, você me ligou e mandou beijos, deu tchauzinho, sorriu muito e fez vários amigos nossos encostarem a boquinha no celular para me beijar também: o Pluto nenê, o cachorrinho que late irritante e por isso mesmo está sem pilha, alguns dos anões, inclusive o Mestre, que sempre foi com o qual eu mais me identifiquei (sim, sua gogó sempre foi meio chata, mesmo), o tatu-bola que a Tuca deu e é uma obra de arte de tão lindo. Você está linda, pulante, falante, sorridente, feliz. 

Fora de nossas casas, o Brasil atinge 100 mil mortos e mais de 3 milhões de infectados; as pessoas trabalhando cada vez mais de suas casas fazem com que ainda mais empregos sejam extintos, agravando absurdamente uma recessão que já vinha galopante; as pessoas não sabem nem mais sequer o que chamar de 'novo normal', aquilo que viria no pós-pandemia mas já ficou ultrapassado; os programas de TV voltam a ser gravados com cuidados como limpar as solas dos sapatos e abusar dos detergentes (atitudes completamente inócuas) enquanto as pessoas conversam a menos de um metro de distância (o que, isso sim, transmite os vírus); o presidente é pego recebendo dinheiro de miliciano que esteva foragido, ameaça dar um golpe e não acontece nada.

Mas a gente está feliz: eu, aqui, morrendo de saudades mas trabalhando direitinho, saudável; o vovô Carlos que conseguiu vencer a campanha de financiamento coletivo hoje, e amanhã terá o Gael no Dia dos Pais no qual completamos três anos em Brasília; e você, com seus papai e mamãe, e a família da mamãe em Mogi. 

A vida é loka, mesmo.



sábado, 1 de agosto de 2020

Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Dia 2 de agosto - dia 140 da quarentena

Contagem regressiva para encontrar netinha: faltam 8 dias.

Florinha, por causa do seu pai esse período de quarentena foi extremamente profícuo: tenho lido várias coisas de teoria que ele me indicou. Todas, bem revolucionárias. Embora a gente discorde em alguns temas (eu gosto do termo necropolítica, ele não etc.) tem uma inversão interessante: ele é que me orienta. Ele é o meu professor, o estudioso. Ele que dá indicações de leituras complementares e tira dúvidas. Nessas, tenho devorado vários tomos de teoria, tomos entre aspas, porque leio tudo no meu ebook amado. Até agora me definia como ecossocialista, mas o que eu lia mesmo não passava muito de feministas (O Mito da Beleza, da Naomi Woolf, talvez meu livro preferido; e muitos outros, das clássicas às da novíssima geração, no estilo “Nós somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” - ou seja, você é a neta da neta. Nossa que parênteses longo.); pensadores da internet livre que surgiram junto com a própria mídia, lembrando que eu sou da primeira geração, comecei a trabalhar em uma empresa digital quando ninguém nem tinha e-mail; filósofos da saúde, como Foucault e Susan Sontag (porque sua vovó é sanitarista) e esses que "todo mundo" lê, todo mundo entre duplas aspas: Naomi Klein, Noam Chonsky, Rebecca Solnit, Zizek, vários outros. Enfim, os mais populares. Falando assim parece que lia muito, mas na verdade eu leio mil vezes mais literatura do que teoria.

Conheci o seu vovô Otávio em um curso de marxismo, ele era o professor. Agora, graças ao professor da nova geração (mais conhecido como papai) tenho adorado conhecer Fanon, Losurdo, vários revolucionários, até Ho Chi Minh meu mestre tá me apresentando! Como eu leio só pelo conhecimento mesmo, sem a menor preocupação de sistematizar ou explicar para alguém, é um enorme prazer. O prazer da descoberta, que espero e confio que você abrace, também.

Te amo! 


Dia primeiro de agosto - dia 139 da quarentena

Florinha, não tenho palavras para descrever como nem vejo a hora de te encontrar. Fico lembrando das nossas brincadeiras e imaginando você, com esses olhos imensos de jabuticaba; tentando lembrar do seu cheiro e da sua voz. 
Assim que puder quero te ver assim, bem descontraída, você mesma.



quarta-feira, 29 de julho de 2020

Dia 29 de julho - dia 136 da quarentena


Flora amada da vovó, hoje é uma data triste; motivo pelo qual essa postagem tem que ser meio triste, também. Motivo pelo qual ela só será postada amanhã, aliás: não quero ninguém imaginando que vá acontecer algo de ruim hoje (além de tudo que já está ocorrendo,né?)

É o nono dia do mês Av (Tisha B´Av) no calendário hebraico. Segue a explicação:

A data de destruição do primeiro grande templo ocorre no mesmo dia, quase setecentos anos antes, que a destruição do segundo templo. O mesmo dia em que Bar Kochba derrotado, institucionaliza o eterno exílio judaico. Não o exílio da autodeterminação, mas o exílio de que nos falam estas coincidências. Pois nessa data, os judeus foram expulsos da Inglaterra e também da Espanha, o maior trauma medieval judaico. Data que inicia pogroms, data em que se inicia a Primeira Guerra Mundial e um destino macabro ao judaísmo do século XX. Data do lançamento da primeira bomba atômica sobre seres humanos. Data de muitas outras coisas, coisas que talvez só você saiba*.

Data desconectada do calendário solar e lunar, um dia qualquer. Seu símbolo não é a tristeza ou o medo da noite, mas o desespero do meio-dia do sol que racha o solo, o sol que se parece, infinitamente se parece com todos os outros sóis de todos os outros infindáveis dias. Momento de saudades, de aperto, de angústia, não do escuro, facilmente desmentido pela luz, mas da própria luz que não parece conduzir a lugar algum, este lugar onde não queremos ir - todos. É a falta. A falta assimilada.

Delicioso desespero que a tradição judaica transformou em ironia, a mesma que nos esclarece que "se não fossem pelas lágrimas não perceberíamos o desagregar-se das cores no arco-íris". Depressão que não é down, que é saudade das sombras que o sol a pique nos sabe roubar. Dia de jejum, de sentir o gosto de si mesmo - saliva repleta de gostos nunca mais sentidos, de uma infância questionável, de um futuro incerto.

Tal qual a água sob certas condições é gelo ou ar, assim é a alma - sob certas condições de luminosidade, é exílio.

Os judeus aprenderam a pintar seus séculos com este tom da alma humana, sua história ajudou. E, tal qual os cálculos indicavam, o fim do poço é o fim, não passa daí. Pois neste dia de acontecimentos fatídicos, de expulsão, de saudades do exílio, neste mesmo dia nascerá o Messias - não - exilado.

Perguntar-se-á alguém menos familiarizado: "Precisa ser tão cinzenta esta tradição?" Ela não é - Promove arco-íris. 
(parte do texto que recebi por e-mail da Congregação Judaica do Brasil)

*nessa data do calendário judaico, em 2003, morreu a minha mãe.

Sua bisavó, Florinha. Depois disso, muita coisa aconteceu: seu pai cresceu (ele tinha só 12 anos naquela época). Conheceu sua mãe, casou, teve a filha mais linda do mundo. Minha netinha.

É, a vida continua. Mesmo em quarentena, longe de você, ainda bem que a vida continua. 

Adivinha quem é essa nenê? Sua vovó Loló, por enquanto mais conhecida como Gó. Essa foto foi tirada no Guarujá, praia onde sua gogó praticamente cresceu, em 8 de março de 1965; faltavam três semanas para eu completar um aninho, portanto.

Te amo

quarta-feira, 22 de julho de 2020

22 de julho - dia 129 da quarentena

Nossa, Florinha, acordei 2h30 da manhã e não consegui mais dormir, levantei, fiz chá de erva-cidreira (lembrei do meu pai), comi duas maças, li muitas páginas do Não Basta Dizer Não (da Naomi Klein). Desassossego total, super preocupada porque seu papai me contou que tem vários casos de covid aí, bem pertinho de vocês, na vizinhança.

A verdade, netinha, amada, é que tá uma bagunça danada - como diria o seu outro bisavô, que adorava usar umas palavras das antigas como danada e camarada. Eu entrevistei uma pessoa muito sábia em saúde, esses dias, uma mulher que é especialista no SUS. Nosso Sistema Único de Saúde é o maior do mundo, sabia? Espero que no momento em que você está lendo isso, ele ainda exista, seja robusto, forte, universal. Enfim. Comentei com ela que eu, mesmo sendo sanitarista, ando lendo o jornal e não entendendo nada. Ela fez um silêncio respeitoso, certamente pensando 'coitada', mas aí eu expliquei e ela concordou comigo: as notícias são tão desencontradas que eu leio tudo e não chego a nenhuma conclusão.

Os casos estão aumentando, ou diminuindo? Chegamos no topo? Na verdade, ficamos estacionados em um platô, só que ele é altíssimo. A situação é péssima, mas ao mesmo tempo as pessoas não aguentam mais ficar em casa com tudo abrindo, dá uma sensação de ser o último crente do mundo. Foi o que eu falei para o seu pai: que tinha que continuar em quarentena, que voltar à vida normal era coisa de negacionista (peguei pesado, eu sei, depois pedi desculpas). E ele me respondeu: mas, mãe, já abriu tudo. E eu entendi, mas fiquei uma noite em claro, sem dormir, como essa de ontem para hoje. Só que essa foi pior ainda.

Em resumo, o que eu desejo é que vocês fiquem bem e saudáveis, só isso. Quero muitas coisas boas para os brasileiros, as pessoas do mundo todo, a humanidade, mas no final das contas só o que me interessa são três pessoinhas nesse universo: você, seu papai e sua mamãe. Mais do que eu mesma. Fiquem bem aí, em três semanas estarei chegando para te ver. Te amo.

sábado, 18 de julho de 2020

Dia 18 de julho - seu aniversário de um ano e meio

Hoje é um dia lindo, minha amada neta Flora Benita completa um ano e meio, forte, linda, saudável, inteligente, carinhosa. Mais do que perfeita, parece um milagre (lembrei que chamava seu papai de milagrinho quando ele era nenê). Parabéns netinha, te amo.